Entrevista: Antonio Queiroz

O que é que há de novo?

Na liderança da equipe de Inovação e Tecnologia da Braskem está o engenheiro químico Antonio Queiroz, com especializações internacionais em engenharia de processos

texto: Nelson Letaif
foto: Eneida Serrano

Ele ingressou na empresa em 2007, como responsável corporativo por Inovação e Competitividade Industrial, transferindo-se para a Unidade de Polímeros em 2008. A seguir, Queiroz detalha a estratégia de pesquisa e desenvolvimento da Braskem, cujos objetivos incluem a conquista da liderança mundial em polímeros de origem renovável.

Odebrecht Informa – Há alguma mudança na estratégia de pesquisa da Braskem?
Antonio Queiroz
– Há uma evolução natural. Ao longo do processo de formação da Braskem, adquirimos um portfólio de tecnologias muito diversificado. Isso nos proporcionou versatilidade e oportunidade de diversificação de produtos que atendem muito bem às necessidades de nossos clientes no Brasil e no mercado internacional e contribuiu para que a Braskem se tornasse uma empresa muito atrativa para os fornecedores de tecnologia. Agora todo o mundo compreende o tamanho e o protagonismo que aspiramos alcançar na petroquímica internacional.

OI – E em relação a desenvolvimento de produtos, o que mudou?
Antonio Queiroz
– De início, o mais importante para a Braskem era ser a primeira empresa brasileira a fornecer as soluções existentes no mundo, dando aos clientes locais e regionais possibilidade de acesso a produtos tão interessantes quanto aqueles ofertados pelos seus concorrentes internacionais. Isso a Braskem fez de forma muito eficaz. Agora, na medida em que temos a ambição de disputar com os 10 principais concorrentes mundiais e essa expansão passa por vender no mercado internacional, precisamos ser líderes em alguns segmentos e estar mais preparados para desenvolver tecnologias com parceiros externos.

OI – O foco da Braskem em liderança está concentrado em produtos a partir de matérias-primas renováveis?
Antonio Queiroz
– Exatamente. Na petroquímica tradicional, não teríamos um fator de diferenciação, já que o Brasil ainda não dispõe de matéria-prima muito barata, que para nós virá com os investimentos da Braskem no exterior, entre eles os que estão sendo feitos na Venezuela e Peru. Mas nos renováveis temos situação muito peculiar em razão das vantagens competitivas intrínsecas do Brasil.

OI – O que estimula mais a busca por produtos de origem renovável: a questão ambiental ou a perspectiva de a matéria-prima fóssil ficar mais escassa e cara?
Antonio Queiroz
– Num primeiro momento é a questão ambiental, a necessidade de reduzir a emissão de CO2. Isso é o que vai impulsionar a pesquisa nos próximos 10 ou 20 anos. A questão ligada à matéria-prima alternativa é mais de longo prazo. No mundo todo, a tendência do petróleo é continuar com preços em alta. Em contrapartida, o desenvolvimento de biocombustível no Brasil tende a reduzir o custo de produção da biomassa, que será fonte das matérias-primas renováveis. Esses movimentos têm uma tendência oposta, o que deve criar cada vez mais espaço e vantagem competitiva para as matérias-primas renováveis.

OI – Como a Braskem administra o processo de maximizar o resultado do investimento em pesquisa?
Antonio Queiroz
– Quando identificamos um potencial de ganho, seja em melhoria de processo, seja de produto, comparamos previamente seu valor estimado com o custo para chegar à solução. Na engenharia de processos, que busca melhoria de performance industrial, para cada unidade de valor investida obtemos em média um ganho de três a quatro vezes mais em redução de custo, ou aumento de produtividade, ou aumento da possibilidade de venda do produto.

“Qualidade das pessoas, organização e interdisciplinaridade no processo de inovação são elementos-chave”



OI – Como se estimula a geração de ideias nessa área de atuação?
Antonio Queiroz
– Nossos projetos levam de seis a 18 meses para se desenvolver. Portanto, é necessário haver uma alimentação contínua do pipeline (conjunto de projetos). As ideias podem vir, por exemplo, da própria equipe ou dos clientes que nos pedem alguma solução. No caso de processos industriais, comparamos o desempenho das nossas plantas com o de concorrentes e vamos encontrando as oportunidades de ganhos.

OI – No ano passado, 17% da receita da Braskem com a venda de resinas foi gerada por produtos desenvolvidos nos últimos três anos. Que desafio você está colocando para sua equipe?
Antonio Queiroz
– Não proponho isso como um objetivo específico, acaba sendo mais uma consequência. O objetivo é a maior criação de valor para o negócio. Nos últimos três anos, nosso pipeline gerou em termos de Valor Presente Líquido um potencial de ganho de US$ 100 milhões a US$ 110 milhões a cada ano. Em 2009 estamos passando para US$ 135 milhões. Aumentamos muito a produtividade das equipes. Nos últimos três anos, lançamos uma média de 30 projetos por ano; em 2009, devemos saltar para 70 projetos.

OI – Como as equipes de tecnologia e inovação se preparam para se superar na geração de resultados?
Antonio Queiroz
– Qualidade das pessoas, organização e interdisciplinaridade no processo de inovação são elementos-chave. Nesse processo, as áreas comercial, de aplicação, industrial e outras dentro das unidades de negócio precisam trabalhar muito próximas. Nossa equipe tem pesquisadores de ótima qualidade que também possuem experiência em diferentes funções, que transitaram da área de tecnologia para a área comercial e de aplicação, e vice-versa.

OI – E o que se faz em termos de educação para o trabalho?
Antonio Queiroz
– Estamos estimulando a formação científica mais sólida, buscando profissionais que tenham feito um doutorado. Nessa mudança de perfil da nossa inovação isso é fundamental. A formação científica está sendo valorizada. Os convênios de cooperação tecnológica com universidades e com entidades de pesquisa, como a Universidade de Campinas (Unicamp) e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), também têm se mostrado muito importantes. Essas parcerias reduzem os custos e o risco, além de aumentar a velocidade das pesquisas.