Entrevista - Alfredo Tellechea

Uma travessia segura

O engenheiro civil Alfredo Lisboa Ribeiro
Tellechea é um habilidoso negociador.
Integrante de uma das famílias que
fundaram o Grupo Ipiranga, há mais
de 70 anos, Alfredo Tellechea foi um
dos grandes responsáveis pelo processo
de integração dos ativos da Copesul
e da Ipiranga à Braskem

texto: Leonardo Mourão
foto: Dario de Freitas

Com toda a sua carreira construída dentro do Grupo Ipiranga, Tellechea tornou-se gestor logo no início de sua vida profissional, preparado por vários cursos de especialização e pós-graduações, parte deles no exterior. Ocupou cargos executivos nas áreas de distribuição de combustíveis e na Ipiranga Petroquímica, da qual era o Diretor-Superintendente na época da venda do Grupo. Após a fusão, foi convidado a assumir a Superintendência da Copesul, a central de matérias-primas do Pólo de Triunfo (RS) – hoje Braskem – e agora lidera a Unidade Poliolefinas, no pólo. Aos 51 anos, Tellechea mora em Porto Alegre e passa metade da sua semana na sede da Braskem, em São Paulo. Foi durante uma partida de tênis, há um ano e meio, que ele recebeu uma ligação comunicando a venda dos ativos da Ipiranga. Isso representaria uma profunda reviravolta em sua vida e na dos acionistas do grupo. Nesta entrevista, Tellechea comenta publicamente, pela primeira vez, alguns detalhes dessa transição.

Odebrecht Informa – É verdade que você considerava inevitável a transferência de controle do Grupo Ipiranga para o consórcio liderado pela Braskem?
Alfredo Tellechea
– Quando assumi a Ipiranga Petroquímica, no fim de 2005, comecei a avaliar o negócio, a avaliar os players e o setor. Notei que nós, da Ipiranga Petroquímica, precisávamos de um movimento estratégico para desenvolver musculatura suficiente para poder enfrentar os principais competidores. Coloquei para os acionistas, na época, que, se a Ipiranga Petroquímica não promovesse algumas modificações e investimentos, ela se transformaria no médio prazo em uma empresa “cash-cow”, ou seja, ela teria resultados durante um determinado período de tempo, mas não teria competitividade futura e a tendência seria de perda de valor. Assim, a alienação dos ativos era também uma alternativa para os controladores.

Odebrecht Informa – Como você recebeu essa notícia?
Tellechea
– Na realidade eu já tinha conhecimento de que havia negociações nesse sentido, mas quando caiu a ficha... Eu estava jogando tênis, em um sábado, quando me ligaram me pedindo para vir para São Paulo. Depois disso consolidado, fiquei muito preocupado com os integrantes, as pessoas. Eu gostaria de falar com todos antes que a notícia fosse veiculada. Peguei um vôo aqui em São Paulo, um jato, às 3 horas da manhã. Cheguei em casa, em Porto Alegre, às 5 horas da manhã de segunda-feira. Eu havia pedido para reunir os líderes da empresa às 8 horas, mas a notícia já estava publicada nos jornais. Foi um período bastante tenso, complexo. Tinha de conseguir fazer com que aquelas pessoas que trabalhavam lá havia muito tempo entendessem esse movimento. Era necessário que a Braskem se mostrasse como ela realmente é, como uma alternativa importante não apenas para o setor em si, mas também para os integrantes que, naturalmente, estavam preocupados com o seu futuro. E no fim desse período de um mês, a Braskem me convidou para assumir a Copesul.

“Era necessário que a Braskem se mostrasse como ela realmente é, como uma alternativa importante não apenas para o setor em si, mas também para os integrantes”



Odebrecht Informa – Você imaginava que haveria esse convite?
Tellechea
– Na realidade foi uma surpresa. Eu diria que não era algo totalmente fora de lógica. Era interessante ter uma pessoa que conhecesse não apenas as empresas, mas também a sociedade, o meio empresarial do Rio Grande do Sul. Isso foi de extrema importância nesse processo. E, pessoalmente, eu tinha interesse em manter a minha base no Sul e assumir novos desafios profissionais.

