Peru

Novos dias em Iquitos

Melhoria no abastecimento de água
potável traz expectativa de desenvolvimento
para a maior cidade
da Amazônia peruana

texto: Eliana Simonetti
fotos: Roberto Rosa

Celmita Soria Paredes nasceu em Iquitos, a principal cidade da região de Loreto, norte do Peru. Tem 35 anos, é casada com Alfredo Pacheco Rojas e tem uma filha de seis anos. O casal é proprietário, há mais de uma década, da Bodega Valeria Carolina (nome de sua filha), que fica em um local privilegiado: à margem do Rio Itaya, na bacia amazônica, o que em época de cheia permite aos clientes ter uma vista privilegiada do pôr-do-sol na água.

Na Bodega Valeria Carolina, além de petiscos e bebidas, Celmita serve refeições. Uma tarefa nada simples até agosto de 2008, porque a água só chegava às torneiras durante a noite, apenas um fio, e tinha de ser estocada em baldes e bacias para que frutas, legumes, louças e panelas pudessem ser lavados. “Nossa capacidade de atender os clientes era limitada, tudo era muito trabalhoso”, diz Celmita, ao lembrar dos pesados baldes que transportava. “Hoje o trabalho é mais fácil e não temos preocupação, pois há água corrente o tempo todo, tudo está limpo e até percebemos que nossa filha está mais saudável.”

Paradoxo
O caso é um exemplo de um paradoxo que existia em Iquitos: a cidade, a maior da Amazônia peruana e seu principal porto, é cercada de rios por todos os lados – tanto que só se chega ali por avião (cerca de 1h45 de vôo a partir de Lima) ou barco. O isolamento é tal que para chegar à cidade de Requena, que fica a apenas 157 km de distância, é preciso navegar 19 horas. Uma viagem a Yurimaguas, no Alto Amazonas, requer quatro dias de navegação. Na cidade praticamente não há carros: milhares de motos e mototáxis, semelhantes aos riquixás indianos, são o meio de transporte mais utilizado pela população.

Mesmo assim, Iquitos atrai ecoturistas e gente em busca de aventuras de todo o mundo, sobretudo da América do Norte e da Europa. Cresce a cada dia. Isso se explica porque Loreto é a maior e menos populosa região do Peru. Seu território abrange 29% do país e tem apenas 2,4 habitantes por km2. É coberta de florestas primárias e secundárias e banhada pelos rios Amazonas, Marañon e Ucayali, entre outros. Tem vários parques de preservação natural com mata cerrada, animais e tribos indígenas que preservam tradições e mitos ancestrais.

Às margens do Rio Momon, por exemplo, vive uma das 40 comunidades dos índios boras, com 300 pessoas que praticam agricultura, caça e pesca, e produzem artesanato vendido aos turistas. O cacique Liborio Maynas conta que seu povo ocupa aquela área há 50 anos, e que suas danças e ritos são mantidos, como ocorre entre os outros 5 mil boras que vivem em regiões mais isoladas. “Aqui estamos bem. Podemos conviver com visitantes sem abandonar nossas tradições e nosso idioma”, diz.

Opulência e declínio
Até meados dos anos 1800, a área de Iquitos era habitada pelos boras e também pelos cocama e pelos huitoto. O desenvolvimento tecnológico e a industrialização na Europa e nos Estados Unidos fizeram crescer a demanda pela borracha – e Iquitos, como Manaus, no Brasil, viveu tempos de prosperidade econômica e crescimento populacional. Grande parte dos indígenas se retirou para áreas mais distantes. Foi nessa época que se ergueram edificações como o Hotel Plaza, de 1912, em estilo Art Nouveau, à margem do Rio Itaya (decorado com mármore e azulejos de Sevilha, na Espanha, e grades de ferro fundido provenientes de Hamburgo, na Alemanha), hoje Patrimônio Nacional. E também a Casa de Ferro, desenhada pelo arquiteto francês Gustave Eiffel e comprada pelo barão da borracha Anselmo del Aguila na Exposição Internacional de Paris, em 1889, que atualmente abriga um restaurante na praça principal de Iquitos, a Plaza de Armas. Os barões da borracha mandavam seus filhos para a Inglaterra, estudar, já que a navegação em direção à Europa era mais freqüente do que em direção a Lima. Estão preservadas e abertas a visitação algumas locações do filme Fitzcarraldo, escrito e dirigido por Werner Herzog em 1982, que conta a história do barão da borracha Brian Sweeney Fitzgerald.

