Tecnologia da Informação

Travessia para
os novos tempos

Projeto O2, de dimensão mundial, vai transformar o sistema de informação da Construtora Norberto Odebrecht

texto: Leonardo Mourão
fotos: Eduardo Barcellos

Não há melhor analogia para mostrar o que é a implantação do Projeto O2 na Construtora Norberto Odebrecht do que a exibida pela maquete instalada no hall de entrada do nono andar do Edifício Morumbi Plaza, em São Paulo. Montada para indicar os progressos do projeto, a maquete representa um trecho de um rio largo, que corre livre entre duas barrancas íngremes. Em uma das margens, dezenas de bonecos representando homens e mulheres “olham” para o lado de lá do rio, sem ter como atravessá-lo. Na outra margem, uma paisagem vazia está pronta para ser ocupada.

“A ponte será construída aos poucos, à medida em que o Projeto O2 for avançando”, explica Celísia Luz, integrante da área de Comunicação e Gestão do Projeto, apontando as miniaturas na maquete. “Quando a obra estiver concluída, nós todos poderemos fazer a travessia.” Traduzindo essas comparações: a “ponte” (que será feita com peças de Lego na maquete) é um ERP – um conjunto de softwares que une em um mesmo sistema as informações dos departamentos de uma empresa – desenvolvido pela americana Oracle, que irá mudar a rotina de funcionamento das áreas de apoio da Odebrecht.

O Projeto O2 (que, além de ser o símbolo químico do oxigênio, é a junção das iniciais de Odebrecht e de Oracle) é a cuidadosa estratégia de instalação do ERP da Oracle, que está envolvendo centenas de integrantes da Organização, no Brasil e no exterior. A obra estará concluída a partir de abril do próximo ano, quando o ERP começará gradativamente a substituir o sistema atual. Nesse momento, a “travessia” se realizará.

Sistema mais flexível
Na margem de cá, ficará o MyWebDay, o atual sistema de informação da Organização desenvolvido internamente no início dos anos 90. “O MyWebDay foi concebido quando a Odebrecht tinha uma atuação mais restrita que a atual”, conta João Cumerlato, Líder da área de Tecnologia da Informação e do Projeto O2. “Hoje a Organização está presente em 19 países; reúne mais de 50 mil integrantes que falam o português, o inglês, o espanhol e o árabe como línguas oficiais; e vem diversificando suas áreas de atuação cada vez mais. É necessário um sistema de informação bem mais flexível e de estatura mundial.”

Embora robusto e ainda atendendo bem a algumas áreas da empresa, o MyWebDay deixa a desejar em algumas operações – notadamente nas de exportação e importação –, que na época de sua criação não eram tão presentes na Odebrecht. Outro fato torna necessária a substituição do MyWebDay: a tecnologia de base sobre a qual ele foi desenvolvido, também feita pela Oracle, só será mantida até 2010. “O antigo programa foi desenhado para uma estrutura muito mais simples. Hoje a Organização precisa ter softwares que dominem exportação e integração, que facilitem a tarefa de mobilização de obras, que permitam localizar com facilidade integrantes em qualquer país, de acordo com um perfil necessário ao empreendimento e que possam ser rapidamente atualizados em relação a mudanças na legislação dos países em que atua”, detalha Cumerlato.

Estar sempre alinhado com a legislação trabalhista e fiscal dos países em que atua é vital para uma Organização que se tornou multinacional, como a Odebrecht. Um exemplo é a Venezuela, que está prestes a cortar zeros de sua moeda, o bolívar, uma providência que obriga a modificar todo o registro fiscal das operações com esse país. “Mudanças como essa ocorrem a todo momento em vários lugares, e sem um programa adequado teríamos um enorme trabalho e seríamos forçados a fazer atualizações complicadas”, diz Cumerlato. “Com o ERP, a própria Oracle se encarrega de atualizar o programa, de acordo com a legislação de cada país.”

Fora da zona de conforto
Mesmo com todas as suas qualidades, o novo ERP provocará alguma turbulência quando entrar em funcionamento, daqui a menos de um ano. Esse alerta foi feito por Marcelo Odebrecht, Líder Empresarial da Construtora Norberto Odebrecht, em um comunicado enviado aos integrantes do negócio Engenharia e Construção. “Tenham em mente que este projeto trará com ele mudanças significativas de procedimentos que vão mexer com a zona de conforto de toda a Organização”, escreveu ele. “Todos nós seremos, de alguma forma, impactados pelas mudanças que virão. Por essa razão, é importante que todos se engajem nesta empreitada, que participem, apóiem a equipe do projeto, procurem saber das novidades e as aceitem e contribuam de braços abertos com as mudanças que virão.”

