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Cultura |
texto: Antônio Fernando Borges |
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Relatos ancestrais
Livro de Carlos Etchevarne, antropólogo vencedor do Prêmio Clarival do Prado Valladares 2006, revela a riqueza de pinturas rupestres pré-coloniais no Brasil
Sobre a perenidade bíblica da pedra, o homem fundou igrejas, ergueu civilizações. Na superfície sólida de abrigos, grutas, paredões e lajedos, arriscou os primeiros rabiscos de suas idéias e impressões, registrou suas aventuras, inscreveu suas primeiras mensagens. Graças a isso, quando os portugueses desembarcaram aqui, o território baiano já trazia “arquivado”, em suas formações rochosas, um extraordinário acervo de desenhos, gravuras e pinturas – documentos valiosos da presença e atuação dos habitantes ancestrais da região, antepassados prováveis dos grupos indígenas que a ocupavam.
Uma parte dessa história milenar está sendo contada agora no livro Escrito na Pedra: Cor, Forma e Movimento nos Grafismos Rupestres da Bahia, do antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Carlos Alberto Etchevarne. O trabalho é resultado do projeto de pesquisa Homem e Natureza – Imagens da Arte Rupestre na Bahia, vencedor da edição de 2006 do Prêmio Clarival do Prado Valladares, da Organização Odebrecht (veja boxe). Graças ao financiamento, que custeou tanto o desenvolvimento da pesquisa quanto a edição do livro (uma apurada edição em quatro cores, fartamente ilustrada), Etchevarne pôde enfim concretizar seu antigo projeto: mapear e classificar os numerosos sítios arqueológicos que ele vinha localizando, de maneira pontual e pouco sistemática, em diferentes partes do interior do estado.
Da Chapada Diamantina ao Vale do São Francisco, passando também pelos chamados chapadões ocidentais e por áreas de caatinga, foram quase nove meses de viagens, medições e registro fotográfico e documental do conjunto pré-selecionado de sítios conhecidos. Para Etchevarne e sua equipe, tudo isso representou um período de descobertas e surpresas sem fim. “Foi um trabalho feito com encantamento, entusiasmo e paixão”, resume o antropólogo. “É fascinante poder mergulhar num universo desconhecido, que remonta a milhares de anos, em busca de informações referentes a homens iguais a nós, nossos irmãos e nossos semelhantes.”
De origem latina (rupes,-is, que significa “rochedo”), o adjetivo “rupestre” se refere diretamente ao material – a rocha – em que as imagens estudadas foram impressas. Já os substantivos que o acompanham (principalmente “arte” e “escrita”) costumam dar margem a antiga discussão: afinal, trata-se de manifestações artísticas ou de uma forma originária de comunicação escrita? Para contornar a polêmica, hoje se dá preferência à expressão, mais abrangente, “grafismos rupestres” – forma, aliás, adotada por Etchevarne, que nem por isso deixa de tomar partido: para ele, é uma forma de comunicação escrita. No entanto, o próprio antropólogo faz questão de lembrar, no livro, que estes sistemas gráficos são, acima de tudo, representações mentais e simbólicas, intencionais e conscientes, daquelas antigas populações: “Na base de toda pintura ou gravura rupestre, encontra-se o ato de simbolizar, ou seja, representar, externamente ao indivíduo, aquilo que é pensado, armazenado ou construído pela experiência, individual e coletiva”.
Visitados 110 sítios em 53 municípios
Buscando estabelecer as bases desses códigos simbólicos de comunicação, a partir da descoberta de elementos comuns e de repetições, Etchevarne montou uma estratégia de visitação e análise de 229 locais com pinturas e gravuras, num total de 110 sítios distribuídos em 54 municípios previamente levantados – entre os quais o antropólogo destaca, pela importância histórica e pela beleza, os de Toca da Figura e Toca do Pepino, no Morro do Chapéu, a Pedra da Figura, em Utinga, e as Paridas, no município de Lençóis.
