Petroquímica II

Na era dos bioaditivos

Braskem e Copesul convertem unidades industriais para ingressar no negócio de biocombustíveis

texto: Luciana Moglia
fotos: Eneida Serrano

A Copesul, central de matérias-primas do Pólo de Triunfo (RS), controlada pela Braskem desde março de 2007, e a Unidade de Insumos Básicos da Braskem (Unib), no Pólo de Camaçari (BA), estão ingressando no mercado de biocombustíveis, resultado da conversão de suas plantas de MTBE em unidades produtoras de ETBE. Esses produtos são usados como aditivos para aumentar a octanagem da gasolina e melhorar suas características de combustão, garantindo maior potência do combustível. Também garantem a melhora na qualidade das emissões atmosféricas, contribuindo para a preservação ambiental.

A Copesul já ingressara nesse mercado em outubro de 2007. Agora, a Unib adquiriu a tecnologia para fazer o mesmo em suas duas fábricas de MTBE (metiltercbutiléter) e está em fase de detalhamento do projeto e aquisição dos principais equipamentos. A produção de ETBE (etiltercbutiléter) está prevista para começar até a metade de 2009. Quando os dois projetos estiverem a pleno funcionamento, a produção total de ETBE da Braskem será de 329 mil t/ano, o que tornará a empresa uma importante fornecedora do aditivo para o mercado internacional.

As perspectivas são muito positivas do ponto de vista comercial. “Hoje, as empresas já pagam pelo ETBE um valor adicional em relação ao do MTBE de US$ 200 a US$ 300 por tonelada, o que representa até 30% de acréscimo, objetivando priorizar o consumo de produtos que preservem o meio ambiente”, afirma Luis Mário Chavez, Gerente de Produção de Aromáticos da Unib, onde estão sediadas as plantas de MTBE que serão convertidas.

As diferenças entre os aditivos
A principal diferença dos dois aditivos está na matéria-prima. Ambos são produzidos a partir do isobuteno, derivado da nafta e processado nas unidades de insumos básicos. Para formar a corrente do MTBE, o produto adicionado é o metanol, derivado do gás natural. Já o ETBE é resultante da reação com etanol, o que lhe atribui a condição de combustível verde. Segundo a engenheira Nadja Silva Fontes, responsável técnica pela implantação do projeto, as propriedades do ETBE reduzem a emissão de compostos orgânicos voláteis da gasolina, diminuindo as emissões de gases que provocam o efeito estufa. O produto também é 75% menos solúvel em água do que o MTBE. Do ponto de vista operacional, o ETBE proporciona maior octanagem do que o MTBE, melhorando ainda mais o poder detonante da gasolina.

Assim como o MTBE, o ETBE não é utilizado no Brasil, onde o aditivo colocado na gasolina é o álcool, combustível produzido em larga escala no país a partir da cana-de-açúcar. A produção mundial de ETBE se concentra hoje na Europa e no Brasil, atualmente o único produtor da América Latina.

Total de ETBE a ser produzido



O principal mercado é a Europa, continente que, de uma forma geral, está bastante atento à questão de combustíveis renováveis. Em 2006, consumiu 2,6 milhões de t de ETBE. “Até 2010, a Comunidade Européia quer ter 5% de biocombustíveis na matriz de combustíveis, chegando a 20% até o ano de 2020. A capacidade de produção dos países do bloco é de 2,6 milhões de t/ano, o mesmo volume do total consumido em 2006. “Estudos da Braskem concluíram que, mantidas essas premissas, a capacidade instalada de ETBE na Europa em 2010 será 50% inferior à demanda, considerando os números atuais”, afirma Jorge Augusto Carmelo, Gerente de Desenvolvimento de Novos Negócios da Unib.

Copesul ingressa no mercado japonês
O Japão, que é o segundo maior consumidor mundial de gasolina, está desenvolvendo pesquisas para tornar o ETBE o principal aditivo para o combustível lá consumido. Se o projeto for aprovado, o país se tornará um grande consumidor, o que deverá ocorrer já a partir de 2009. De acordo com Carmelo, o mercado japonês poderá consumir cerca de 150 mil t em 2009 e mais de 600 mil t em 2010. A aquisição deverá ser liderada pela Japanese Biofuels Supply LLP, formada pela Nippon Oil, Showa Shell Sekyu, ExxonMobil, Idemitsu Kosan, Fuji Oil, Cosmo Oil, Kuokuto Petroleum Industries, Taiyo Oil e Tonen General Sekiyu.

A Copesul já deu os primeiros passos para ingressar no mercado japonês. Em fevereiro último, enviou sua primeira carga do bioaditivo para o país. A exportação foi de 5 mil t. O contrato foi fechado com a Marubeni Corporation, fornecedora da JBSL (Japan Biofuels Supply), cooperativa de serviços das operadoras de combustíveis japonesas.

A decisão de tornar as plantas aptas a produzir o ETBE começou a ganhar contornos no início desta década, quando a Copesul e a Unib comercializavam sua produção de MTBE essencialmente para os Estados Unidos. Foi nessa época que o aditivo passou a ser questionado pelos órgãos ambientais no principal mercado exportador brasileiro.

Em 2006, o ETBE foi escolhido como a melhor alternativa. A Copesul realizou investimento de R$ 23 milhões e utilizou a tecnologia italiana da Snamprogetti para fazer a adequação da planta, que começou a operar com capacidade de produção de 155 mil t, 30% superior à de 120 mil t/ano de MTBE. Segundo Paulo Ermida Moretti, executivo da área de comercialização da empresa, a capacidade será ampliada para 165 mil t/ano em 2009. Nesse meio-tempo, a rota do mercado da Copesul também mudou. Os Estados Unidos optaram por utilizar como aditivo para a gasolina o etanol produzido internamente a partir do milho. Em compensação, o mercado europeu se abriu, passando a importar quase toda a produção atual de ETBE. O produto entra por Roterdã, na Holanda, e de lá é distribuído. A exportação é realizada a partir do Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

A Braskem, em 2006, iniciou a avaliação de diversas alternativas para manter o valor agregado do MTBE. A empresa investirá R$ 95 milhões na Unib na conversão de duas plantas de MTBE para o bioaditivo. A produção estimada é de 164 mil t/ano e pode alcançar 212 mil t/ano, 50% acima da capacidade atual de MTBE, dependendo da disponibilidade de matéria-prima. A montagem começará no princípio do próximo ano. As plantas darão partida no primeiro semestre de 2009. A diferença do investimento realizado na Unib (R$ 95 milhões) e na Copesul (R$ 23 milhões) deve-se, sobretudo, ao fato de a Unib ter duas unidades, e o projeto estar prevendo a instalação de uma nova Unidade de Secagem de Etanol.

Embora ainda falte cerca de um ano para as plantas estarem prontas, a Braskem já está em contato com clientes dos dois mercados-alvo: Europa e Japão. A tecnologia utilizada é da empresa americana Lyondell em parceria com a empresa de engenharia Aker Kvaerner. O detalhamento do projeto e a montagem estão sendo feitos pela Braskem em aliança com a Construtora Norberto Odebrecht (CNO).