Naqueles tempos de fartura, também foram construídas instalações de tratamento de água e esgoto, para atender a uma população de pouco mais de 150 mil habitantes. Entretanto, em 1876 os ingleses levaram sementes de seringueiras para a Malásia, e com o tempo obtiveram plantas mais produtivas do que as sul-americanas. Assim, no início do século 20 a febre da borracha já havia começado a baixar no Peru. Desde então, muitos prédios históricos se deterioraram ou foram destruídos, e embora a cidade tenha bairros com arruamentos pavimentados e bem cuidados, um terço da população de Iquitos – cerca de 120 mil habitantes em 2008, 70% deles sem acesso a água potável e tratamento de lixo e esgoto – vive em casas flutuantes ou em palafitas de madeira com telhado de palha trançada. As instalações do serviço público de saneamento têm mais de 150 anos de idade.

Água e saúde
Com bombas de captação de água dos rios antigas e pouco potentes e uma rede diminuta de canalização, até muito pouco tempo atrás grande parte da população de Iquitos nunca havia experimentado uma ducha. Ainda há baldes e canecas em casas, restaurantes, escolas, postos de saúde – que estocavam água para beber, cozinhar, lavar roupas e louças, tomar banho. “A maioria das crianças da cidade sofre de diarréias infecciosas, parasitoses intestinais e problemas dermatológicos”, relata o médico Guillermo Angulo Arevalo, clínico geral que trabalha na região de Loreto há 12 anos e atualmente presta atendimento no Centro de Saúde Morona Cocha, em uma das áreas mais ricas de Iquitos. O Centro conta com quatro médicos e recebia uma média de 240 pacientes por dia até agosto de 2008. “Depois de três meses de fornecimento regular de água tratada, notamos uma redução de 20% a 30% na procura por tratamento”, informa o médico.

Guillermo Angulo se refere a uma novidade recente: toda a cidade conta com água tratada, resultado da implantação do Projeto de Ampliação e Melhoramento do Sistema de Água Potável de Iquitos. A iniciativa é da empresa pública de saneamento Sedaloreto com participação da Municipalidade de Iquitos, do Governo Provincial de Maynas, dos ministérios de Economia e Finanças e de Habitação, Construção e Saneamento (no âmbito do programa nacional Água para Todos), com financiamento do Japan Bank for International Cooperation (JBIC).

A Odebrecht Perú venceu licitação internacional e entrou em ação em dezembro de 2006. Instalou novas bombas de captação de água na confluência dos rios Itaya e Nanay (com capacidade para captar 1.600 l/s), subestações de energia e linhas de transmissão para que os equipamentos funcionem a contento, uma estação de tratamento com máquinas e sistemas de filtragem de última geração, quatro reservatórios com 2 mil m3 de capacidade cada um e mais dois com capacidade de armazenamento de 1.500 m3 de água cada, além da instalação de mais de 77.300 km de tubulações de adução e de redes domiciliares. “Testes realizados em laboratórios especializados demonstraram que a Estação de Tratamento de Água de Iquitos, a mais moderna do Peru, distribui água mais limpa e de melhor qualidade do que a de Lima”, relata Marco Túlio Alva Obeso, engenheiro da Odebrecht Perú encarregado da desmobilização da obra, finalizada em setembro de 2008.

“Este é o primeiro passo de um amplo programa. Hoje toda a população de Iquitos tem acesso a água tratada. A seguir cuidaremos de implantar instalações de saneamento, em uma iniciativa mista, pública e privada. Dessa forma, estaremos avançando na solução de um grave problema social, contribuindo para o melhoramento da qualidade de vida da população e para o crescimento econômico, estimulando o investimento empresarial e criando oportunidades de trabalho”, afirma Salomón Abenzur Tafur Díaz, Alcalde (Prefeito) Provincial de Maynas. “Gostaríamos de seguir contando com a contribuição da Odebrecht, empresa que soube enfrentar os problemas logísticos e de comunicação de nossa terra com profissionalismo, cumprir as metas definidas no contrato com eficiência e qualidade, além de promover bom relacionamento com a população local e implantar programas sociais sustentáveis exemplares em nossa região.”

Sustentabilidade
Neste capítulo, que diz respeito a ações de cunho social, há boas histórias. Além de capacitar trabalhadores para o serviço na obra, e de oferecer treinamento e transferir tecnologia para que o pessoal da Sedaloreto possa operar as novas instalações, a Odebrecht Perú apoiou e impulsionou três projetos com potencial para se tornarem auto-sustentáveis e promoverem melhorias em áreas sensíveis. “Nosso objetivo é garantir que, quando a empresa deixe a região, os programas sejam mantidos e se multipliquem, para que beneficiem um número crescente de pessoas”, explica Alejandro Huaman Hidalgo, Responsável Administrativo-Financeiro do projeto de águas de Iquitos da Odebrecht Perú.

