Portugal

Fundamentos
para o amanhã

Com a experiência de 20 anos de atuação em Portugal, através da Bento Pedroso Construções, a Odebrecht está pronta para um novo ciclo de desenvolvimento do país

texto: Karolina Gutiez
fotos: Eduardo Moody

Em 1988, a Odebrecht, que há quase uma década vivenciava um intenso processo de internacionalização, encarava um novo desafio: o início da atuação em Portugal, a primeira experiência no continente europeu. O país vinha de uma forte crise, que abalara diversos setores da economia e a maioria das empresas locais, entre elas a José Bento Pedroso & Filhos, construtora especializada em infra-estrutura. Portugal acabara de se integrar à União Européia e esperava receber investimentos que adequassem seus serviços públicos aos padrões do continente.

Foi então que os destinos das duas empresas se cruzaram. A José Bento Pedroso & Filhos dispunha de um portfólio de obras importante, de uma extensa carteira de clientes e de conhecimento sobre o setor de obras públicas no país. Do outro lado, a Odebrecht tinha condições de obter recursos e sanar as dificuldades pelas quais a construtora portuguesa vinha passando, capacidade para aportar novas tecnologias e, sobretudo, uma filosofia empresarial inovadora. Em comum, ambas contavam com um patrimônio essencial: as pessoas.

Assim, a José Bento Pedroso & Filhos, rebatizada de Bento Pedroso Construções, ou simplesmente BPC, foi integrada à Organização Odebrecht e, em poucos anos, já estava reposicionada entre as três maiores empresas do setor de infra-estrutura em Portugal, com a saúde financeira e o parque de equipamentos recuperados. Passou a atuar, então, em projetos especiais e de envergadura para o país, como a expansão do Metrô de Lisboa, no qual está até hoje; a construção da Gare do Oriente, um complexo de estações de trem e metrô e terminais de ônibus; um conjunto de auto-estradas e a Ponte Vasco da Gama, segunda travessia sobre o Rio Tejo, com 18 km de extensão. Hoje são mais de 500 km de concessões rodoviárias, quase 550 km de auto-estradas construídas, 288 mil m2 de edificações, 34 km de pontes e viadutos, 8,6 km de linhas de metrô, 146 km de ferrovias, e obras realizadas em 12 portos e aeroportos, entre outros projetos.

“Uma pedrada no charco”
Estes números, no entanto, estão longe de ser o único marco dessa história. “A chegada da Odebrecht em Portugal foi uma pedrada no charco”, define o engenheiro José Luis Catela Rangel de Lima, Presidente da empresa concessionária Lusoscut e ex-Presidente da Estradas de Portugal, um dos principais clientes no país, se valendo de um provérbio local para dizer que a Odebrecht movimentou o setor. “A empresa introduziu novas regras no mercado, implementou novas formas de gestão, como a atuação descentralizada, permitindo que as decisões fossem tomadas no canteiro. Isso era inédito em Portugal”, acrescenta o Vice-Presidente da Associação Nacional de Obras Públicas, engenheiro Manuel Agria.

O português José Joaquim Ferreira Martins, engenheiro geólogo, está há 18 anos na BPC, onde teve a primeira experiência profissional. Hoje é Diretor de Contrato (DC) da recém-conquistada obra da Cintura Regional Interna de Lisboa (Cril), um anel rodoviário, parcialmente construído, que liga as diversas regiões da capital portuguesa. O trecho que falta para fechar o anel é de 3,5 km, mais 700 m complementares, com ligações municipais viárias e quatro pistas em cada sentido. A execução é complexa porque todo o lote se encontra em área urbana.

