Açúcar e Álcool

Uma empresa
sustentável

ETH Bioenergia pretende estar entre as maiores do seu setor até 2015, investindo em alta tecnologia, capacitando pessoas e desenvolvendo ações de proteção ambiental

texto: Sérgio Bourroul
fotos: Guilherme Afonso

Ser uma das três maiores empresas do setor sucroalcooleiro do mundo até 2015. A ETH Bioenergia já nasceu com grandes objetivos, baseada em um plano estratégico que alinha as práticas mais avançadas de sustentabilidade. “Não queremos apenas ser os maiores. Cresceremos investindo em alta tecnologia e na capacitação das pessoas sempre com o mais rigoroso respeito ao meio ambiente”, resume Clayton Miranda, Líder de Investimento do negócio Açúcar e Álcool.

A empresa, controlada pela Organização Odebrecht, tem participação acionária de 33% da japonesa Sojitz Corporation – trading multinacional que atua na comercialização de commodities. Criada em meados de 2007, a ETH atuará de forma integrada na produção, logística e comercialização de açúcar, etanol e energia elétrica. Mais de R$ 5 bilhões serão investidos na criação de três pólos produtivos localizados nos estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul, onde serão plantados aproximadamente 600 mil ha de cana-de-açúcar. Cerca de 20 mil oportunidades de trabalho serão criadas.

Segundo Ailton Reis, Diretor de Produção, “a inovação do projeto ETH começa no modelo do negócio, baseado na criação dos pólos que promoverão sinergia entre as usinas, com redução nos custos de produção e otimização da capacidade instalada, o que resultará em aumento da competitividade”. Hoje são duas unidades produzindo açúcar, álcool e energia elétrica para consumo próprio. Até 2012, serão pelo menos 10 usinas em operação com capacidade para processamento de 46 milhões de t de cana por ano, assegurando uma produção de 3,1 bilhões de litros de etanol, 2,3 milhões de t de açúcar e uma capacidade instalada para co-geração de energia (com o aproveitamento do bagaço da cana) de 1.300 MW anuais.

Em menos de um ano de atuação, a empresa já fincou raízes nos três estados. Em março, adquiriu a Usina Eldorado, instalada no município de Rio Brilhante (MS), a 150 km de Campo Grande. A usina entrou em operação em junho de 2006 e receberá investimentos para ampliação de sua capacidade de produção. Passará dos atuais 2,2 milhões para 5 milhões de cana processada por safra, o que viabilizará uma produção de 150 mil t de açúcar, 360 milhões de litros de etanol e um salto dos 12 MW de co-geração de energia de hoje para 130 MW. Somando esses números aos que serão gerados pelas outras duas usinas a serem construídas nos municípios de Nova Alvorada do Sul (Santa Luiza I e Santa Luiza II), o Mato Grosso do Sul terá 200 mil ha plantados para um processamento de 15 milhões de t de cana por safra.

Em setembro de 2007, a ETH adquiriu a Destilaria Alcídia, em Teodoro Sampaio (SP). O pólo paulista está localizado na região do Pontal do Paranapanema, onde serão construídas outras três usinas e cultivados mais de 220 mil ha para a produção de 16 milhões de t de cana por safra. A implantação da segunda usina, Conquista do Pontal, no município de Mirante do Paranapanema, está em andamento, e estão projetadas outras duas unidades em Presidente Epitácio e Euclides da Cunha.

Motoniveladoras, tratores e outros equipamentos pesados já chegaram ao município de Caçu (GO), para a realização de trabalhos de terraplenagem, além de equipamentos específicos destinados ao plantio agrícola para fase inicial visando à instalação da primeira usina da ETH no estado. Mais duas unidades serão construídas ali, uma no mesmo Caçu e outra em Itarumã. Ao todo, o pólo de Goiás terá 200 mil ha de cana para a produção de 15 milhões de t por safra.

