Nº 133 NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2007 | ENGLISH | ESPAÑOL
Djibuti texto: Cláudio Lovato Filho     fotos: Américo Vermelho
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O mundo no canteiro de obras

Construção de terminal de contêineres no Porto de Djibuti, na África, é feita por equipe com integrantes de 16 nacionalidades

O território é repleto de cadeias de montanhas e lagos de água salgada. O maior deles é o Lac Assal, a massa d’água mais salina do mundo e também o ponto mais baixo da África, 156 m abaixo do nível do mar. Cristais de sal se acumulam em suas margens, num espetáculo único e inesquecível. O clima é tórrido: a temperatura pode atingir 55ºC. E, com freqüência, atinge. As belas paisagens têm de ser vislumbradas através de uma bruma permanente, causada pela poeira do deserto. Os franceses chegaram aqui no fim da década de 1850, quando a pequena extensão de terra (23 mil km2, área equivalente à do estado brasileiro de Sergipe ou à do estado norte-americano de Massachusetts) era ocupada apenas por nativos das etnias afar e issa. Em 1888, surgiu a Somália Francesa, que se tornaria independente em 1977. Estamos em Djibuti, país muçulmano no extremo leste do continente, no chamado Chifre da África. Aqui, a Odebrecht participa de um projeto crucial para o desenvolvimento socioeconômico deste país pouco conhecido, de 700 mil habitantes, dos quais 80% são moradores da capital, a cidade de Djibuti.

Quando a equipe da Odebrecht Informa chegou a Djibuti, no fim de setembro, a temperatura estava amena para os padrões locais: andava ali pelos 38ºC, e os que moram no país estavam gratos por isso. O Ramadã começara havia duas semanas. É o mês sagrado no mundo islâmico, durante o qual é feito jejum (inclusive de água) do amanhecer ao anoitecer, todos os dias. No fim do dia, é o momento do Iftar, a quebra do jejum, hora de ceia e confraternização. O sentido do Ramadã é a separação do corpo físico do espiritual para a adoração a Deus. Nas casas, nos restaurantes e nos incontáveis cafés da cidade de Djibuti, as comemorações do Iftar enchiam as ruas de vozes, luzes e alegria.

Na cidade predominam os prédios baixos, antigos, a maioria mal-conservados. Há quem pense em Havana. E, da mesma forma que os moradores da capital de Cuba, os djibutianos gostam de conversar nas calçadas, em grupos, sentados às mesas dos inumeráveis cafés. São um povo hospitaleiro, descontraído e falante. A cidade é segura. Pode-se andar por suas ruas a qualquer hora sem o menor receio. É um lugar pacífico. E nem a visão constante de soldados da Legião Estrangeira francesa, que tem base na cidade e conta inclusive com brasileiros em seu contingente, afasta a impressão e o sentimento de que a violência não é problema em Djibuti.

O problema é outro: a carência de infra-estrutura em diversos setores – transportes, energia, saneamento, educação, saúde. Djibuti é um país pobre. Fazer o país crescer e, com isso, proporcionar mais qualidade de vida à população é o desafio que o Governo do Presidente Ismael Omar Guelleh vem tentando superar. O principal vetor dos novos tempos, tão aguardados, é bem conhecido de todos os que vivenciam a realidade do país: o Porto de Djibuti. De frente para o Golfo de Aden, ele é a principal porta de entrada e saída do Mar Vermelho, o que lhe confere uma importância estratégica de primeira linha em âmbito mundial. É a região por onde trafega grande parte da produção de petróleo do planeta. Além disso, a Etiópia, país de 80 milhões de habitantes vizinho de Djibuti que não tem acesso ao mar, necessita do Porto de Djibuti como uma pessoa necessita de ar.

Um projeto crucial
Com o Terminal de Contêineres de Doraleh, que a Odebrecht está construindo em consórcio com a empresa local Soprim desde setembro de 2006, o porto, a principal fonte de receita de Djibuti, se revestirá de uma importância ainda maior, ao oferecer mais capacidade de armazenamento de carga e mais eficiência operacional. Esse projeto, resultado de um investimento total de US$ 300 milhões, é essencial para o desenvolvimento de Djibuti e está se tornando realidade com a participação de trabalhadores de 16 diferentes nacionalidades – a maioria djibutianos, indianos, brasileiros, filipinos e etíopes.