“O mais gratificante nessas quase duas décadas de trabalho é constatar que o que fizemos se traduziu não apenas em resultados econômicos mas, sobretudo, na formação de pessoas e na conquista de clientes”, afirma José Joaquim. Segundo o engenheiro, o preço apresentado pela BPC para o contrato da Cril, apesar de ser superior ao de outros concorrentes, traduzia a qualidade do projeto e a proposta técnica apresentada. O desempenho já demonstrado em obras urbanas similares para o mesmo cliente, a Estradas de Portugal, no que diz respeito, principalmente, ao cumprimento dos prazos, à qualidade da execução e à garantia do preço final, prevaleceu. “Temos uma face perante o cliente, pois nossa capacidade de dialogar é local e isso favorece a criação de relações duradouras. Adicionalmente, podemos oferecer soluções globais, com base em nosso aprendizado em outros países. Esse é um diferencial.”

Mão dupla
Se em Portugal o aporte do conhecimento adquirido pela Odebrecht ao redor do mundo é um fator de diferenciação, o contrário também acontece. A Ponte Vasco da Gama, concluída há 10 anos, é um projeto pioneiro, pois foi um dos primeiros realizados em regime de parceria público-privada, a chamada PPP. Os países membros da União Européia, por conta do Tratado de Maastricht, têm um limite de comprometimento de seu orçamento, a fim de evitar o endividamento público. A solução encontrada pelos governos para realizar os investimentos necessários, sem infringir o tratado, foi estabelecer parcerias com a iniciativa privada, que assume os riscos inerentes ao projeto, valor que não entra, assim, nas contas do Estado. O desenvolvimento proporcionado na região em que se construiu uma auto-estrada, uma barragem ou uma ponte, por exemplo, paga, em 30 anos de concessão, o que foi investido pelo setor privado em sua construção.

“Quando se iniciaram os estudos para a execução da Ponte Vasco da Gama, no início da década de 90, o mercado financeiro local ainda não tinha condições de prover os meios necessários para a sua realização. O know-how dos bancos para essa equação financeira era incipiente e os construtores não tinham experiência nesse tipo de iniciativa”, relembra Renato Mello, Diretor de Investimentos da BPC, há 20 anos na Organização Odebrecht, dos quais 16 em Portugal. A BPC, ao lado de três das principais empresas portuguesas, se associou a grupos empresariais internacionais e, aproveitando as competências de cada uma das partes, contribuiu para a viabilização desse projeto que alavancou as parcerias público-privadas e, conseqüentemente, a realização de obras de infra-estrutura em Portugal.

Em 1998, o Governo português lançou um agressivo plano para eliminar em 20 anos o déficit rodoviário do país. Pela facilidade de obtenção de investimentos privados, o objetivo foi alcançado em cinco anos. Em 2003, a BPC já participava da segunda maior concessionária de Portugal (Aenor), atrás da empresa Brisa, há 30 anos no mercado. Hoje, Portugal é um dos líderes mundiais em PPPs, ao lado de Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Austrália. E a Odebrecht, a partir dessa prática, desenvolve projetos viários e de saneamento, em regime de PPP, no Peru, como o Transvase Olmos e a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana (IIRSA Norte e Sul), e no Brasil, como a Águas de Limeira, os sistemas de esgoto de Rio Claro (SP), Rio das Ostras (RJ) e Salvador (BA), e a PPP viária do Paiva (PE).

Em 2005, a BPC desenvolveu um Sistema Integrado de Gestão da Qualidade, Segurança e Saúde no Trabalho, Meio Ambiente e Responsabilidade Social, que um ano mais tarde foi certificado pelo Bureau Veritas Certification (BVC). A BPC foi a primeira empresa de construção da Península Ibérica a obter as quatro certificações simultaneamente (ISO 9001, OHSAS 18001, ISO 14001 e SA 8000) e a única a conquistar a certificação de um sistema integrado das quatro áreas na Organização Odebrecht.

