Petroquímica II
Na era dos bioaditivos
Braskem e Copesul convertem unidades industriais para ingressar no negócio de biocombustíveis
texto: Luciana Moglia
fotos: Eneida Serrano
A Copesul já ingressara nesse mercado em outubro de 2007. Agora, a Unib adquiriu a tecnologia para fazer o mesmo em suas duas fábricas de MTBE (metiltercbutiléter) e está em fase de detalhamento do projeto e aquisição dos principais equipamentos. A produção de ETBE (etiltercbutiléter) está prevista para começar até a metade de 2009. Quando os dois projetos estiverem a pleno funcionamento, a produção total de ETBE da Braskem será de 329 mil t/ano, o que tornará a empresa uma importante fornecedora do aditivo para o mercado internacional.
As perspectivas são muito positivas do ponto de vista comercial. “Hoje, as empresas já pagam pelo ETBE um valor adicional em relação ao do MTBE de US$ 200 a US$ 300 por tonelada, o que representa até 30% de acréscimo, objetivando priorizar o consumo de produtos que preservem o meio ambiente”, afirma Luis Mário Chavez, Gerente de Produção de Aromáticos da Unib, onde estão sediadas as plantas de MTBE que serão convertidas.
As diferenças entre os aditivos
A principal diferença dos dois aditivos está na matéria-prima. Ambos são produzidos a partir do isobuteno, derivado da nafta e processado nas unidades de insumos básicos. Para formar a corrente do MTBE, o produto adicionado é o metanol, derivado do gás natural. Já o ETBE é resultante da reação com etanol, o que lhe atribui a condição de combustível verde. Segundo a engenheira Nadja Silva Fontes, responsável técnica pela implantação do projeto, as propriedades do ETBE reduzem a emissão de compostos orgânicos voláteis da gasolina, diminuindo as emissões de gases que provocam o efeito estufa. O produto também é 75% menos solúvel em água do que o MTBE. Do ponto de vista operacional, o ETBE proporciona maior octanagem do que o MTBE, melhorando ainda mais o poder detonante da gasolina.
Assim como o MTBE, o ETBE não é utilizado no Brasil, onde o aditivo colocado na gasolina é o álcool, combustível produzido em larga escala no país a partir da cana-de-açúcar. A produção mundial de ETBE se concentra hoje na Europa e no Brasil, atualmente o único produtor da América Latina.
O principal mercado é a Europa, continente que, de uma forma geral, está bastante atento à questão de combustíveis renováveis. Em 2006, consumiu 2,6 milhões de t de ETBE. “Até 2010, a Comunidade Européia quer ter 5% de biocombustíveis na matriz de combustíveis, chegando a 20% até o ano de 2020. A capacidade de produção dos países do bloco é de 2,6 milhões de t/ano, o mesmo volume do total consumido em 2006. “Estudos da Braskem concluíram que, mantidas essas premissas, a capacidade instalada de ETBE na Europa em 2010 será 50% inferior à demanda, considerando os números atuais”, afirma Jorge Augusto Carmelo, Gerente de Desenvolvimento de Novos Negócios da Unib.
Copesul ingressa no mercado japonês
O Japão, que é o segundo maior consumidor mundial de gasolina, está desenvolvendo pesquisas para tornar o ETBE o principal aditivo para o combustível lá consumido. Se o projeto for aprovado, o país se tornará um grande consumidor, o que deverá ocorrer já a partir de 2009. De acordo com Carmelo, o mercado japonês poderá consumir cerca de 150 mil t em 2009 e mais de 600 mil t em 2010. A aquisição deverá ser liderada pela Japanese Biofuels Supply LLP, formada pela Nippon Oil, Showa Shell Sekyu, ExxonMobil, Idemitsu Kosan, Fuji Oil, Cosmo Oil, Kuokuto Petroleum Industries, Taiyo Oil e Tonen General Sekiyu.
A Copesul já deu os primeiros passos para ingressar no mercado japonês. Em fevereiro último, enviou sua primeira carga do bioaditivo para o país. A exportação foi de 5 mil t. O contrato foi fechado com a Marubeni Corporation, fornecedora da JBSL (Japan Biofuels Supply), cooperativa de serviços das operadoras de combustíveis japonesas.
A decisão de tornar as plantas aptas a produzir o ETBE começou a ganhar contornos no início desta década, quando a Copesul e a Unib comercializavam sua produção de MTBE essencialmente para os Estados Unidos. Foi nessa época que o aditivo passou a ser questionado pelos órgãos ambientais no principal mercado exportador brasileiro.
Em 2006, o ETBE foi escolhido como a melhor alternativa. A Copesul realizou investimento de R$ 23 milhões e utilizou a tecnologia italiana da Snamprogetti para fazer a adequação da planta, que começou a operar com capacidade de produção de 155 mil t, 30% superior à de 120 mil t/ano de MTBE. Segundo Paulo Ermida Moretti, executivo da área de comercialização da empresa, a capacidade será ampliada para 165 mil t/ano em 2009. Nesse meio-tempo, a rota do mercado da Copesul também mudou. Os Estados Unidos optaram por utilizar como aditivo para a gasolina o etanol produzido internamente a partir do milho. Em compensação, o mercado europeu se abriu, passando a importar quase toda a produção atual de ETBE. O produto entra por Roterdã, na Holanda, e de lá é distribuído. A exportação é realizada a partir do Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.
A Braskem, em 2006, iniciou a avaliação de diversas alternativas para manter o valor agregado do MTBE. A empresa investirá R$ 95 milhões na Unib na conversão de duas plantas de MTBE para o bioaditivo. A produção estimada é de 164 mil t/ano e pode alcançar 212 mil t/ano, 50% acima da capacidade atual de MTBE, dependendo da disponibilidade de matéria-prima. A montagem começará no princípio do próximo ano. As plantas darão partida no primeiro semestre de 2009. A diferença do investimento realizado na Unib (R$ 95 milhões) e na Copesul (R$ 23 milhões) deve-se, sobretudo, ao fato de a Unib ter duas unidades, e o projeto estar prevendo a instalação de uma nova Unidade de Secagem de Etanol.
Embora ainda falte cerca de um ano para as plantas estarem prontas, a Braskem já está em contato com clientes dos dois mercados-alvo: Europa e Japão. A tecnologia utilizada é da empresa americana Lyondell em parceria com a empresa de engenharia Aker Kvaerner. O detalhamento do projeto e a montagem estão sendo feitos pela Braskem em aliança com a Construtora Norberto Odebrecht (CNO).