São 16 nacionalidades e um número ainda maior de idiomas. Há países nos quais as línguas oficiais são mais de uma, a exemplo da Índia (cujos idiomas mais falados são o hindi e o urdu) e de Djibuti (que tem como línguas oficiais o árabe e o francês). A diversidade idiomática impressiona, mas as diferenças religiosas são outra face desse mosaico cultural que é o canteiro da Odebrecht em Djibuti. Pessoas orando, voltadas para Meca, cidade sagrada do Islã na Arábia Saudita, são uma visão freqüente na obra. Nesses momentos, a produção pára, fruto de um acordo entre os trabalhadores e a empresa. Mas além dos muçulmanos há os hindus, os protestantantes, os católicos, os católicos ortodoxos. Diversidade de idiomas e de religiões que se estende também à culinária. São 650 trabalhadores na obra e uma parte deles é composta de vegetarianos, por exemplo.

Algumas cenas do dia-a-dia, absolutamente corriqueiras para quem as protagoniza, refletem com precisão esse grande encontro cultural. Numa manhã do fim de setembro, no corredor do escritório do canteiro de obras, Raul Sánchez pedia a um companheiro, em espanhol, que lhe enviasse um arquivo PDF. Perto dele, Gashaw Tarekegn, Lema Alehegn e Edom Tafesse conversavam em etíope. Rahma Amoud, sentada à sua mesa, telefone em punho, providenciava passagens aéreas, falando em inglês. Minutos depois, surgia o médico Bruno dell’Aquila, que explicava, em francês e inglês, a importância da ingestão constante de água quando se trabalha sob forte calor. Numa sala situada a alguns metros de onde ele estava, Farid Dallal e Pedro Miguel da Silva falavam português, com sotaque, respectivamente, da capital do estado de São Paulo e do norte de Portugal.

Raul é engenheiro colombiano de Barranquilla. Gashaw, Lema e Edom são técnicos etíopes. Rahma, secretária, é djibutiana. Bruno é francês de Marselha, descendente de italianos. Ambos engenheiros, Farid é brasileiro, filho de libaneses, e Pedro, português.

“Temos aqui um grande desafio de comunicação”, diz o Diretor de Contrato Gustavo Guerra. “Pessoas de várias nacionalidades convivem no canteiro e a busca por sua integração é um esforço intenso e permanente. Aqui, quem sabe se comunicar melhor é mais bem-sucedido.” Os integrantes em posição de liderança falam, pelo menos, dois idiomas. Os comunicados de segurança são elaborados em cinco línguas. “A experiência em Djibuti tem sido um grande aprendizado para a Odebrecht”, afirma Ciro Barbosa, Responsável por Planejamento e Desenvolvimento de Pessoas na estrutura do Diretor-Superintendente (DS) Alessandro Gomes. A equipe de Alessandro tem base em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio, de onde é coordenada a atuação da Odebrecht em Djibuti. Os dois países estão distantes três horas de vôo, numa viagem em que se passa sobre parte do território do Iêmen e da Arábia Saudita.

“Uma cidade-porto”
Todo esse esforço de comunicação no canteiro de obras está a serviço do cliente da Odebrecht no projeto, a Dubai Ports World (DP World), empresa sediada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, operadora do Porto de Djibuti. A DPW é uma subsidiária da Dubai World, empresa holding pertencente ao Governo de Dubai, um dos Emirados Árabes Unidos. É a segunda vez que a Odebrecht executa um projeto para este cliente. Entre 2004 e 2005, a empresa construiu um terminal de combustíveis, também no Porto de Djibuti.

A DP World tomou a decisão de investir no Porto de Djibuti em 2002. A localização estratégica do porto, sua importância para a Etiópia e, sobretudo, uma forte orientação para o comércio percebida pela DP World no Governo de Djibuti levaram a empresa dos Emirados Árabes Unidos a atuar no país.

“Dubai e Djibuti têm um bom relacionamento, com seus governos fortemente focados no comércio e no desenvolvimento econômico”, enfatiza Adnan Al Abbar, Vice-Presidente da DP World. “A expansão do porto, que lhe possibilitará uma operação nos moldes dos maiores portos do mundo, terá um reflexo muito positivo na sociedade.” Sobre a Odebrecht, com a qual a DP World compartilha sua segunda experiência, Adnan Al Abbar afirma: “A empresa tem equipes qualificadas e dedicadas, e líderes capazes. Cada integrante da Odebrecht atua como um embaixador da empresa”.

O empresário djibutiano Abdourahman Boreh teve participação decisiva na aproximação entre o governo de seu país e o de Dubai. Foi um dos iniciadores do diálogo e promotor da ida da DP World para Djibuti. “Com o novo terminal de contêineres, Djibuti será um major player na região”, ele diz. “Por sua eficiência operacional e custos atrativos, passará a ser a escolha de novos clientes. Djibuti é uma cidade-porto. A cidade nasceu do porto, e não o contrário. Com a expansão dele, desenvolveremos a free zone (zona de livre comércio, dotada de uma estrutura que oferece logística, importação e armazenamento aos clientes do porto), o turismo, os serviços, o aeroporto, e então teremos mais casas e escolas para quem vive na cidade.”