A grandiosidade do projeto é proporcional ao potencial produtivo do Brasil no cultivo e na industrialização da cana-de-açúcar. Segundo Ailton Reis, a produtividade da cana na região Centro-Sul do Brasil é de 85 t/ha. “Somos o maior produtor mundial de açúcar, com o menor custo. Em relação aos outros grandes produtores, nosso custo de produção é quase metade do indiano, duas vezes e meia menor que o dos Estados Unidos e da China, e mais de três vezes menor que o praticado na Europa”, compara Ailton.

Até 2015, a moagem de cana no Brasil deve crescer cerca de 7% ao ano, enquanto a demanda mundial de etanol deve triplicar nesse mesmo período. Somente nos últimos dois anos, a venda de automóveis bicombustíveis (flex fuel) no Brasil aumentou 83%. “Estamos nos preparando para atender esse mercado promissor, apostando em excelentes oportunidades de negócio com Estados Unidos, União Européia, China e Japão”, prevê Clayton Miranda. “Nosso plano de negócios beneficiará toda a cadeia da bioenergia, com investimento em diferentes modais logísticos no Brasil e no exterior, como a instalação de terminais de carga e escritórios de venda que atendam com eficiência às demandas”, resume. Ele lembra que os cuidados com as condições de trabalho e a gestão ambiental adotados pela ETH sem dúvida contribuirão para a aceitação internacional dos produtos da ETH. “Estamos eliminando as queimadas e implantando a colheita mecanizada”, ressalta. “Dessa forma, reduziremos as emissões, preservaremos a fauna e, sobretudo, o solo, assegurando nossa produtividade nos próximos anos.” A mecanização também garante melhores condições de trabalho. “Nossos trabalhadores rurais já começaram a receber capacitação para operar equipamentos modernos, o que proporcionará uma melhor condição profissional e uma rotina menos desgastante de trabalho”, completa Ailton.

Produtos ETH
A bioenergia exerce um importante papel na diversificação da matriz energética do Brasil. Além de garantir o desenvolvimento econômico e social, é capaz de reduzir a emissão de gases na atmosfera. Com a queima do bagaço gerado a partir da moagem da cana, a ETH produzirá 1,3 mil MW/ano de energia. Desses, 52% serão utilizados na co-geração para o funcionamento das 10 usinas. O restante será comercializado nos mercados regulado e livre de energia a partir de 2010, para o Sistema Interligado Nacional. A ETH está inscrita no primeiro leilão de energia de reserva de biomassa, organizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que deve ser realizado ainda no primeiro semestre de 2008. Há 118 usinas cadastradas para o leilão, com uma oferta inicial de quase 8 mil MW de energia termelétrica.

Serão produzidos pela ETH dois tipos de etanol combustível: anidro e hidratado. A diferença entre eles está apenas no teor de água. Enquanto o anidro (utilizado na mistura da gasolina e na indústria química) possui cerca de 0,5% de água de volume, o etanol hidratado, vendido nos postos de combustíveis, tem cerca de 5% de água. Na produção industrial do etanol o tipo hidratado é o que sai diretamente das colunas de destilação e é utilizado nos veículos movidos a álcool ou flex. Para produzir o etanol anidro é necessário utilizar um processo adicional que retira a maior parte da água presente.

Infográfico de produtos ETH



O açúcar da ETH é o VHP (Very High Polarization), destinado ao mercado externo. Trata-se de um açúcar bruto, menos úmido, insumo para refinarias na produção de açúcar refinado, para a indústria de alimentos e para consumo direto.

Alcoolduto
Visando otimizar o escoamento da produção crescente de etanol na região central do país, a Petrobras anunciou no ano passado a construção de dois alcooldutos: o de Senador Canedo (GO) até São Sebastião (SP) e outro que ligará Campo Grande a Paranaguá (PR). O alcoolduto GO-SP foi aprovado pelo Presidente Lula como obra integrante do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A rede de 1.150 km sairá de Senador Canedo, atravessará Minas Gerais em direção a São Paulo, passando por Ribeirão Preto e Paulínia, até o porto de São Sebastião.

Em março último, o Governo sul-matogrossense assinou um protocolo de intenções com o Governo Federal e o Governo do Paraná para a realização de estudos de viabilidade de implantação do alcoolduto que cortará o estado rumo ao Porto de Paranaguá, com uma extensão de 920 km.

