Cultura III
O legado de um
olhar apaixonado
Protagonista de uma trajetória incomum,
o médico e crítico Clarival do Prado
Valladares completaria 90 anos de idade
em setembro
texto: Carmen Lucia Azevedo
Se ainda fosse vivo, Clarival do Prado Valladares completaria 90 anos neste 26 de setembro de 2008. Mas, infelizmente, a morte o levou cedo, em 1983, há exatos 25 anos, deixando triste e orfã a arte brasileira. O objetivo destas linhas é resgatar um pouco do brilho de sua trajetória incomum e apresentar às gerações atuais o legado que esse baiano de saúde frágil deixou para o patrimônio artístico e arquitetônico de nosso país.Seu nome é hoje muito divulgado no Brasil em dois eventos anuais importantes. Primeiro, no prêmio instituído em 2003 pela Organização Odebrecht, que acolhe a cada edição centenas de estudiosos da cultura brasileira e seleciona um projeto para vir a público em formato de obra de alto padrão gráfico e editorial. Segundo, no concurso organizado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte, no qual uma das categorias o tem como patrono.
Mas quantos brasileiros sabem realmente quem foi esse médico patologista apaixonado pelas questões estéticas da brasilidade e o papel que representou para a arte nacional e para a nordestina em particular?
Clarival nasceu no dia 26 de setembro de 1918, na rua da Poeira, 81, em Salvador. Era o segundo filho de Clarice Santos Silva Valladares e de Antônio do Prado Valladares, médico bastante afamado na cidade e professor catedrático da Escola de Medicina da Bahia. O nome de batismo adveio da maneira carinhosa como a mãe assinava seus bilhetes para o marido.
Na companhia de José, seu irmão mais velho e primogênito dos Prado Valladares, Clarival mudou-se ainda jovem para Recife. Os meninos foram afastados como medida dolorosa embora preventiva, porque o pai lutava contra uma tuberculose. Foram recebidos calorosamente por Ulysses Pernambucano, médico psiquiatra amigo do pai, que os acolheu em sua casa e criou-os junto aos próprios filhos, Jarbas e José Antônio.
Foi em Recife que Clarival e José concluíram o curso médio e iniciaram a carreira universitária. José, interessado no jornalismo, encetou o Direito, e Clarival, seguindo as pegadas paternas, optou pela faculdade de Medicina, que seria concluída na Bahia. Tal como o pai, Clarival aprofundou os estudos na língua alemã visando ter acesso à produção científica a mais atualizada possível.
Leituras e descobertas
Essa temporada longe da família modulou uma fase de extraordinário descortino na formação intelectual dos irmãos, com muitas leituras e descobertas. Conheceram os grandes clássicos, ampliaram seus horizontes e ganharam intimidade com debates e pesquisas de ponta. A convivência no círculo de amigos e familiares de Ulysses proporcionou-lhes acesso a intelectuais que estavam então em plena efervescência produtiva, como Joaquim Cardozo, Cícero Dias, Gilberto Freyre e Roberto Burle Marx – que em 1934 assumia a Diretoria de Parques e Jardins do Recife e de quem Clarival, ainda que nove anos mais moço, seria amigo muito chegado.
Foi em meio a essa turma que os Prado Valladares adquiriram o gosto pelo diletantismo, responsável por sua notável contribuição posterior para a cultura brasileira. Em Clarival, isso se acentuou com a temporada de pesquisas sob a batuta de Gilberto Freyre, a quem auxiliou no levantamento das condições de vida na Ilha do Joaneiro, região de palafitas na foz do Capiberibe. Com base nessa pesquisa surgiria Sobrados e Mocambos, publicado em 1936 e que logo se tornaria clássico.
Em 1939, já de volta a Salvador devido à morte do pai – que faleceu no Sanatório de Correias, na serra fluminense –, quis a história que o caminho de Clarival cruzasse com o de Erica, sua vizinha descendente de imigrantes alemães, com quem viria a se casar. Erica era filha de Emílio Odebrecht e apreciava bastante a tradição dos seus antepassados, assim como as expressões artísticas do país em que nascera. O que os aproximou foram justamente as letras e as artes, por intermédio da professora particular de alemão. A comunhão de espíritos e a invulgar paixão do casal pelas manifestações culturais serviu de base à fraterna e mútua compreensão que Clarival nutriria pelo sogro, como ele mesmo conta no prefácio do quarto volume do seu Nordeste Histórico e Monumental.
A aproximação entre os Prado Valladares e os Odebrecht fez nascer uma parceria de muitas e frutíferas conseqüências para a produção editorial do país. Em 1959, a Odebrecht deu partida a um programa de edições culturais jamais interrompido, que hoje acumula mais de 200 títulos publicados e que teve, durante muito tempo, Clarival como mentor. Hoje, a Organização patrocina o disputado prêmio que leva seu nome.