Cultura da Odebrecht em destaque



O engajamento dos integrantes vem se dando desde a primeira vez em que foi discutida a necessidade de trocar os softwares de informação da empresa. As primeiras reuniões ocorreram no fim de 2006, quando foi elaborado um diagnóstico. Em novembro de 2007, concluiu-se o estudo de viabilidade de um novo ERP. Duas opções foram apresentadas: seria melhor desenvolver internamente um programa que suportasse o crescimento e a diversificação da Odebrecht ou adquirir um sistema disponível no mercado? Para a segunda escolha, havia um ERP da Oracle e outro da empresa alemã SAP. Durante cinco meses, foram conduzidos estudos e realizados workshops de avaliação envolvendo quase 250 pessoas, trazidas de todos os lugares do Brasil e do Exterior em que a Organização atua, para avaliar as três propostas. Foi escolhida, afinal, a solução da Oracle.

“Não vem aqui, não vem aqui”
“Todo o processo se deu dentro do espírito da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), ouvimos o maior número possível de pessoas, trouxemos os integrantes que melhor compreendiam os processos da empresa para que tivéssemos a maior aderência possível ao novo sistema”, diz João Cumerlato. Para a etapa seguinte, que se iniciou em 24 de abril passado, em que seria necessário detalhar em minúcias os procedimentos dos serviços de back office (retaguarda de operação) da Organização para a adaptação do ERP da Oracle às necessidades da Odebrecht, o procedimento foi parecido. Todos os responsáveis por programas ligados às atividades de apoio cederam, por 18 meses, alguns de seus integrantes para esse tour de force. A missão de mobilizar a equipe da Odebrecht foi delegada a Umberto Matteoni, com 24 anos de Organização e um profundo conhecimento dos processos de back office. Isso acabou fazendo com que Matteoni se tornasse alguém, digamos, “temido” dentro da empresa, como ele mesmo se diverte em contar: “Eu tinha a incumbência de trazer integrantes para o projeto, para nos ajudarem no desenho dos novos procedimentos empresariais, e foi o que eu fiz. Quando algum líder me via passando pelo seu departamento, já vinha dizendo "Não vem aqui, não! Você vai querer levar mais gente embora! Não vem, não!”

É esse time de especialistas, concentrado desde 25 de março passado no nono andar do Edifício Morumbi Plaza, que garantirá que, mesmo fora da zona de conforto, o novo conjunto de softwares agregue valor para a Organização e torne sólida e real aquela ponte virtual que será construída na maquete. São quase 120 pessoas, 45 delas integrantes da Odebrecht, que se espalham pelas salas e auditório do andar participando de workshops, em reuniões de trabalho, rabiscando fluxogramas em flip charts e sistematizando os procedimentos de suas áreas. “Essas pessoas não são especialistas em informática, pois esse não é um projeto da área de informática, mas, sim, um projeto do negócio”, diz João Cumerlato.

Substituição de ERP envolve a superação de várias etapas



O melhor momento para construir pontes virtuais parece mesmo ser o atual. Desde 2002, a empresa experimenta um processo de crescimento acelerado. “Os objetivos que haviam sido desenhados para 2010 foram alcançados já em 2007, estamos em pleno ciclo de crescimento, com dinheiro em caixa, a ocasião é perfeita”, analisa Curmelato. Mudanças no sistema de gestão empresarial são momentos delicados na vida de qualquer organização. Na Odebrecht, a transição será feita da maneira mais suave possível. A partir de junho do próximo ano, todo novo empreendimento usará o ERP da Oracle, mas as obras que começaram a ser tocadas com o MyWebDay continuarão utilizando este programa até seu término. Apenas no fim de 2012 o MyWebDay será definitivamente desligado.

Mais inteligência
Quem já tomou conhecimento das qualidades do novo ERP não tem dúvidas de que o conjunto de softwares atende plenamente às necessidades, porém o que mais entusiasma são as possibilidades de duas ferramentas: o Peoplesoft e o Hyperion, constantes do pacote Oracle.

O Peoplesoft é um sistema inteligente de gestão de pessoas. No caso da Organização Odebrecht, que é um gigantesco banco de talentos sempre em movimento, o Peoplesoft tornará possível, por exemplo, identificar pessoas, já efetivas ou potenciais, com os atributos precisos para preencherem os mais diferentes perfis. “Vamos dar um exemplo: preciso de um engenheiro especializado em túneis que fale inglês e árabe”, diz João Cumerlato. “Devidamente alimentado de dados, o Peoplesoft descobre esse profissional, fornece o nome de seu líder, indica quem poderá substituí-lo e quando ele estará liberado para exercer uma nova função.”

O Hyperion é um Business Intelligence, ou BI, um conjunto de operações que permite cruzar dados, reunir, consolidar, comparar e explorar informações. Esse processo possibilita ao gestor montar cenários para tomar decisões mais acuradas sem depender da equipe técnica de Tecnologia da Informação.

Primeiro contato com o novo sistema será em 2009



As mudanças que o novo sistema trará são coerentes com os princípios e conceitos sobre os quais a Odebrecht sustenta seus negócios. É como explicou Marcelo Odebrecht em seu comunicado aos integrantes. “Para que a Odebrecht se mantenha no rumo do crescimento e perpetuidade, precisamos estar sempre insatisfeitos com os resultados alcançados.” E citou seu avô, o fundador Norberto Odebrecht: “Na natureza tudo tende à deterioração". Por isso, conclui Marcelo, “precisamos buscar constantemente nos renovar sobre uma base filosófica que não muda”.