Alguns nomes com que as populações locais consagraram certos sítios já dão conta da origem étnica dessas inscrições: Pedra do Índio, Toca do Índio, Lapa dos Tapuias, Pintura dos Caboclos, Toca dos Caboclos, Lapa do Caboclo. Outros, curiosamente, vieram reforçar a tese de que se tratava de uma forma efetiva de escrita: Pedra Riscada, Pedra Escrita, Pedra Escrevida e Pedra do Letreiro. Em paralelo às investigações e medições locais, a pesquisa promoveu levantamentos de arquivos, bibliografias, documentos, que agregassem informações históricas e geográficas relevantes. Sem falar, é claro, no contato direto com a população rural e urbana vizinha aos sítios rupestres, que foi também fundamental para o projeto, ajudando a esclarecer a origem de certos nomes e até mesmo a localização de novos e insuspeitados tesouros. “A cada investigação, a cada visita a um local, iam aparecendo 10, 20, 50 sítios novos”, confirma Etchevarne.
Além das dificuldades inerentes a toda pesquisa científica, o trabalho de campo da equipe de Etchevarne enfrentou alguns obstáculos nada metafóricos, em especial o risco de doenças como a leishmaniose e as mordidas de cobras venenosas. A persistência e a força de vontade, porém, foram mais fortes, e aos poucos, procurando os elementos mais objetivos identificados em cada sítio (amplitude, traços, estrutura arquitetônica, as formas e as proporções e os tipos de pigmentos minerais utilizados), o antropólogo e sua equipe conseguiram confirmar um padrão de intencionalidade e definir, afinal, os principais estilos (“tradições”, em jargão arqueológico) que iam se repetindo em áreas diferentes.
Comparando as variadas condições geográficas e geológicas, Etchevarne pôde enfim levantar algumas hipóteses quanto aos usos e objetivos dos grafismos rupestres: “Alguns deviam estar ligados a exercícios ritualísticos”, arrisca ele. “Outros, provavelmente, eram delimitadores de território, indícios de homenagens e ritualizações, ou ainda registros de algum eventual momento importante.” Fatores como as dimensões ou a localização de um grafismo também ajudam na sugestão dos objetivos: “Há paredões enormes cujos grafismos podem ser vistos a quilômetros de distância: por certo, eram para ser mostrados ostensivamente. Outras figuras, em compensação, diminutas e escondidas, sugerem que faziam parte de algum código secreto, de acesso restrito a uns poucos”.
O uso de palavras imprecisas (“deviam”, “provavelmente”, “eventual”, “por certo”, “sugerem”) é proposital e inevitável: à falta de uma chave decodificadora, ainda não foi possível definir o sentido exato de nenhum grafismo. “Já conseguimos definir alguns estilos e estabelecer parcialmente a linguagem – mas não o significado. Ainda não descobrimos a nossa Pedra de Roseta”, explica Etchevarne, numa alusão ao famoso bloco de granito que o arqueólogo Jean-François Champollion utilizou para decifrar os hieróglifos egípcios no século XIX.
Tudo existe para terminar num livro, dizia um preceito do Romantismo francês – e, no caso, o projeto de pesquisa de Carlos Etchevarne tinha por objetivo final justamente a publicação de um livro de arte, que passasse a integrar a série de Edições Culturais Odebrecht. De tratamento gráfico apurado, Escrito na Pedra: Cor, Forma e Movimento nos Grafismos Rupestres da Bahia (lançado em 27 de novembro, no Palacete das Artes, em Salvador) constitui uma amostragem representativa do trabalho do antropólogo, combinando capítulos de informação e reflexão teórica e o registro fotográfico (com direito a tomadas aéreas) dos 12 sítios rupestres mais relevantes.
Mas a proposta de Carlos Etchevarne não se esgota na publicação de Escrito na Pedra: preocupados com a preservação dos sítios rupestres, ele e sua equipe se empenharam também na implantação de uma série de medidas que apontam, não para o passado, mas para o futuro dos grafismos e das comunidades nas quais eles se encontram inseridos. Entre essas medidas, destaca-se o compromisso assumido junto com a Odebrecht de divulgar e distribuir o livro no interior da Bahia, sobretudo nos locais visitados durante o desenvolvimento do projeto.
> Prêmio foi instituído em 2003
Cursos, palestras educativas e prospectos estão ajudando a orientar as comunidades quanto a aspectos decisivos como turismo ecológico e preservação auto-sustentável – que, além de garantir a integridade dos sítios, vão trazer melhorias socioeconômicas para as populações locais. Através dessas iniciativas, Etchevarne quer consolidar uma continuidade histórica entre os antigos e os atuais habitantes da região, reforçando a consciência antropológica de que ambos, no fim das contas, participam da mesma aventura humana, que (espera-se) há de ser tão perene quanto a pedra.
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