Cultura

Uma escritora fascinada
por suas raízes

Ex-integrante da Odebrecht, Frances
de Pontes Peebles lança nos Estados
Unidos seu primeiro romance,
The Seamstress (A Costureira),
ambientado em seu Pernambuco natal

texto: Cláudio Lovato Filho
fotos: Denise Cruz

Frances de Pontes Peebles se lembra com nitidez daquela manhã, no ano 2000, em que fotografou a nova torre de controle do Aeroporto Internacional de Miami. As fotos iriam para o álbum de acompanhamento da obra. Frances chegou bem cedo ao canteiro, de maneira a fotografar a torre com o sol nascendo. Ela queria pegar a luz certa, e isso se oferece aos fotógrafos sempre por pouco tempo. Mas havia um desafio maior: a torre era enorme e, se feitas do chão, as fotos não mostrariam sua real dimensão. Brian Perantoni, engenheiro da Odebrecht responsável pela construção da torre, entregou a Frances um capacete e a ajudou a subir num guindaste. Com luz e angulação perfeitas, as fotos ficaram ótimas.

“Mais ou menos um ano depois (em 2001), Brian sofreu um infarto e faleceu. Todos ficamos tristes demais por perdê-lo de forma tão repentina”, recorda-se Frances. “Eu sempre vou me lembrar da maneira solidária e entusiasmada como ele me ajudou naquela manhã.”

Frances não sobe mais em guindastes desde que deixou a subsidiária da Odebrecht nos Estados Unidos, onde trabalhou por um ano entre 2000 e 2001. Nascida em Recife, em 1978, passou a maior parte da infância em Miami e atualmente vive em Chicago. Ela é filha de uma pernambucana, Lúcia de Pontes Peebles, e de um norte-americano, David Peebles, que está na Odebrecht há quase 20 anos e hoje é integrante da ETH Bioenergia (empresa da Organização no setor de Açúcar e Álcool) na Flórida. Frances está estreando como escritora profissional: seu primeiro livro, um romance intitulado The Seamstress (A Costureira), foi lançado em agosto pela editora HarperCollins, uma das maiores dos Estados Unidos. “Quis apenas contar a história de duas mulheres fortes, inteligentes e complexas”, ela diz, com modéstia.

Camaradagem
Na Odebrecht, Frances atuou a maior parte do tempo na área de propostas, no escritório central, em Coral Gables, apoiando Dan Spencer, hoje Responsável por Desenvolvimento de Negócios no Estado da Louisiana. Ela redigia e editava textos, tirava fotos e produzia gráficos. Frances também traduziu para o inglês diversos textos da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), de autoria do fundador Norberto Odebrecht.

“Eu gostava da camaradagem”, diz Frances, referindo-se a seus tempos de Odebrecht. “Todos me faziam sentir bem-vinda, no escritório e nos canteiros de obra. Gostava especialmente da TEO e da idéia de que, na Odebrecht, não éramos empregados, mas empresários que trabalhavam juntos para oferecer soluções aos clientes. Isso deu a todos nós um profundo senso de determinação.”

Frances saiu da Odebrecht para dar seqüência a seu projeto de vida: tornar-se escritora. Já formada em Letras pela Universidade do Texas, na cidade de Austin, fez mestrado na Universidade de Iowa, onde fica o Writer’s Workshop, a famosa escola de formação de escritores. “Lá percebi quanto de dedicação e de solidão é necessário para uma pessoa se tornar escritora.”

Depois de formada no Writer’s Workshop, escreveu contos e vendeu-os para importantes revistas norte-americanas, entre as quais a Zoetrope: All-Story, do cineasta Francis Ford Coppola; ganhou prêmios literários (como o Best American Short Stories e o O. Henry Prize Stories) e bolsas, incluindo uma da Associação Fulbright, do Governo norte-americano, para escrever um romance.

A pernambucana Frances decidiu então pesquisar sobre a década de 1930 e o cangaço do Nordeste brasileiro. O trabalho resultou na publicação de The Seamstress, que terá uma edição brasileira lançada pela Editora Nova Fronteira (ainda sem data definida).

Com 646 páginas, o livro conta a história, ambientada em um Pernambuco de 1928, de duas irmãs costureiras e bordadeiras, Emília e Luzia. A primeira é uma sonhadora que quer escapar do interior e morar em Recife; a outra foi marcada por um acidente ocorrido quando tinha 11 anos de idade e que foi determinante para a definição de seu temperamento e de seu destino. Até que um dia um bando de cangaceiros chega a Taquaritinga do Norte, a pequena cidade do sertão de Pernambuco onde se desenrola a ação, e a vida das duas irmãs passa a seguir direções completamente opostas.

Frances visita todos os anos o sítio da família em Taquaritinga do Norte. Admiradora da literatura de Rachel de Queiroz, sua escritora preferida, e também de Nélida Piñon e Graciliano Ramos, além de outros grandes autores de várias nacionalidades, como o japonês Junichiro Tanazaki, a norte-americana Louise Erdrich e a canadense Margaret Atwood, Frances pretende continuar escrevendo sobre temas brasileiros.

“Eu tive sorte de crescer em dois países, os Estados Unidos e o Brasil, e de ter essas duas heranças”, ela diz. “Os dois países sempre darão forma às minhas histórias. O Brasil está sempre comigo. É uma parte do meu espírito e da minha imaginação. Vou sempre querer escrever sobre o Brasil.”