Odebrecht Informa – Por que foi importante para a Braskem a escolha de um líder que conhecesse o Rio Grande do Sul?
Tellechea
– Cada cultura tem seus pontos peculiares. O gaúcho é muito apegado às suas tradições, às suas coisas. Isso é bastante positivo. E a Ipiranga, principalmente ela, mas também a Copesul, sempre foram queridas e respeitadas no Estado. A Ipiranga está na vida dos gaúchos há mais de 70 anos (a empresa foi fundada em 1937), foi a primeira refinaria de petróleo do Brasil. Ela cresceu, concebeu toda a sua estratégia de crescimento a partir do Rio Grande do Sul. E a Copesul simboliza toda a luta dos anos 70 para trazer o Pólo Petroquímico de Triunfo para o Rio Grande do Sul. Tanto a Ipiranga quanto a Copesul sempre tiveram uma participação muito forte na sociedade gaúcha. Não só no âmbito empresarial, na geração de oportunidades de trabalho e de riquezas, mas também com uma participação social, cultural, institucional. Então se colocou aquela questão: “Estamos perdendo! Estamos perdendo posição!” Mas não, não se está perdendo nada. O que está acontecendo é que estamos reforçando nossa posição.

Odebrecht Informa – Como a notícia da aquisição da Ipiranga repercutiu?
Tellechea
– O que procuramos transmitir à sociedade foi: a posição da petroquímica gaúcha sai fortalecida e a Braskem tem compromisso com esse fortalecimento. Foi um processo rico, que desde o princípio se mostrou extremamente positivo para a petroquímica brasileira, em especial para aqueles ativos do Sul. Se não tivesse existido esse movimento por parte da Braskem e da Ipiranga, dificilmente os investimentos que hoje estão sendo anunciados teriam sido possíveis.

Odebrecht Informa – Como esse R$ 1,1 bilhão de investimentos anunciados em junho passado?
Tellechea
– Sim. Esses recursos serão aplicados sobretudo na planta de eteno verde. A Braskem será a primeira petroquímica a produzir polietileno verde em escala comercial. Isso é fundamental para nossa estratégia de sustentabilidade.

Odebrecht Informa – O projeto de produção do polietileno verde já está em pleno andamento. Qual o significado dele para a Braskem?
Tellechea
– O impacto que o plástico verde provocará é muito importante para todos nós. Fomos muito felizes em tornar viáveis os investimentos para a produção de polietileno verde no Pólo de Triunfo. É um investimento entre R$ 400 e R$ 500 milhões. A capacidade de produção, depois da plena instalação da planta, será de 200 mil toneladas por ano, o que irá consumir anualmente 450 milhões de litros de etanol. Para se ter uma idéia do que significa esse volume, o consumo anual de todo o Rio Grande do Sul no momento é de 500 milhões de litros.

"O que procuramos transmitir à sociedade foi: a posição da petroquímica
gaúcha sai fortalecida e a Braskem tem compromisso com esse fortalecimento"



Odebrecht Informa – A construção da planta já teve início?
Tellechea
– Ela deverá ocorrer ainda em 2008. O projeto está em andamento, e eu deverei participar do processo de gestão do negócio, já que iremos produzir polietileno, um dos principais produtos da Unidade de Negócio (UN) que estou tendo a oportunidade de liderar. A Braskem já está produzindo, numa planta piloto no Centro de Tecnologia e Inovação, em Triunfo, 12 toneladas por ano de polietileno verde. O que está sendo produzido é enviado para testes em empresas brasileiras e de fora do país, que estão interessadas em associar seus produtos ao conceito de sustentabilidade. Temos até o primeiro produto: a Brinquedos Estrela está lançando o Banco Imobiliário Sustentável, que combina lazer e educação ambiental (veja reportagem sobre a parceria entre a Braskem e a Estrela nesta edição).

