A arte de preservar a identidade
Iniciativas como o Programa de Edições Culturais, criado em 1959, e o Prêmio Clarival do Prado Valladares, instituído em 2003, contribuem para a valorização do patrimônio artístico e histórico das comunidades nas quais as empresas da Organização Odebrecht estão presentes
Texto: Rogério Menezes
Fotos: Patrícia Carmo
Fotos
Sítio arqueológico na região de Lençóis, na Bahia: gravuras rupestres catalogadas
Serra das Paridas, Lençóis, 2 de agosto de 2008
Tarde de inverno quente na Chapada Diamantina, interior da Bahia. No volante do jipe Land Rover alongado, pintado com gravuras de temática rupestre, o engenheiro agrônomo e estatístico aposentado Ildenor Oliveira Borges, ou Borges, como é conhecido, dirige com cuidado pela estrada de terra batida que leva ao sítio arqueológico Serra das Paridas, localizado nos 2.300 hectares de terra de que é dono. Olha com ternura para os milhares de pés de mangabas ao redor, e exclama: “Não fossem essas plantinhas talvez não tivéssemos descoberto este tesouro arqueológico. Um casal de amigos, Evangivaldo e Noesi Matos, catava essas frutinhas, logo após a seca que devastou esta área em 2005, quando deparou com desconhecidas gravuras desenhadas nas pedras e nas rochas. Não fosse a seca teríamos demorado mais tempo para descobri-las. Ou seja, há males que vêm para o bem”.
Esse bem a que Ildenor Oliveira Borges se refere é um dos seis sítios arqueológicos em efervescência cultural e social no interior da Bahia, graças à ação iniciada em janeiro de 2008 pelo grupo de trabalho liderado por Carlos Etchevarne, arqueólogo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Vencedor do Prêmio Clarival do Prado Valladares em 2006, Etchevarne sistematizou e registrou as preciosas gravuras rupestres dessas áreas e as publicou no livro Escrito na Pedra: Cor, Forma e Movimentos nos Grafismos Rupestres da Bahia.
Ildenor Borges que, em 2005, dava início ao seu processo de aposentadoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), soube da descoberta do sítio arqueológico pelo casal de amigos, e se apressou em comprar as terras: “Estava tudo abandonado, ermo. Se não fizéssemos algo com urgência, este patrimônio poderia se perder”. Assim que se apossou das terras, tomou as primeiras providências para melhorar as condições de acesso e de preservação do local: abriu estradas, construiu uma casa de pedra, na qual tentou mimetizar a formação rochosa ao redor, e, aceitando sugestão de amigo comum, procurou Carlos Etchevarne: “Levei fotografias sobre o material arqueológico que havia descoberto. Ele se interessou muito. Veio até aqui e ficou absolutamente encantado”.
Esse encantamento não foi apenas do experiente Carlos Etchevarne (argentino que vive na Bahia há 24 anos). Aos poucos, os moradores da região também passaram a se orgulhar do tesouro arqueológico recém-descoberto. Em Lençóis, cidade que fica a 410 km de Salvador, a adesão da comunidade se deu a partir da parceria que os arqueólogos (além de Carlos Etchevarne, Alvandyr Bezerra, Carlos Costa, Mirta Barbosa, Fabiana Comerlato, Anderson Silveira e Julio Melo de Oliveira, morto em fevereiro em acidente de carro na região da Chapada Diamantina) estabeleceram com funcionários da Prefeitura, guias turísticos, professores e agentes sindicais: “Pensávamos em envolver, no máximo, 30 pessoas. Mas apareceu bem mais gente e todos foram absorvidos”, diz Etchevarne. (Prova evidente dessa adesão: em plena manhã de sábado, depois de rápida convocação, cerca de dez pessoas compareceram ao pequeno escritório do projeto localizado na praça central de Lençóis para falar à reportagem de Odebrecht Informa do entusiasmo que sentem diante dessa recente descoberta arqueológica e do trabalho que realizam no local.)
O projeto, ora em curso na Serra das Paridas, em Lençóis, é um desdobramento direto da pesquisa e edição do livro Escrito na Pedra, conforme lembra o arqueólogo Alvandyr Bezerra: “Durante as atividades de campo para registro de sítios rupestres, realizamos seminários de arqueologia e educação patrimonial em algumas regiões da Bahia, entre as quais a da Serra das Paridas”. Hoje, o programa educacional tem o apoio da Petrobras Cultural.
