Moçambique

Tempos de reencontro

Odebrecht retorna a Moçambique para participar da construção da infraesrutura de uma mina de carvão para a Vale no noroeste do país

texto: Humberto Werneck
fotos: Holanda Cavalcanti

Não é de agora o interesse da Odebrecht nas oportunidades que Moçambique oferece a uma construtora com experiência internacional. Atuante em várias partes do mundo desde 1979, já em meados da década passada ela fincou bandeira nesse país da África Austral, e ali, entre 1995 e 1996, participou da recuperação da Rodovia Inchope-Machipanda. Razões estratégicas levaram-na, em seguida, à decisão de concentrar em Angola sua atuação no continente africano. Nem por isso tirou Moçambique de seu horizonte – tanto que voltou no fim de 2005, dessa vez com um desafio ainda maior: construir, para a Vale, as instalações da gigantesca mina de carvão a céu aberto que a mineradora brasileira vai explorar em Moatize, na Província de Tete, no noroeste do país, a partir do início de 2011.

Miguel Peres, Diretor-Superintendente da Odebrecht em Moçambique, há dois anos e meio instalado na capital, Maputo, descreve o desafio: “Trata-se de desenvolver um projeto saindo do zero, e num prazo apertado. Não temos no país trabalhadores treinados em quantidade suficiente para tocar uma missão desse porte e a logística para levar equipamentos e materiais até Moatize, a mais de 1.500 km de Maputo, é bastante complexa”.

Para executar essa empreitada, a Odebrecht formou com a Camargo Corrêa (com participações de 75% e 25%, respectivamente) o Consórcio Moatize, que, depois, assinou com a Vale um contrato de aliança. “Isso significa que dispomos de uma estrutura única, com profissionais das três empresas, numa conjunção de interesses mais difícil de alcançar em outros tipos de contrato de construção”, explica Miguel Peres. “Estamos aqui com o mesmo objetivo, as metas são comuns, estamos juntos com a Vale naquilo que ela quer”, reforça o Diretor de Contrato Sérgio Roberto Macedo. “Temos tido uma relação bastante produtiva e cada vez mais estável”, assegura o Diretor da Vale em Moçambique, engenheiro Galib Chaim, que destaca a experiência que as empresas do consórcio têm na África.

O objeto do contrato é a engenharia, o fornecimento e a construção das instalações da mina de Moatize, onde haverá duas grandes plantas de processamento de carvão (CPP, na sigla em inglês). “Vamos fazer a terraplenagem, abrir os acessos, preparar as áreas para as instalações industriais e construí-las, instalar as correias transportadoras, os britadores e fazer as plantas de lavagem de carvão, as oficinas, os edifícios de escritórios e os alojamentos da Vale”, enumera Miguel Peres, “de modo a deixar a mina prontinha para embarcar o minério já no primeiro trimestre de 2011.”

Essa vasta pauta, que no pico da obra, previsto para março de 2010, mobilizará perto de 4 mil trabalhadores, na verdade se desdobra em várias outras tarefas. Uma delas consistirá em reassentar 1.100 famílias até agora instaladas na área onde a Vale vai extrair carvão. O delicado trabalho de transplantar tanta gente, sem causar-lhe os traumas de um desenraizamento malfeito, exigiu do cliente um minucioso trabalho preparatório, inclusive entre a população, ao longo de três anos.

À Odebrecht coube construir dois assentamentos, tirando do nada duas vilas dotadas de escolas, centro médico, canchas de esporte, lojas e posto policial. As casas, providas de energia elétrica, terão de um a quatro dormitórios, e nenhuma delas ficará a mais de 350 m de um fontanário (chafariz). Num dos assentamentos, batizado 25 de Setembro, cerca de 300 moradias estão sendo erguidas em terrenos de 600 m2. O outro, Kateme, acolherá as famílias que vivem da atividade rural. Além de casas, construídas em lotes de 180 m x 40 m, os moradores vão dispor de áreas para cultivar suas hortas comunitárias – as machambas, como se diz em Moçambique.