A primeira obra, impressa há quase 50 anos, intitulava-se Homenagem à Bahia Antiga e era de autoria de José Valladares, que desde 1939 imprimira novo dinamismo à inspetoria de Museus e Monumentos de Salvador e dela fez surgir o Museu de Arte da Bahia. No prefácio, José advertia o leitor que “dinheiro e construções novas, toda e qualquer comunidade operosa deste mundo poderá possuir. Testemunhos materiais do passado, porém, não é coisa que se possa confeccionar”.
Clarival Valladares passou a vida assistido pela esposa e dividido entre a medicina e a paixão pelas manifestações criativas as mais diversas a que o espírito humano dava vazão. Erica foi sua companheira de todas as horas, aquela que o ajudou, desde o primeiro instante, na inusitada pesquisa para a tese de doutoramento em medicina, mais tarde publicada sob o título de Riscadores de Milagres, que enfocava os ex-votos da Igreja do Bonfim. Foi uma polêmica de monta conseguir aprovar, naquele tempo, um trabalho de tal natureza como tese de medicina.
Clarival, entretanto, estava realmente interessado no estudo das patologias. Tanto que, em meados dos anos 1950, viajou para os Estados Unidos para cursar pós-graduação em Patologia, na Harvard University, e em Biologia, no Massachusetts Institute of Technology, ambos em Boston.
Ciência na observação da arte
Sua intimidade com lâminas e laboratórios foi-lhe extremamente útil não apenas em termos profissionais mas também no campo da estética, pois o levou a aplicar procedimentos típicos da prática científica na observação da obra de arte. Paciente e sistemático, cunhou um método de estudo das peças absolutamente seu. Decupava cada obra em pequenas partes e as reproduzia fotograficamente, para estudá-las em detalhe, ponto por ponto. Tal método possibilitou-lhe observar minúcias até então desapercebidas, que acrescentavam significado fundamental para a análise simbólica da obra e do fazer artístico. Clarival costumava dizer que “nada é gratuito, nada é puro acaso, tudo é simbólico”.
Surpreende a quantidade e a variedade dos assuntos sobre os quais se debruçou. Seus estudos abarcaram História, Artes e Arquitetura nos mais variados períodos, Colônia, Império, República. Em suas análises, deteve-se sobre o popular e sobre o erudito, o anônimo e o autoral, o leigo e o religioso, o antigo e o moderno, o individual e o grupal. A saúde frágil não o impediu de legar uma obra colossal, assegurando-lhe lugar de honra entre os críticos brasileiros. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde assumira por concurso a cadeira de Anatomia Patológica, foi indicado em 1962, pela congregação da Escola de Belas Artes, para lecionar História da Arte.
A fase mais produtiva de Clarival passou-se no Rio de Janeiro, onde se instalou definitivamente a partir de 1963. Por vários e vários anos assinou a crítica de arte do Jornal do Brasil, na época um dos mais influentes jornais do país. Inúmeros foram os artistas que ele projetou no cenário nacional, alguns acompanhados praticamente “desde o berço”, como o baiano Emanoel Araújo.
Fez parte das comissões de seleção de artistas do Brasil para a 32ª e a 33ª Bienais de Veneza, realizadas em 1964 e 1966. Integrou júris de muitas exposições nacionais, entre elas a Bienal de São Paulo, ou internacionais, como a III Bienal Americana de Arte, de Córdoba (Argentina), e o I Festival Mundial de Artes Negras, de Dacar (Senegal), ambos em 1966. Atuou na Comissão Nacional de Belas Artes entre 1964 e 1967.
A Galeria Goeldi, uma das mais famosas galerias cariocas de arte moderna, foi obra sua, dirigiu-a até morrer. Também montou a Galeria Banerj e atuou com destaque nas revistas GAM e Cadernos Brasileiros, assim como em vários órgãos e institutos, públicos ou privados, entre eles o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 1967 Clarival passou a integrar o Conselho Federal de Cultura.
Além das teses de doutorado e dos livros de poemas – dois deles, de poesia concreta, impressos entre 1959 e 1960 –, deixou vasta bibliografia. Publicou, como crítico, em jornais, revistas e boletins especializados, no Brasil e no exterior. Redigiu inúmeros prefácios e apresentações para obras e catálogos dedicados a artistas como Guignard, Djanira e Pancetti, entre eles o prefácio para o livro de José Roberto Teixeira Leite sobre o pintor-marinheiro, publicado em 1979. Ou ainda o texto de introdução para Artesanato Brasileiro, iniciativa da Fundação Nacional de Arte (Funarte) que veio a público em 1978. A obra de Clarival do Prado Valladares, apesar de valorizada pela Organização Odebrecht, com a publicação de vários de seus livros e a criação do prêmio com seu nome, ainda está por merecer um mergulho mais profundo por parte de pesquisadores e de instituições culturais no Brasil. Tomara que isso ocorra em breve. A cultura brasileira agradeceria.