Samuel Alves dos Santos, ex-guia turístico, professor do ensino fundamental, um dos primeiros a se interessar pelo curso de imersão em arqueologia que o projeto realizou na região, declara: “Já levei diversos grupos de alunos, entre 12 e 14 anos, para conhecer o local. Eles ficaram fascinados. Sempre que posso, levo a minha mulher Ana Maria e as minhas filhas Samana e Sandy Adila, e elas sempre pedem para voltar lá”.
A novidade também arrebatou o pequeno lavrador Railton Andrade Nascimento que, por sua famosa elo-qüência, é também conhecido como “Radinho de Pilha” ou, com o rápido avanço da tecnologia, “MP3”. Há um ano e meio, mora na casa de pedra que Ildenor Borges construiu perto das rochas com gravuras rupestres. É uma espécie de guardador fiel do sítio arqueológico que se espalha ao redor. Sempre equipado de telefone celular pré-pago, não troca essa vida solitária por nada: “Chova ou faça sol, eu e Deus cuidamos deste tesouro. Quanto a Deus, não sei. Mas quanto a mim, sei que tenho muito orgulho de realizar esta missão”.
O orgulho também enche o peito de Ildenor Borges, que se gaba de ter um dos maiores sítios arqueológicos da Bahia no “quintal”: “É por meio dessa contribuição que estou dando ao estudo da arqueologia brasileira que o meu nome poderá ser lembrado um dia”. E pergunta: “Há algo mais importante do que o que se faz em defesa da natureza e da cultura?” Ele não responde. Não precisa responder. Podia-se ler claramente nos seus olhos a resposta: “Não. Não há”.
São Paulo, 11 de setembro de 2008
A historiadora pernambucana Maria Lêda Oliveira, vencedora em 2007 da quarta edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares com o projeto História e Política na Bahia de Seiscentos – A História do Brazil de Frei Vicente do Salvador, vive dias agitados entre Lisboa e São Paulo. Reúne-se com a equipe coordenadora do prêmio, designers e editores para ultimar os preparativos do livro, em dois volumes, lançado em Salvador no dia 27 de novembro. O primeiro aborda a vida do historiador, a historiografia do período Barroco, o sentido político da obra e a sua repercussão junto a outros autores. O segundo volume reproduz a Historia do Brazil de Frei Vicente do Salvador, escrita entre 1626 e 1630 e considerada unanimemente marco fundamental da historiografia brasileira.
Morando desde 1997 em Portugal, onde se doutorou em História e Teoria das Idéias pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em cujo Centro de História da Cultura é pesquisadora, Maria Lêda Oliveira conta, entusiasmada: “Esses livros resultam de 11 anos de pesquisas realizadas em bibliotecas, arquivos e museus do Brasil, França, Espanha, Itália, Portugal, Estados Unidos e Holanda”. Completamente envolvida com o projeto, a historiadora destaca sua importância: “Possivelmente a minha maior descoberta foi constatar o quanto a obra de Frei Vicente do Salvador foi conhecida e usada por letrados portugueses, não só por aqueles que escreveram crônicas, mas também por homens ligados à vida política do Império”.
O Prêmio Clarival do Prado Valladares, criado pela Odebrecht em 2003, homenageia o médico patologista que se tornou um dos maiores historiadores da arte brasileira no século passado. Objetivo básico: incentivar a pesquisa histórica e a produção editorial que representem efetiva contribuição para a historiografia brasileira. As premiações resultaram na publicação de preciosidades como 50 Anos de Urbanização: Salvador da Bahia no Século XIX, de autoria da professora de História da UFBA, Consuelo Novais Sampaio, publicado em 2004; A Talha Neoclássica na Bahia, do professor Luiz Alberto Freire, da Escola de Belas Artes da Bahia, editado em 2006; e Escrito na Pedra: Cor, Forma e Movimento nos Grafismos Rupestres da Bahia, de Carlos Etchevarne, publicado em 2007.