As vantagens de se ter um sistema único para administrar estes quatro itens vão desde maior agilidade, eficácia e desburocratização até a padronização das ações em todos os contratos. A empresa audita, ainda, seus prestadores de serviços, para verificar se eles estão cumprindo todas as exigências nessas áreas. “A BPC sempre foi uma parceira responsável, que trouxe para o setor de construção níveis de segurança muito superiores aos praticados em Portugal anteriormente”, destaca João Bento, Administrador da Brisa, ora cliente, ora parceira da BPC.

Patrimônio humano
Antonio Lucas, Diretor de Contrato, foi o líder do Rotas do Conhecimento, um programa de formação de pessoas cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento dos integrantes, incentivando-os a se tornarem empresários de seus conhecimentos. Esse programa teve início em 2005 e foi realizado em parceria com a Universidade de Coimbra. Vários temas, identificados com o apoio dos próprios participantes, foram objeto de estudo. Professores da universidade iam aos canteiros, ambiente onde os integrantes se sentiam mais confortáveis, e ministravam aulas sobre assuntos como aplicação de concreto, aço, fôrmas e controle de qualidade.

No encerramento de cada um dos temas, os integrantes é que então iam à universidade, onde comprovavam em laboratório os experimentos vistos durante as apresentações. Voltado inicialmente para técnicos e encarregados, o Rotas do Conhecimento foi estendido a todos os integrantes da BPC. “Ao longo de um ano, o programa permitiu, além do desenvolvimento pessoal e profissional, a integração e o compartilhamento de aprendizados”, define Antonio Lucas. Obras da Odebrecht nos Estados Unidos, no Peru e nos Emirados Árabes Unidos já puseram o programa em prática. “É a BPC, mais uma vez, compartilhando suas experiências com a Organização”, conclui Antonio Lucas.

“Os integrantes em Portugal, educados dentro da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), hoje completamente assimilada, ocupam posições de liderança em projetos executados no país e no exterior e são reconhecidos pelo mercado”, assegura o Comandante João Rodrigues, Presidente do Conselho Geral da BPC. Genro de Manuel António Penaforte Pedroso, o filho mais velho do fundador da José Bento Pedroso & Filhos, o Comandante, como é chamado por todos, viveu todo o processo de integração da BPC à Odebrecht.

A exemplo de José Joaquim, Diretor de Contrato da Cril, há muitos outros integrantes portugueses que ingressaram na BPC no início da década de 90, recém-formados, e que hoje são empresários-parceiros. “Os jovens contratados naquele período são os líderes que hoje estão prontos para empresariar plenamente”, salienta André Amaro, Diretor-Superintendente da Odebrecht em Portugal e Presidente do Conselho de Administração da BPC.

O processo de desenvolvimento ao qual André se refere não está restrito às fronteiras lusitanas. Em 2007, 52 jovens integrantes portugueses vivenciaram novos desafios em países como Líbia (28), Angola (13), Djibuti (cinco), Emirados Árabes Unidos (três), Estados Unidos (um), México (um) e Moçambique (um). Além daqueles de outras nacionalidades que, após um período em Portugal, foram projetados para novas empreitadas. Esse é um sinal da plena integração, da compreensão e da prática da TEO da qual falava o Comandante João Rodrigues: os portugueses estão aptos e abertos a trabalhar em qualquer lugar onde a Odebrecht estiver.

Odete Marques, que ingressou na BPC em 2003, assumiu o programa de Planejamento do contrato de Águas de Benguela, em Angola, em agosto de 2007. “Desde minha entrada na BPC, me identifico com a TEO, portanto, não foi difícil aceitar o desafio. Em Angola, os meus conhecimentos profissionais se expandiram e o lado pessoal também tira proveitos dessa oportunidade”, pondera Odete, que, em contrapartida, deixou marido e filho em Portugal.

Nuno Teixeira compartilha com a colega algumas semelhanças. Entrou na BPC em 2003, para participar do programa Jovem parceiro. Em 2007, surgiu a oportunidade de participar da conquista do contrato do Terceiro Anel Viário de Trípoli, na Líbia, de onde seguiu, pouco tempo depois, para Benguela. “Desde o meu primeiro dia de trabalho na BPC, um dos assuntos que mais me cativaram foi a possibilidade de atuar em projetos em várias partes do mundo. Curiosamente, hoje estou em Angola, país que faz parte da história de Portugal, por intermédio de uma empresa brasileira...”