O Mato Grosso do Sul trabalha em ritmo acelerado para ampliar sua produção de álcool para 2,5 milhões de m3 até 2009. Com 12 usinas em funcionamento no estado, existem outras 19 em processo de licenciamento ambiental e mais 40 em negociação. A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo (Seprotur), por meio do Programa de Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro, dá incentivos para aumentar a produção dos derivados da cana-de-açúcar através do aumento da área plantada, buscando propiciar condições de competitividade para a produção e geração de renda.

O programa pretende viabilizar a ampliação das unidades produtivas já instaladas no estado, efetivar o zoneamento agroecológico da atividade canavieira, construir novos terminais portuários e desenvolver formas de aproveitamento do excedente de energia gerado pelas usinas. Estão previstos também investimentos na conservação e ampliação das rodovias e ferrovias e na criação de infra-estrutura portuária para escoamento da produção. Para atender à demanda das usinas serão plantados no Mato Grosso do Sul, até 2010, 1,5 milhão de ha de cana-de-açúcar. “O programa do Governo coincide com as prioridades da ETH. Fomos recebidos de braços abertos no Mato Grosso do Sul”, ressalta Ailton Reis.

Pessoas, o diferencial
Ao adquirir as usinas Alcídia e Eldorado, a ETH recebeu áreas cultivadas, plantas industriais, equipamentos e diferentes culturas empresariais. “Nosso maior diferencial serão as pessoas. Já estamos atuando na sua seleção e capacitação, e investindo em excelentes condições de trabalho”, antecipa Luciano Guidolin, Diretor Responsável por Planejamento, Finanças, Pessoas e Organização na ETH.

Com a verticalização do processo, há uma grande variedade de perfis profissionais na empresa. Na área de Produção, as equipes estão divididas basicamente em industriais e agrícolas. A chegada de equipamentos agrícolas aos pólos já implantados faz com que a mecanização seja incorporada à atividade gradativamente. “Como o trabalho no campo será mecanizado, temos dedicado esforços ao planejamento dos treinamentos para que os operadores de máquinas agrícolas conheçam tanto a operação quanto a manutenção de equipamentos”, informa Patrícia Maia, Responsável por Pessoas e Organização na ETH. “Isso exige maior cuidado também na contratação, uma vez que buscamos, como pré-requisito, diploma de ensino médio e carteira de habilitação. Experiência anterior também é um diferencial desejado”, ela acrescenta.

O projeto da ETH irá operar com uma grande frota de equipamentos. Serão 213 tratores, 180 colhedeiras/transbordos, 138 esteiras, escavadeiras e motoniveladoras e 360 caminhões próprios. “São equipamentos sofisticados e caros, que devem ter sua capacidade explorada ao máximo. Daí a necessidade de termos operadores capacitados e cuidadosos”, explica Luciano Guidolin.

Outro desafio na área agrícola está no cultivo. Faça chuva ou faça sol, o plantio deve ocorrer até maio, para não comprometer a safra anual. Em áreas tradicionais de cana-de-açúcar, não há problemas para a contratação de trabalhadores. Já em Caçu, onde predomina o cultivo da soja, para finalizar o plantio de 20 mil ha de cana, a ETH está integrando pessoas de outras regiões. “Estamos em uma região isolada, cercada de pequenas cidades de 5 a 7 mil habitantes, e precisamos atrair trabalhadores de outras regiões do estado e até do Norte do país”, diz Patrícia Maia. Para abrigar esses integrantes foi construído um alojamento para 1.200 pessoas, com restaurante, campo de futebol, quadra poliesportiva, ambulatório completo, espaço de convivência e toda uma infra-estrutura semelhante à dos canteiros de obra da Odebrecht. “Estamos trazendo um novo padrão de condição de trabalho para o trabalhador rural”, enfatiza Patrícia.