Em Iquitos há muitas crianças que, embora freqüentem a escola, apresentam baixo aproveitamento e, como suas mães trabalham, ficam sem assistência e cuidados quando estão fora das salas de aula. Existe uma instituição que assiste crianças, com idades entre 7 e 16 anos – e tem professores que oferecem reforço escolar e médico que avalia problemas e necessidades na área da saúde. Cozinheiras preparam refeições diárias. É a Casa Estancia Divino Niño Jesús, que vinha sendo financiada pela Municipalidade Provincial de Maynas até que a Odebrecht construísse, num terreno ao lado, uma lavanderia – o primeiro negócio do tipo em Iquitos. O programa LavaRápido equipou o prédio com máquinas de lavar e secadoras doadas pela municipalidade, emprega mães da comunidade que recebem salário, e gera recursos para sustentar a Casa Estancia.

“Nunca havíamos visto máquinas de lavar e secadoras. Agora, além de aprendermos um ofício e ganharmos por nosso trabalho, ainda ajudamos a melhorar a perspectiva de futuro de nossas crianças”, diz Mery Esther Macahuachi Renajifo, de 44 anos, que todos os dias bate ponto no LavaRápido. “Desejamos que este negócio cresça e possa se multiplicar em outras regiões”, acrescenta.

Um outro projeto, idealizado numa parceria entre Sedaloreto e Odebrecht, conscientiza estudantes de primeiro grau acerca da necessidade de preservação do meio ambiente. O Sentinelas da Água seleciona crianças para, no horário do recreio, cuidarem do fechamento das torneiras depois de usadas e do depósito do lixo em recipientes apropriados e conversarem com os colegas sobre a importância da água e da manutenção da limpeza. Maykil Aimar del Aguilla Chasnamote, de 7 anos, Alexandra Gabriela Cárdenas y Suisa, também de 7 anos, e Marco Raúl Guerra Padilla, 8 anos, são sentinelas na Instituição Pública Primária de Menores Amánda Péres de Gómes, e levam muito a sério suas tarefas. “Às vezes tenho de ser bravo, falar sério para que meus colegas não desperdicem água”, diz Marco Raúl. Segundo a professora Lucy Manuela Noriega Macedo, desde que o programa foi implantado na escola, em 2007, houve grande mudança no comportamento dos alunos. “Todos estão mais responsáveis”, diz. O mesmo vem se verificando nas 50 escolas em que o projeto está implantado.

Infográfico



Há ainda um programa voltado a jovens em situação de risco com idades entre 15 e 29 anos, denominado Jovens Chamba (chamba é uma gíria peruana que significa “trabalhadores”). Oferece cursos de capacitação profissional em panificação, processamento de frutas e hortaliças e carpintaria, apoio para a organização de pequenas empresas e associações, além de consultoria para a definição de mercados de venda dos produtos e para a administração dos negócios. O programa vem sendo desenvolvido nas províncias de Maynas, Yurimaguas, Contamana, Requena e Caballococha. Em Iquitos, apenas no projeto de carpintaria, 80 rapazes e moças aprendem a entalhar madeira num galpão cedido pelo Governo Provincial de Maynas. Ali, o professor Demetrio Díaz Souza dá sua contribuição. Ele aprendeu o ofício em Lima quando ainda era menino, foi jornalista por 40 anos, e hoje, aos 73 anos, diz estar realizando um sonho antigo: ensinar não apenas a arte do entalhe em madeira, mas também como fabricar as ferramentas e as máquinas com que trabalham. “Não desperdiçamos nada. No mundo moderno é preciso saber fazer produtos bons, bonitos e baratos. Aqueles que desejam, aprendem com facilidade e rapidez, e percebem com satisfação que podem ser não apenas trabalhadores, mas empresários”, afirma o professor.

Economia peruana em crescimento



O projeto foi inaugurado oficialmente em 12 de setembro de 2008 com a presença do Ministro de Habitação, Construção e Saneamento do Peru, Enrique Cornejo, e de autoridades regionais. Guillermo Vega, Diretor de Contrato de Iquitos, afirma: “Este projeto nos deu muita satisfação. Primeiro, por ser uma obra que traz benefício real e básico para a população; segundo, por ter permitido o desenvolvimento de programas sociais auto-sustentáveis, que se mostraram tão necessários e eficazes que prosseguem depois da conclusão da obra; e terceiro, porque conseguimos antecipar em 49 dias a entrada em operação da planta, satisfazendo o cliente e proporcionando maior bem-estar à comunidade”.