Erica Do Prado Valladares: “Tudo o que
aprendi na vida, aprendi com Clarival”
texto Rogério Menezes
No escritório do apartamento do Parque Guinle, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto Lúcio Costa no fim dos anos 1940, Erica do Prado Valladares (a quem o marido tratava por Tida), 86 anos, com vivacidade e jovialidade raras em pessoas de qualquer idade, define o homem com quem viveu durante 42 anos (a quem chamava Tidinho): “Clarival do Prado Valladares se abria como um leque para todas as coisas. Ele sabia ter a compreensão exata dos mais diversos assuntos e conversava da mesma maneira, e com o mesmo respeito, com as pessoas mais simples e as pessoas mais complexas. Tudo o que aprendi na vida, eu aprendi com ele. E lhe garanto: aprendi muito”.
Erica do Prado Valladares foi definida pelo paisagista Roberto Burle Marx como “o lado feminino de Clarival”. Ou, ainda, como “co-autora da obra de meu pai”, no dizer da filha do casal Kátia Valladares. Ambos têm razão. Mas é possível que essa jovial octogenária seja bem mais que isso. É possível que Clarival do Prado Valladares só tenha existido porque existiu uma Erica do Prado Valladares a lhe abrir clareiras no meio da selva. E vice-versa.
Clarival – cujo nome funde o Clarice da mãe com o Val de Valladares do pai Antonio – era a única certeza absoluta que a jovem Erica Odebrecht (irmã caçula de Norberto e Gherda Odebrecht) tinha aos 19 anos. Momento de decisão em sua vida ocorreu quando Clarival, já recém-formado e morando no Rio de Janeiro, contraiu tuberculose, doença gravíssima à época, e lhe enviou carta falando da situação em que se encontrava e afirmando que não teria condição de lhe dar futuro digno. Érica não vacilou. Pediu ao pai que vendesse um terreno que possuía e com esse dinheiro partiu de Salvador para o Rio de Janeiro, onde se casou com Clarival – ele com 23 anos e ela, 19 - apenas no civil (só cinco anos depois se casariam no religioso, em Salvador, no Mosteiro de São Bento).
“O destino reservou-me uma oferenda”
Clarival do Prado Valladares sempre reconheceu a importância fundamental da esposa em sua vida e em sua obra. Em texto à guisa de currículo que escreveu para o catálogo da exposição Obra Seleta (montada em Salvador, Recife, Rio e São Paulo, em 1983, e na qual era rememorada a trajetória pessoal e profissional do médico-historiador), escreveu: “O destino me reservou uma oferenda. Trouxe-me Erica, uma pernambucana, que se dispôs a ajudar-me no preparo de uma tese para doutoramento baseada nos aspectos médicos dos milagres do Senhor do Bonfim”.
Essa idéia de Clarival do Prado Valladares, de se aproximar cientificamente de um dos mais emblemáticos sinais da religiosidade baiana, parece não ter agradado aos mestres da faculdade. No mesmo texto revelou, sem pejo: “Advertiram-me a não começar a vida médica arriscando-me ao ridículo, logo eu, herdeiro de um grande nome da medicina baiana”.
Os mestres também se enganam – e os mestres de Clarival à época estavam redondamente enganados. O assunto, que se transformaria no epicentro do livro Riscadores de Milagres, publicado em 1967, se tornaria pedra fundamental de obra lapidar que se inspiraria basicamente na arte popular brasileira e que o transformaria em um dos mais importantes historiadores da arte brasileira do século XX. Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros, por exemplo, publicado em 1972, foi considerado por Marshall McLuhan, uma das maiores sumidades da área da comunicação em todo o mundo, “a grande obra de sociologia da arte do século XX”.
Médico patologista-e-proctologista luminar e historiador da arte basilar, Clarival do Prado Valladares soube rimar ciência e arte de maneira exemplar. Sempre desconfiou que uma coisa pudesse levar a outra – e vice-versa. Teve ainda mais certeza disso quando, entre 1953 e 1954, passou temporada de estudos de pós-graduação em Citologia no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. A economista e filha Kátia Valladares constata: “Foi nesse momento, analisando células através do microscópio, que meu pai passou a sentir enorme atração pela metodologia científica e a perceber quanto esse olhar profundo poderia lhe ser útil também na observação e na análise do objeto artístico”.
Registro emblemático desse novo olhar, no qual ciência e arte se fundem, pode ser flagrado em fotografia publicada no catálogo da exposição Obra Seleta. Nela, Clarival do Prado Valladares, ao fotografar painéis de azulejaria no Claustro do Convento Santo Antonio, em Recife, manipula a máquina fotográfica para registrar o objeto artístico com postura emblematicamente similar àquela que os cientistas adotam diante do microscópio. A ponto de, após se olhar rapidamente essa fotografia, ter-se dificuldade em saber se o historiador-cientista está manipulando microscópio ou máquina fotográfica. Ou seja: tem-se dificuldade em saber onde começa o historiador e acaba o cientista. E vice-versa.