Odebrecht Informa – Qual é o impacto de produzir, no cenário mundial de forte volatilidade de custos das matérias-primas, plástico oriundo de cana-de-açúcar?
Tellechea
– Triunfo terá a primeira operação em escala comercial, em todo o mundo, voltada para a produção de polietileno a partir de uma matéria-prima 100% renovável. A busca de matérias-primas competitivas é uma das chaves do sucesso da petroquímica no mundo. A volatilidade dos preços da nafta deve continuar, com tendência de leve redução de custos a médio prazo, em virtude da desaceleração da economia norte-americana, o que provoca queda na demanda. O incremento da participação de biocombustíveis em importantes mercados também tem contribuído para isso.

Odebrecht Informa – O plástico verde será um diferencial decisivo da Braskem?
Tellechea
– Um dos pilares da estratégia empresarial da Braskem é investir na inovação e na tecnologia. E, no caso dos polímeros verdes, ela se mostrou acertada. A demanda potencial por esse produto foi identificada como sendo três vezes maior do que a capacidade da planta que será instalada. A Braskem é uma empresa que tem luz própria, vontade, determinação, tem projetos. Ela tem recursos, sobretudo humanos, o que é o mais difícil de conquistar.

Odebrecht Informa – Como você se sente em trabalhar em uma empresa da Organização Odebrecht?
Tellechea
– Um ponto extremamente positivo é que a Braskem atua de acordo com a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), que é muito bem-definida, e a preocupação em colocá-la efetivamente em prática é constante. Isso dá uma perspectiva bastante clara para os seus integrantes de como a empresa, ou as empresas, querem se posicionar. A definição precisa do papel dos seus integrantes, das suas responsabilidades, contribui de maneira significativa para o que sempre defendi na minha vida como gestor, a necessidade de perpetuarmos as empresas.

Odebrecht Informa – Como você avalia a integração da Ipiranga e da Copesul à Braskem?
Tellechea
– Hoje não podemos mais pensar em Ipiranga ou em Copesul. Temos de pensar em Braskem. Estamos no fim do processo de integração desses ativos: Ipiranga, Copesul e a Petroquímica Paulínia, que foi um ativo recentemente inaugurado, que começou como uma pessoa jurídica independente e hoje está integrado. Temos também a perspectiva de integrar os ativos da Petroquímica Triunfo, o que depende ainda de alguns ajustes com a Petrobras. Toda essa engenharia com a Petrobras foi feita no sentido de que esses ativos, compartilhados entre Petrobras e Braskem, passassem a ser controlados pela empresa da Organização Odebrecht. Em contrapartida, a Petrobras aumentou sua participação na Braskem. Isso é um movimento estratégico muito relevante para o nosso futuro. É importante a Petrobras participar do negócio petroquímico, porque ela viabiliza a potencial integração da cadeia gerando muito mais competitividade.

"Um dos pilares da estratégia empresarial da Braskem é investir na inovação e na tecnologia. E, no caso dos polímeros verdes, ela se mostrou acertada"



Odebrecht Informa – Que resultados esse movimento estratégico deverá trazer?
Tellechea
– O essencial é que a empresa tenha um desempenho no curto prazo, porque é isso que gera recursos para materializar o planejamento de médio e de longo prazo. A Braskem combina um foco de curto prazo com um foco muito forte na posição que ela quer ocupar no futuro. Isso está muito bem-definido. Por isso digo que ela tem projeto, tem luz própria e consegue comunicar isso para os integrantes. O planejamento das empresas deve ser um sonho compartilhado por todos os seus integrantes. Um sonho coletivo. É um caminho longo, complexo, mas estamos no rumo certo. E as empresas e pessoas que têm objetivos claros, que têm determinação, que buscam competências, atingem os resultados que almejam.