A professora da UFBA Consuelo Novais Sampaio, com pós-doutorado na California University e atual Diretora do Centro de Memória da Bahia, observa: “O prêmio mantém a tradição da Odebrecht de contribuir para o conhecimento profundo dos lugares onde atua”.
Os demais autores também dão seu testemunho. Etchevarne declara: “Essa premiação nos permitiu pesquisar a arte rupestre encontrada em sítios arqueológicos da Bahia, registrá-la em livro e promover um trabalho de educação arqueológica em cidades da região da Chapada Diamantina”. Luiz Alberto Freire, Doutor em História da Arte pela Universidade do Porto, em Portugal, e Vice-diretor da Escola de Belas Artes da UFBA, arremata: “É prêmio absolutamente singular no Brasil, país com pouca tradição em iniciativas desse tipo. Permite que o pesquisador se aprofunde nas pesquisas, crie equipe de profissionais que possam apoiá-lo e, por fim, faz com que o resultado se transforme em livro que é publicado com o mais absoluto esmero”.
Maria Lêda Oliveira é enfática: “Essa premiação permite que o Brasil passe a dispor de edição que honra o nosso primeiro historiador e a nossa primeira Historia do Brazil. São dois volumes que dignificam a nossa história”.
Mosteiro de São Bento, Salvador, 5 de agosto de 2008
No burburinho frenético da Avenida Sete, no centro de Salvador, o Mosteiro de São Bento é bem-vindo oásis. É nesse lugar, a contemplar a belíssima abóbada que se eleva sobre a nave central da igreja, que encontramos Dom Gregório Paixão, antigo prior do Mosteiro de São Bento e atual Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia. Sempre pleno de entusiasmo contagiante, não busca esconder a emoção pelo dever “quase” cumprido – em cerca de 10 anos, a maior parte do projeto de restauração do mosteiro, do qual foi um dos mentores, está completamente implementado. Mas ainda não se dá por satisfeito: “No momento, estamos captando recursos para inaugurarmos em 2009 o Museu do Livro Raro, que terá a segunda maior coleção desse tipo de livros do Brasil e guardará documentos importantes como o testamento de Catarina Paraguassu e papéis sobre a Guerra de Canudos”. O Mosteiro de São Bento da Bahia é – não se pode duvidar – impactante obra em pleno progresso.
Entre as preciosidades que o projeto de restauração do Mosteiro, fundado em 1582, trouxe para a vida cultural da Bahia, e do Brasil, está o Museu São Bento, outro motivo de júbilo para Dom Gregório e para toda a comunidade beneditina da Bahia. Funcionando de segunda a sexta-feira, dispõe de acervo composto por mais de 2 mil peças, entre quadros, porcelanas, cristais, ourivesaria, mobiliário e paramentos religiosos.
Um dos grandes destaques do acervo é o Memorial Diógenes Rebouças, que expõe dezenas de telas pintadas pelo arquiteto baiano (1914-1995). Nelas, encontra-se retrato poético das ruas, casas e paisagens de Salvador no século XIX. São obras que permitem resgatar a atmosfera e as nuances que o progresso apagou e que os quadros revivem de maneira tocante. Esse tesouro histórico que, anteriormente, só podia ser conhecido pelos leitores das três edições do livro Salvador da Bahia de Todos os Santos no Século XIX, lançado em 1985 com patrocínio da Odebrecht, pode ser visitado e admirado por todos.
O enlevo e a nostalgia provocados pelas pinturas de Diógenes Rebouças são interrompidos pelo dobrar cadenciado dos sinos do Mosteiro. Dom Gregório Paixão comenta: “Algum monge está sendo chamado. É esse o sistema que utilizamos quando queremos convocar um dos nossos”. Ele conhece cada procedimento e cada detalhe do mosteiro. Nascido em Aracaju em 1964, passou cerca de 25 anos sob o teto deste marco da cultura religiosa da Bahia. Não foi à toa que exatamente na época do seu priorado começaram as obras de reforma dos prédios edificados ao longo de muitos séculos e que, até meados dos anos 1990, apresentavam visíveis sinais de deterioração. A idéia de recuperação partiu do então abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio, que realizou trabalho social notável à frente da instituição. Dom Gregório, que se tornou, logo à primeira hora, fiel guardião e grande entusiasta do projeto de reforma, reconhece: “Em 1994, Dom Timóteo foi ponte fundamental para se chegar até Norberto Odebrecht, que sempre teve laços muito profundos com a nossa ordem religiosa”.