Com uma taxa de desemprego de 65%, Djibuti tem no porto sua principal fonte de receita. Boreh, que é Presidente da Soprim, sócia da Odebrecht no projeto do Terminal de Contêineres de Doraleh, salienta: “Djibuti precisa de projetos como este – obras relevantes para a sociedade, que gerem oportunidades de trabalho e outros benefícios sociais em larga escala”.

Padrão de qualidade internacional
O engenheiro dominicano Juan Carlos Sahdala, da DP World, foi fiscal da primeira obra da Odebrecht em Djibuti, onde morou por dois anos. Hoje baseado em Dubai, é responsável pela execução de projetos da empresa em cinco portos de três continentes: Europa (Inglaterra e Turquia), América (Peru e República Dominicana) e África (Djibuti). Juan Carlos conhece, na intimidade, as particularidades da atuação em Djibuti. É preciso importar praticamente tudo, do parafuso ao equipamento de grande porte, desafio cuja superação depende do planejamento para antecipação do suprimento. O clima é outro desafio de peso. O concreto só pode ser fabricado à noite, devido às altíssimas temperaturas durante o dia. O trabalho de pintura requer procedimentos especiais para que a poeira não comprometa sua qualidade.

“O aprendizado obtido na primeira obra foi importante para a realização deste segundo projeto”, afirma Juan Carlos. Na sinergia, no compromisso conjunto com o alcance das metas traçadas e na complementaridade de capacitações estão, segundo Juan Carlos, a base para a ultrapassagem das barreiras. “Temos, na Odebrecht, mais do que uma simples contratista”, ele salienta. “Há uma relação de parceria e confiança.”

Aeroporto Internacional de Abu Dhabi: nova pista está pronta

Essa união de competências e princípios está tornando possível uma obra que permitirá ao Porto de Djibuti atingir um padrão de qualidade internacional, recebendo navios de grande porte (até 180 mil t). O Terminal de Contêineres de Doraleh terá um cais com 1.050 m de extensão e 36 m de largura; um pátio de 36 mil m2; e uma causeway (acesso viário) de pista dupla com extensão de 2.050 m e largura de 36 m. O terminal terá capacidade de armazenar 2 milhões de contêineres por ano.

Terminal de contêiners de Doraleh

Equipe multinacional
A equipe da DP World em Djibuti, assim como a da Odebrecht, também é composta de pessoas de várias nacionalidades. Da mesma forma que a Odebrecht, a DP World tem forte atuação internacional, operando 42 portos e desenvolvendo outros 12 na América, Europa, África, Ásia e Oceania. “É um cliente globalizado”, sintetiza o DS Alessandro Gomes. “E a Odebrecht quer servi-lo nos lugares em que possa agregar valor a ele, como em Djibuti, onde o desafio da logística é grande, e nos países nos quais a Organização já está presente, colocando à disposição a sua estrutura.”

Em sua sala no escritório da Odebrecht em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, Alessandro destaca a similaridade filosófica entre a Odebrecht e a DP World. “São organizações nas quais os integrantes da linha têm poder de decisão”, ele observa. “A conversa é olho no olho, com simplicidade e franqueza. Na DP World, como ocorre na Odebrecht, as pessoas têm orgulho de pertencer à empresa, todos vestem a camisa e prezam a ética nos negócios e a qualidade dos relacionamentos.”

Alessandro acredita que a experiência vivida hoje pela Odebrecht em Djibuti seja um dos exemplos mais ricos de aplicação da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) no novo ciclo de crescimento da Odebrecht, devido à diversidade cultural envolvida no projeto. “No canteiro de obras de Djibuti, convivem muçulmanos, hindus, cristãos, há pessoas acostumadas a diferentes sistemas de trabalho. É preciso conhecer e entender as pessoas e as culturas. Temos uma equipe multicultural que está realizando sua segunda obra, com base na TEO.”

Histórias de perseverança e integração

Para que toda essa diversidade resultasse em integração e em realizações empresariais, foi determinante mesclar, na equipe da Odebrecht, pessoas com experiência de profissão e de Odebrecht, pessoas com conhecimento do mercado local e regional, jovens com o domínio de idiomas dispostos a imergir na cultura local. Tudo isso em nome do atendimento das necessidades do cliente, com qualidade e respeito aos prazos. “Creio que estamos vivenciando em Djibuti um modelo que poderá ser replicado em outros contratos da Odebrecht”, afirma Alessandro Gomes.


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