Para exercer uma atividade na área industrial, o integrante deve ter formação técnica em química, mecânica, eletrotécnica ou açúcar e álcool. O treinamento oferecido pela ETH tem como objetivo promover uma especialização na indústria de açúcar e álcool, passando por todas as etapas da produção, desde matéria-prima, moagem, tratamento do caldo, fabricação do açúcar e do álcool, geração e distribuição de vapor e energia, até estocagem e carregamento desses produtos. Disciplinas básicas, como matemática, física e química aplicadas, informática, segurança e higiene pessoal estão incluídas. Temas mais amplos e ligados ao negócio também são discutidos, como comercialização e distribuição, inteligência de mercado e logística, além de aspectos comportamentais, como trabalho em equipe, comunicação e liderança. O Senai de Goiás e do Mato Grosso do Sul e a Fundação Paula Souza (SP), tradicionais entidades de capacitação profissional, apóiam as equipes locais de Pessoas nos treinamentos.

Considerando as dificuldades de deslocamento devido ao isolamento das unidades, a empresa está avaliando projetos de treinamento a distância (e-learning) para os integrantes da área administrativa. Atualmente, a ETH conta com 19 jovens parceiros e já foram realizados três treinamentos de introdução à Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), com duas turmas da Usina Alcídia e uma da obra em Caçu.

A abertura de novos postos de trabalho – serão mais de 8,4 mil integrantes até 2010 – e os benefícios oferecidos não serão as únicas contribuições sociais da empresa. “Nossa operação deve levar o desenvolvimento e promover a melhoria da condição socioeconômica das regiões em que atuaremos”, acentua Clayton Miranda.

Na área socioambiental, diversos estudos estão sendo realizados, nos âmbitos corporativo e locais. A ETH já definiu que educação, saúde e meio ambiente serão suas prioridades. Até o momento, contatos têm sido feitos com as prefeituras e entidades locais para a avaliação de necessidades, e projetos já apoiados pelos antigos controladores das usinas Alcídia e Eldorado foram mantidos.

Na área de cultivo de cana da Usina Alcídia foi instalada a Escola Estadual Vó Nina, onde estudam 350 alunos da região, inclusive filhos de assentados da comunidade rural vizinha da destilaria. Na cidade de Teodoro Sampaio a empresa tem colaborado para a melhoria das condições de instalação e atendimento do pronto socorro municipal, por meio da doação de insumos e equipamentos.

Não há apenas variedades de cana-de-açúcar no viveiro de mudas da usina. Há uma grande área dedicada ao cultivo de plantas nativas, usadas permanentemente para o reflorestamento da região. Além disso, a ETH vem colaborando com ações visando à concretização do corredor verde que ligará a reserva florestal do Morro do Diabo a Três Morrinhos, para a preservação do mico-leão-preto, primata endêmico da Mata Atlântica do interior de São Paulo, gravemente ameaçado de extinção.

O mesmo ocorre com o viveiro da Usina Eldorado, que já cedeu mais de 120 mil mudas de espécies nativas para a reconstituição de matas ciliares da região, em conjunto com a reflorestadora Floresce Brasil Mudas, vinculada à ONG SOS Mata Atlântica. A unidade também é signatária do Compromisso de Conduta Empresarial para a Erradicação do Trabalho Infantil, juntamente com a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, a Federação das Indústrias do Mato Grosso do Sul, Instituto Ethos, Força Sindical, Central Única dos Trabalhadores, Organização Internacional do Trabalho e Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência).

O projeto Anjo da Guarda, implantado nos municípios de Nova Andradina e Deodápolis, atende 200 crianças e jovens sul-matrogrossenses carentes e filhos de integrantes da usina através do estímulo ao estudo. Nas instalações, mantidas pela ETH, os estudantes recebem aulas de reforço das matérias curriculares e praticam atividades esportivas e artísticas. Para participar, é preciso estar matriculado e freqüentar as escolas da região. “Também na área social temos grandes idéias e sonhos. Queremos ser um importante agente social e melhorar a qualidade de vida das pessoas que um dia, inclusive, poderão se integrar à ETH. Temos a Fundação Odebrecht como inspiração”, salienta Clayton Miranda.