Conquista de novos mercados
A forte presença de integrantes portugueses nas equipes que trabalham atualmente na Líbia se deve ao fato de a BPC ser a responsável pela conquista das obras do Terceiro Anel Viário e do novo terminal de passageiros do Aeroporto Internacional, ambos em Trípoli, capital do país africano. Devido a um período de poucas oportunidades no setor de construção em Portugal, a BPC passou os últimos cinco anos estudando novos mercados, como Hungria, Romênia, Polônia, Argélia e Líbia, país no qual identificou a necessidade de obras de infra-estrutura relevantes.

“Confirmamos nossa capacidade de contribuir para a expansão da Organização Odebrecht e, ao nos tornarmos vetores da abertura de novos mercados, não temos mais como recuar”, analisa André Amaro. Por isso, para ele, a conquista de projetos na Líbia já está no passado. “Estamos agora concentrados no mercado da Argélia, onde há oportunidades concretas e excelentes perspectivas.”

Os próximos 20 anos
A BPC vai precisar conciliar, no entanto, a vocação para aterrissar em novos territórios, com o cenário que se configura no horizonte dos próximos 20 anos, em Portugal. Vultosos projetos de infra-estrutura, avaliados em 15 bilhões de euros, estão sendo delineados, com início previsto para os próximos anos, pelos quais a BPC já demonstrou interesse.

À malha rodoviária atual devem ser somadas mais sete auto-estradas. As propostas para execução dos projetos, construção e operação já estão sendo concluídas. Ainda este ano, a licitação para a construção do trem de alta velocidade que ligará Lisboa a Madri deve ser lançada. Com o chamado TGV, a viagem será realizada em 2h40. Leva-se, hoje, oito horas para percorrer os 600 km que separam as duas capitais, de trem, e seis horas, de carro. A BPC participa de um consórcio com empresas internacionais que concorre à obra.

Destaque da BPC nos últimos 20 anos



No setor de energia, o Governo anunciou um plano para a construção de 10 barragens na próxima década, além da execução de obras para reforçar o sistema existente.

A BPC tem, desde 2004, participado do desenvolvimento de estudos para a criação de uma Plataforma Logística. Em uma área de 600 ha, serão desenvolvidos serviços e infra-estruturas para atender às necessidades de empresas do setor logístico. Esse espaço se beneficiará de uma intermodalidade que o tornará único na Península Ibérica, da ligação com os portos de Lisboa, de Setúbal e de Sines, de uma moderna interface ferroviária e da proximidade do futuro aeroporto de Lisboa (a 15 km).

A fim de contribuir para o aproveitamento do potencial turístico de Portugal, em 2007, a BPC deu início à sua atuação no setor de turismo residencial. O primeiro projeto nessa área será na região do Algarve e prevê a construção de até seis resorts integrados.

Duas décadas atrás, Portugal carecia de projetos que atualizassem as suas infra-estruturas, muito atrasadas em comparação aos padrões europeus. Agora, em condições bem melhores, o país se prepara para um novo ciclo de investimentos permanentes, com o objetivo de garantir que seu crescimento seja sustentável. O mesmo pode-se dizer da BPC, que, do período de recessão, só guarda os aprendizados. Em 2007, foi eleita a melhor empresa para se trabalhar e a melhor do setor de construção em Portugal pela revista Exame. “Nessa perspectiva, nosso desafio é redobrado. Em um mundo globalizado temos de focar no aumento da competitividade de Portugal, com sustentabilidade”, diz André Amaro, “para daqui a 20 anos podermos afirmar, com convicção, que continuamos contribuindo para o desenvolvimento do país”.