No começo, pretendia-se apenas reformar o teto da igreja e abrir um estacionamento cuja renda amenizasse os problemas financeiros imediatos da ordem beneditina. Mas, segundo Dom Gregório Paixão, “Dr. Norberto, consultado a respeito do que a Organização Odebrecht poderia fazer, declarou: ‘Não sou homem apenas para restaurar telhado e construir estacionamento. Nós temos que empreender grande reforma no mosteiro’”.
Dito e feito. Encomendou-se imediatamente projeto de reforma e de restauração dos prédios. Dom Gregório Paixão, que acompanhou passo a passo todo o trabalho, revela: “Em seguida, Dr. Norberto convidou o então governador Antonio Carlos Magalhães a visitar o Mosteiro. Queria que ele flagrasse as condições de deterioração de nossas instalações. Ao mesmo tempo, nos sugeriu que expuséssemos todos os nossos tesouros sacros e religiosos, para que o governador pudesse se dar conta da importância de restaurar lugar tão fundamental para a cultura religiosa brasileira”.
A ação sensibilizou o Governo da Bahia que, logo em seguida, comunicou ao então abade Dom Paulo Costa a liberação em pouco tempo dos recursos necessários para o início das obras de restauração e reforma. Treze anos depois, Dom Gregório é peremptório quanto à avaliação dessa parceria em torno das obras de reforma: “Tudo deu certo. Tudo aquilo que imaginamos se concretizou. Confiamos plenamente no parceiro Odebrecht e temos certeza de que ele também confiou plenamente no Mosteiro de São Bento”.
Dom Gregório explica o segredo do sucesso: “A Odebrecht soube, humildemente, aprender com a tradição milenar da ordem beneditina e, ao mesmo tempo, generosamente, nos transmitir todo o conhecimento adquirido em mais de 50 anos de atuação em engenharia e administração”.
Ao longo dos 10 anos em que foi feita a reforma, cerca de 200 pessoas, entre monges, operários, engenheiros e administradores se envolveram no projeto. Dom Gregório Paixão, que antes de entrar para a carreira religiosa estudou Direito e Administração durante um ano em Aracaju, acabou se firmando como o administrador da obra de reforma: “Essa parceria com a Odebrecht me propiciou um mestrado e um doutorado práticos em administração”. E não só ele: “Hoje os monges fazem excelente trabalho administrativo à frente de nossa ordem, o que nos torna completamente auto-sustentáveis. Todo esse aprendizado, todo esse know-how não existiria se não fizéssemos esse trabalho de parceria com a Odebrecht”.
A parceria permitiu ao secular Mosteiro de São Bento transformar-se em, digamos, uma usina sociocultural de importância fundamental na vida baiana do início do século XXI. Além do tradicionalíssimo Colégio São Bento (fundado em 1905), foi criada em 2002 a Faculdade São Bento da Bahia, que oferece cursos de graduação e pós-graduação em Teologia, Filosofia, História e Letras.
Tudo isso faz com que o entusiasmo de Dom Gregório Paixão pelo Mosteiro de São Bento da Bahia se renove a cada dia. Ele vibra, e celebra: “Conseguimos transformar esse velho e querido mosteiro num monumento vivo e vibrante da história da Bahia”.
Parte dessa vida e dessa vibração a que dom Gregório Paixão se refere pode ser comprovada todos os domingos quando, após a missa das 10 horas na Igreja do Mosteiro de São Bento, se realizam concertos de canto gregoriano com a presença maciça de devotos, amantes da boa música e turistas que visitam Salvador. Eles assistem a apresentações de peças clássicas de Mozart e Bach, entre outros, interpretadas pelo Coral dos Monges do Mosteiro, que tem 40 integrantes, e pelo professor e organista do Instituto de Música da UFBA Flávio Queiroz.
No centro dessas apresentações pode ser apreciado o órgão Prestige 100, importado da Itália, totalmente computadorizado, com três teclados e 30 registros, que possibilitam diversos efeitos sonoros. O instrumento foi doado ao Mosteiro de São Bento pela Braskem, no fim de 2007. Dom Gregório Paixão, exímio organista que é, atesta, com convicção: “É um privilégio podermos contar com instrumento musical dessa qualidade, único em toda a Bahia”.
