Uma nova percepção
Estudantes da região de Rio Grande passam a conhecer melhor seu contexto de vida e a se relacionar de uma nova forma com o lugar onde moram
Texto: Milton Gérson
Fotos: Eduardo Belesque
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Participante do Projeto Para Muito Além do Mar... no Porto de Rio Grande: ampliação dos horizontes com a compreensão da vida à sua volta
As crianças e os adolescentes que participam do Projeto Para Muito Além do Mar..., cerca de 5 mil, vivem em comunidades carentes das cidades de Rio Grande, São José do Norte e Capão do Leão, na região sul do Rio Grande do Sul. Sem acesso a informação, até mesmo sobre o próprio local onde moram, ainda há pouco tempo desconheciam a importância da região, na qual se destaca o porto, que concentra as principais atividades econômicas dessas cidades. Agora, os estudantes estão descobrindo um mundo que – ironicamente – sempre foi seu.
Isso está se dando a partir de uma iniciativa do consórcio responsável pelas obras de prolongamento dos molhes do Porto de Rio Grande, que promove saídas de campo exploratórias, como são chamadas as visitas dos jovens à área do porto, da construção dos molhes e dos ecossistemas locais. “Muitos dos nossos alunos nunca tinham andado nas vagonetas”, relata, emocionado, o professor Antônio Athanásio Ramos, o Tonico, como é carinhosamente chamado pelos alunos o Diretor da Escola Estadual de Ensino Fundamental Marques de Souza, de São José do Norte. As vagonetas constituem o meio de transporte utilizado para se percorrer, sobre trilhos, toda a extensão dos molhes. É um símbolo do Porto do Rio Grande.
As declarações de Tonico vêm acompanhadas de lágrimas sinceras. Ele dirige a escola há nove anos e enfatiza a mudança positiva no comportamento dos alunos, além da repercussão do projeto na comunidade escolar. “Um exemplo é a situação física da escola. Há menos de dois anos as paredes eram riscadas, o chão estava sempre sujo e o comportamento dos alunos era questionável. Hoje essa realidade mudou”, avalia o diretor. Segundo ele, a mudança é fruto da prática dos conceitos de ética, cidadania e valorização ambiental. “Quando os alunos passam a conhecer melhor o meio em que vivem, começam a ter mais respeito por tudo”, argumenta.
Patrimônio natural
A pedagoga Denise Alves, integrante do Consórcio Odebrecht (CBPO Engenharia), Pedrasul, Carioca e Ivaí, foi a idealizadora e é a coordenadora do projeto Para Muito Além do Mar..., voltado para a educação ambiental, que está sendo implementado durante as obras de prolongamento dos molhes da barra do Porto do Rio Grande, na desembocadura da Lagoa dos Patos no Oceano Atlântico. A região concentra um patrimônio natural formado por praias arenosas oceânicas, restingas, espécies de aves residentes e migratórias, e mamíferos marinhos (leões, lobos e botos).
Desde março de 2007, quando o Para Muito Além do Mar... foi iniciado, sete escolas dos três municípios nos quais há interferência direta da obra tomam parte dele. Mais de 5 mil crianças e adolescentes, com idade entre 5 e 17 anos, já participaram das atividades promovidas. “É uma nova proposta pedagógica interdisciplinar, que busca plantar sementes de maneira criteriosa, para que germinem e se multipliquem com naturalidade e eficácia”, diz Denise Alves. Ela acrescenta: “Buscamos promover o desenvolvimento sustentável a partir da reflexão, fazendo da educação a sua base. Acreditamos no ser humano e na sua transformação a partir do pensar”.
Segundo a coordenadora, o desafio para a continuidade e a ampliação do projeto estão sendo lançados este ano. Com a proximidade do fim da obra, previsto para 2009, o Para Muito Além do Mar... deixará de contar com a estrutura e a logística hoje oferecidas pelo consórcio e será preciso buscar novos caminhos. “Nossa meta, a partir de agora, é tornar o projeto auto-sustentável. Para isso, vamos buscar novos parceiros institucionais, a fim de que a iniciativa perdure e possa atender mais escolas da região”, informa Denise.
Rumo à auto-sustentabilidade
A rede municipal de ensino de São José do Norte está dando o primeiro passo na direção da auto-sustentabilidade. A Secretária de Educação do município, professora Izabel Cristina Gonçalves Chaves, foi Diretora da Escola Soares de Paiva, a primeira da cidade a integrar o projeto, em 2007. Izabel já toma como desafio levá-lo para outras escolas, em especial as do interior, onde mora a comunidade pesqueira. “Vamos dar total apoio para que o Para Muito Além do Mar... seja ampliado, com a inclusão da educação ambiental nos projetos político-pedagógicos das escolas”, diz a secretária.
Entre os parceiros que aderiram à iniciativa está o diretor do complexo de museus e centros associados da cidade, o oceanógrafo Lauro Barcellos. Ele tem cedido alguns desses espaços para atividades que possibilitam o acesso de crianças e adolescentes às instituições.
Às vésperas de inaugurar um novo espaço de educação para jovens entre 14 e 19 anos – o Centro de Convivência Meninos do Mar, localizado às margens do canal por onde a Lagoa dos Patos desemboca no oceano –, Barcellos acredita que a semente plantada com o Para Muito Além do Mar... poderá render novos frutos. Um dos caminhos para isso são os cursos de 240 horas com foco em temas náuticos e de preservação do ecossistema local. A expectativa é de que os alunos tragam a experiência anterior como base para novas aprendizagens.