“Cada família, nas duas vilas, receberá um kit para fazer seu galinheiro e a pocilga para criar seus porcos”, informa Sérgio Roberto Macedo. A mudança, prevista para começar em julho, também será tarefa para a Odebrecht. “Vamos pegar não só as pessoas, mas também seus animais, e levar para o novo local de moradia.”

Uma cidade para 2 mil pessoas
Ao mesmo tempo em que prepara os dois assentamentos, a Construtora põe de pé o canteiro de obras da mina de carvão. “Até julho, teremos construído uma cidade para 2 mil pessoas”, projeta Sérgio Roberto Macedo. Nessas confortáveis instalações provisórias haverá cinema, lan house, campo de futebol, quadras poliesportivas, lavanderia, capela, clínica e loja de conveniência. O refeitório e a cozinha, aptos para servir até 4 mil refeições, foram inaugurados em 27 de março, durante visita do Presidente moçambicano, Armando Guebusa.

A população do canteiro de obras seria ainda maior se a Odebrecht não estivesse, desde o início, empenhada em recrutar trabalhadores entre os moradores da região. “Temos de prepará-los, como forma de baratear a obra e diminuir o número do pessoal alojado”, diz Sérgio Roberto Macedo, resumindo o esforço que vem sendo feito no programa Estamos Juntos.

Como faz em todos os lugares onde atua, também em Moçambique a Odebrecht se empenha em integrar quadros locais de qualidade. Antes mesmo que o programa Jovem Parceiro tenha sido totalmente implantado, a empresa já engajou talentos como a engenheira Olga Comiche, de 26 anos. Diplomada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre, na volta a seu país natal ela conseguiu emprego na Odebrecht, na área de orçamento. “Estou a aprender muito”, afirma Olga. No caso da Responsável Administrativa do escritório de Maputo, Teresa Teodoro, deu-se um feliz reencontro. Ela é uma veterana dos tempos da construção da Rodovia Inchope-Machipanda. Em maio de 2008, o então Responsável por Engenharia, Jomário Duarte, topou com ela em Maputo e imediatamente lhe fez um convite. “Fui raptada”, brinca Teresa, “e voltei sem hesitar.” Como um número cada vez maior de moçambicanos, ela se afeiçoou à caipirinha e ao rodízio de carne, e já não estranha brasileirismos, como “dar uma descansada”. Na mão oposta, habituou os colegas a moçambicanismos como o verbo “desconseguir”, quando uma iniciativa não dá certo. Ou a dizer maningue nice, expressão que casa uma palavra 100% nacional a outra da língua inglesa para qualificar algo ou alguém que seja muito especial.

Maningue nice, com certeza, se poderia dizer das perspectivas que se abrem, em Moçambique, para a Odebrecht. É significativo que a empresa tenha realizado em Maputo, em março, a reunião trimestral dos vice-presidentes de sua área internacional. “É o reconhecimento da magnitude do esforço que estamos fazendo aqui”, observa Luiz Rocha, Vice-Presidente Internacional da Odebrecht. Esforço, sublinha ele, “neste momento voltado para o cliente Vale”.

Um pavilhão, uma escola, uma chance na vida



O engajamento prioritário no projeto em curso da mineradora brasileira não impede que se tenha um olho em oportunidades futuras. “Já trabalhamos aqui, conhecemos o país e temos capacidade para apoiá-lo na construção daquilo de que ele necessita”, acredita Luiz Rocha. “A infraestrutura portuária, ferroviária e aeroportuária talvez possa vir a ser o pilar de nossa atuação em Moçambique.”

É imenso, igualmente, o potencial nos setores da mineração e da geração de energia – assim como no do turismo, acrescenta Miguel Peres, chamando a atenção, por exemplo, para grandes reservas naturais como os parques de Gorongoza e Niassa, com sua riquíssima fauna. “A região de Maputo”, conta ele, “é um santuário de elefantes, e por toda a costa há praias belíssimas, verdadeiros paraísos, com um clima maravilhoso.” Com tantas possibilidades, chega a ser difícil não apostar que o futuro para a Odebrecht em Moçambique será, de fato, maningue nice...