Santa Casa de Misericórdia, Salvador, 1º de agosto de 2008
São 18 horas de sexta-feira. A Rua da Misericórdia fervilha. Turistas fotografam. Baianas vestidas a caráter vendem fitinhas do Senhor do Bonfim. As pessoas voltam para casa depois de mais uma semana de trabalho. Do alto da varanda frontal do prédio da Santa Casa de Misericórdia, o engenheiro e provedor da instituição, Álvaro Lemos, contempla o que vê na rua: os prédios em frente completamente restaurados, e outros, mais adiante, em avançado processo de restauro. Ao lado, o Gabinete da Provedoria totalmente renovado. Ele dá um suspiro de satisfação e murmura: “Você não sabe como fico satisfeito ao ver tudo isso hoje, e ao relembrar como estava há pouco mais de 10 anos. Antes estava tudo deteriorado. Realizamos um belíssimo trabalho”.
O provedor tem dupla razão. De fato, realizou-se belíssimo trabalho de recuperação e restauração na Santa Casa de Misericórdia da Bahia, fundada em 1549, imediatamente após a chegada do Governador Geral Tomé de Sousa. De fato, também usou adequadamente a concordância verbal “realizamos”. O pontapé inicial do projeto de Recuperação Arquitetônica e Restauração Artística do Acervo da Santa Casa de Misericórdia foi dado pela Odebrecht – “por meio de dois de nossos interlocutores na Organização, Victor Gradin e Gilberto Sá” –, revela o provedor, e a operação que captou investimentos de 20 milhões de reais e que durou mais de 10 anos, resultou de várias parcerias: governos federal, estadual e municipal; Aliança do Brasil; BNDES; Bradesco; Braskem; Eletrobrás; Grupo Gerdau; Johnson & Johnson; Petrobrás; Telemar e White Martins. Todos ecumenicamente reunidos sob o que viria a se chamar Portal da Misericórdia.
Esse esforço coletivo buscou atender a uma causa justa. Afinal de contas, como lembra a museóloga Jane Palma, hoje coordenadora do Museu da Misericórdia, eram terríveis as condições do rico acervo que a instituição possuía “mas não valorizava e que agora valoriza”.
O processo de deterioração – que atingiu o forro do Salão Nobre, composto de 15 gravuras de notável valor histórico e artístico, completamente devastado, ameaçava esse que é um dos mais imponentes prédios históricos de Salvador (construído entre 1654 e 1697) e um acervo de cerca de 1.800 peças, que inclui uma das maiores coleções de retratos do país. Nela destacam-se telas pintadas por José Joaquim da Rocha (século XVIII) e José Álvares Correa (século XVII).
Mas nada que a ação orquestrada entre várias parcerias não pudesse resolver. Sob a coordenação do Instituto de Hospitalidade, entre 1999 e 2003 realizaram-se as grandes obras de recuperação dos prédios. O restaurador argentino Domingos Tellechea, uma das maiores autoridades mundiais no assunto, foi convocado, e assumiu diligentemente o controle da restauração do acervo.
Em 2008, a obra ainda está em franco progresso. A Igreja foi reaberta em 14 de agosto. A loggia (varanda), monumental, de onde se descortina vista espetacular da Baía de Todos os Santos, com a escadaria em mármore totalmente restaurada, já está aberta à visitação pública. O Museu, que abre até nos fins de semana, tornou-se um dos mais visitados da cidade. O quarteirão de casas exatamente em frente à Santa Casa de Misericórdia está sendo ocupado pelo Senac, que promoverá a partir deste ano cursos na área de hotelaria.
Diálogos com a comunidade
Edições culturais: programa iniciado em 1959 contribui para o resgate cultural e a preservação
do patrimônio artístico e histórico
Em 2004, durante as comemorações dos 60 anos da Organização, Emílio Odebrecht, Presidente do Conselho de Administração da Odebrecht S.A., referindo-se ao Teatro Castro Alves, em Salvador, onde discursava, declarou: “Este é também um símbolo de nossa parceria com a cultura, consolidada no apoio à publicação de dezenas de obras de referência sobre nossa história e nossa arte e na recuperação de nosso rico patrimônio arquitetônico, dos quais são exemplos o Solar do Unhão, o Paço do Saldanha, o Solar do Gravatá, onde está a Casa de Angola, o Mosteiro de São Bento e o Portal da Misericórdia”.