“Não adianta provermos o indivíduo de conhecimentos teóricos se ele não perceber de que forma isso poderá lhe servir para que se torne um agente de transformação”, defende Lauro Barcellos. “Procuramos tirar as crianças e os jovens da passividade, ensinando-lhes a ter iniciativa e a se envolver em determinadas situações”, ressalta.
Auto-estima e valores locais
A Secretária Izabel Chaves compartilha do pensamento de Barcellos. “A questão do pertencimento deve ser bem elaborada com as crianças e os adolescentes. Só cuidamos do que amamos e só amamos o que conhecemos. Por isso, primeiramente eles precisam se conhecer, depois conhecer seu contexto, sua família, a escola, e só então poderão partir para a rua, para a cidade, resgatando a auto-estima e valorizando o lugar onde vivem como único e singular”, argumenta Izabel Chaves.
A Escola Ramiz Galvão, localizada na Vila da Mangueira, uma das áreas mais pobres de Rio Grande, próxima ao canteiro de obras do consórcio, também participa do Para Muito Além do Mar... A Vice-Diretora Cristiane Jaeger de Lima faz um balanço: “As oportunidades que essas crianças estão tendo de conhecer um mundo até então inalcançável para elas, por meio de saídas de campo exploratórias, palestras, projeto de leitura e oficinas de poesia, tem feito diferença em suas vidas”.
Com oito professores e 134 alunos diretamente envolvidos no projeto, Cristiane destaca, juntamente com a Diretora Tanise Reis, os progressos obtidos para a comunidade. “As crianças passaram a ter gosto pelas coisas, respeito pela natureza e desejo permanente de aprendizado”, diz Tanise.
Comprometimento dos educadores
A formação continuada dos educadores tem permitido a constante adequação da proposta do Para Muito Além do Mar... à realidade de cada comunidade. Aos poucos, elas conseguiram vencer os bloqueios impostos por anos de prática de um ensino tradicional. “Resistências ocorrem, sobretudo quando deslocamos os sujeitos de seu lugar seguro. No entanto, sem esse desalojar, dificilmente conseguiríamos transpor as práticas centradas no professor, as quais preconizam que cabe aos educandos somente ouvir, memorizar e reproduzir as informações transmitidas”, analisa Carmem Pinto, contratada para executar a etapa de formação dos educadores. Participam de palestras, encontros semanais e fazem, a exemplo dos educandos, saídas de campo exploratórias, conhecendo a fundo o que será proporcionado aos estudantes. “Essa é uma forma de fazer com que os educadores estejam completamente integrados à nossa proposta pedagógica”, salienta Denise Alves.
É na motivação, na ousadia, no ludismo e no envolvimento emocional com a idéia que apostam as professoras Vera Mayorca e Nayra dos Reis, contratadas para executar o Projeto de Leitura nas escolas, com educandos e educadores. “Tentamos atualizar conteúdos e demonstrar como a avaliação interdisciplinar pode trazer benefícios aos alunos”, informa Vera.
A mensagem chega às famílias
Com dois filhos na 4ª e na 2ª séries do Ensino Fundamental da Escola Ramiz Galvão, na Vila da Mangueira, Marisa Ramos Rosca, 33 anos, se mostra radiante frente aos progressos obtidos pelos filhos após integrarem o projeto. “O avô delas esses dias chegou a perguntar o que tinha ocorrido, pois pareciam outras crianças. Houve mudança no comportamento delas”, diz a mãe, com orgulho.
Com oportunidades que a filha mais velha, Tainá de 15 anos, não teve, os filhos menores de Marisa – Crislaine, de 10 anos, e Thaysson, de 7 – demonstram na prática como o projeto está promovendo mudanças de conceitos e criando agentes de transformação na família e na comunidade. “Quando foram aos molhes e chegaram contando o que viram, que andaram nas vagonetas, pensei comigo: ‘e eu, que com 33 anos nem sabia que isso existia’”, conta Marisa. A filha do meio, que participa da iniciativa desde o início, passou a ter atitudes diferentes. “Ela começou a ser mais cuidadosa com a natureza, a ter preocupação com a separação do lixo para a reciclagem. Parece que ela se achou.”
Leões-marinhos nos tetrápodes utilizados na construção dos molhes: patrimônio naturalBiologia marinha ao alcance das mãos
Atitudes simples como colher uma concha na praia, andar nas vagonetas sobre os molhes, visitar os museus temáticos existentes na região de Rio Grande ou mesmo assistir a palestras com atenção demonstram o vivo interesse das crianças e dos adolescentes participantes do projeto Para Muito Além do Mar... pela biologia marinha e pela preservação ambiental. Quem afirma isso é o biólogo Dimas Gianoukas, um dos colaboradores do projeto.
Dimas diz que o objetivo de sua participação é fazer despertar a curiosidade dos educandos para assuntos como a diversidade de espécies de aves em seu viveiro natural: as marismas (mangues de água salgada localizados junto à foz da Lagoa dos Patos, em seu encontro com o mar). “Também falo aos estudantes sobre a história local, sua riqueza natural e sobre como é importante a participação deles para que isso seja preservado”, arremata o biólogo.
Escolas que participam do projeto
• Escola Municipal de Ensino Fundamental Coronel Antônio Soares de Paiva – São José do Norte.
• Escola Estadual de Ensino Fundamental Marques de Souza – São José do Norte.
• Escola Municipal de Ensino Fundamental Ramiz Galvão – Rio Grande.
• Escola Estadual de Ensino Fundamental Faria Santos – Capão do Leão.
• Escola Municipal de Ensino Fundamental João de Deus Collares – São José do Norte.
• Escola Municipal de Ensino Fundamental França Pinto – Rio Grande.
• Escola Municipal de Ensino Fundamental Monteiro Lobato – São José do Norte.