Essa parceria cultural começou há quase 50 anos, em dezembro de 1959. Pedra fundamental: o lançamento de Homenagem à Bahia Antiga, de autoria do historiador de arte José Valladares. No prefácio lê-se que “O fenômeno do crescimento imobiliário é inevitável, porém, nos pareceu que uma maior divulgação daquele patrimônio poderia contribuir de alguma forma para a sua preservação. É essa a finalidade deste pequeno caderno”.
Envolvido desde o primeiro momento com o Programa de Contribuição Cultural da Organização Odebrecht, o engenheiro Renato Martins, Diretor Responsável por Apoio em Desenvolvimento de Oportunidades e Representação na Odebrecht S.A., destaca: “É importante forma de diálogo que a empresa estabelece com a comunidade na qual convive, com o país e com a área geográfica onde opera”.
No estabelecimento desse diálogo, a promoção do resgate cultural e o estímulo à preservação do patrimônio artístico e histórico das sociedades onde a empresa atua tornaram-se fundamentais – e se materializaram na edição de livros de arte e em discos documentais. Toda essa produção, mais de 200 obras publicadas desde 1959, é amplamente distribuída para bibliotecas e entidades públicas e privadas do Brasil e de outros países.
“Nosso principal propósito é oferecer as condições necessárias para que manifestações culturais que distinguem as comunidades às quais servimos sejam difundidas e perenizadas em edições feitas com rigor documental e esmero”, sintetiza Márcio Polidoro, Responsável por Comunicação Empresarial na Odebrecht S.A.
Em carta de março de 1994, dirigida a Norberto Odebrecht, Presidente de Honra da Odebrecht S.A. e Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht, o escritor Jorge Amado ressaltava a importância e a singularidade dessa produção editorial: “Essa obra deve ser ressaltada como exemplo a ser seguido – seja por outras empresas, seja pelo poder público tão desatento aos problemas da cultura”.
Destaques no Brasil e no exterior
Em quase 50 anos de contribuição cultural, a Odebrecht desenvolveu um conjunto de obras sobre o Brasil, entre as quais, Ouro Preto: Patrimônio Cultural da Humanidade – contém "Jóia Rara", poema inédito de Carlos Drummond de Andrade; Caymmi: Som, Imagem e Magia – reúne fotografias raras de família e telas pouco conhecidas do autor; Tom Jobim – edição comemorativa dos 60 anos do pai da bossa-nova, com prefácio de Dorival Caymmi e rica documentação iconográfica; Salvador da Bahia de Todos os Santos no Século XIX – apresenta reprodução das telas pintadas pelo arquiteto Diógenes Rebouças, registro pictórico inigualável da Salvador da época; O Brasil dos Viajantes – acompanha a passagem pelo Brasil, entre a época do Descobrimento e o final do século XIX, de artistas-viajantes como os holandeses Albert Eckhout e Frans Post, o francês Debret e o alemão Rugendas. Tornou-se livro de referência sobre o assunto em todo o mundo.
No exterior, foram publicados, entre outros livros, Julio César Briceño: Entre Diosas y Levitaciones, sobre um dos mais importantes pintores da Venezuela; Arequipa, registro de imagens, acervo cultural e documentos históricos da milenar cidade peruana; Angola e a Expressão de sua Cultura Material, perfil multifacetado do país a partir de peças artísticas, rituais e utilitárias das diferentes regiões angolanas; Talentos Anônimos, nas versões peruana e equatoriana, resgata histórias de vida de personagens desconhecidos do Peru e do Equador.
Em Santarém, Portugal, em parceria com a Câmara Municipal e a Fundação Banco do Brasil, a Odebrecht apoiou, por intermédio de sua subsidiária portuguesa, a Bento Pedroso Construções, o Projeto de Reforma da Casa de Cabral. Inaugurada em março de 2000, o lugar teria servido de morada, entre 1503 e 1520, para o navegante português que descobriu o Brasil.
