Entrevista

Um time coeso, uma luta de todos

texto: Thereza Martins
foto: Edu Simões

O conceito da sustentabilidade está na origem da filosofia empresarial da Odebrecht. Sem sustentabilidade não há desenvolvimento. Essa orientação serve de guia para a prática diária de negócios da Organização. Para discutir esse tema, Odebrecht Informa convidou quatro responsáveis por áreas ligadas ao desenvolvimento sustentável nas empresas: Sérgio Leão e Felipe Cruz, da Odebrecht Engenharia e Construção; Carla Pires, da ETH Bioenergia; e Jorge Soto, da Braskem. Os quatro se reúnem há alguns meses para colocar em pauta direcionamentos, compromissos e sinergias entre as empresas em que atuam. São muitas as possibilidades de ação, focando aspectos econômicos, sociais, ambientais e políticos. Nesta entrevista, feita às vésperas da Conferência de Clima da Organização das Nações Unidas (COP 15) em dezembro, em Copenhague, eles contam como prepararam a participação dos representantes da Odebrecht no encontro mundial da Dinamarca e falam sobre as bases para a definição de uma agenda comum entre as empresas da Odebrecht no debate sobre as mudanças climáticas.

Odebrecht Informa – Com qual expectativa a Odebrecht se preparou para a COP 15?
Jorge Soto – Estamos em um longo processo de transformação. Quando digo “estamos”, refiro-me às nações, aos governos, às empresas, às pessoas. Nós, da Odebrecht, planejamos cuidadosamente a nossa participação na COP 15, porém temos claro que a Conferência de Copenhague não representa um marco, mas um passo nessa caminhada. Já foram realizados 14 encontros nessa linha e outros ainda virão até que se encontre uma solução efetiva e de consenso para enfrentar as causas das mudanças climáticas.
Carla Pires – A Odebrecht compartilha a convicção, com os demais setores produtivos brasileiros, de que há necessidade de aprofundar o diálogo entre empresas e governos para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo: as mudanças do clima. Para isso, é necessário o compromisso entre quem aprova diretrizes e regulamentos e quem os executa e cumpre. Todos os compromissos assumidos para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa (como o CO2, o dióxido de carbono) devem ser exequíveis, tanto para governos quanto para o setor industrial. A Organização entende que pode e quer fazer parte da solução desse problema, por meio da construção de um novo modelo de desenvolvimento baseado numa economia de baixas emissões de carbono, com a participação integrada de governos, indústrias e sociedade. Por essa razão, a Organização está se preparando para participar das discussões da COP 15.
Felipe Cruz – Nesse sentido, nós, da Odebrecht, realizamos um trabalho prévio com associações empresariais da indústria química, do setor de cana e álcool, da construção, e com o próprio Governo para definir prioridades, alinhar o discurso e unificar bandeiras.
Sérgio Leão – Iremos à COP 15 como parte da delegação brasileira. Queremos acompanhar os debates e participar deles, mas sabemos também que eles não se esgotarão após a Conferência. Os efeitos das mudanças climáticas serão fortes se não agirmos, e as empresas terão seu papel, mas precisamos nos preparar para o novo ambiente de negócios que está surgindo. Serão novas tecnologias, novas matérias-primas e processos produtivos aperfeiçoados com melhores indicadores de ecoeficiência.

“É necessário o compromisso entre quem aprova diretrizes e regulamentos e quem os executa e cumpre”
[ Carla Pires ]



OI – Em que medida a agenda da COP 15 e o debate em torno das mudanças climáticas aproximaram vocês?
Carla Pires
– Nós sempre estivemos em contato, uma vez que trabalhamos em áreas comuns na Organização, com clara orientação para ações sustentáveis. Mas foi a partir da necessidade de entender o posicionamento e a contribuição das diversas empresas da Odebrecht acerca das mudanças no clima que passamos a nos reunir regularmente. Isso ocorreu em agosto de 2009, quando fomos provocados a analisar o posicionamento da Organização ante a adesão a iniciativas voluntárias assumidas pelo setor empresarial, contribuindo no debate e nos esforços para minimizar os efeitos adversos sobre o clima.
Jorge Soto – A partir daí as reuniões foram evoluindo. Em uma organização com negócios diversificados, as oportunidades também são diferenciadas. As possibilidades de dar e receber contribuições são grandes. Cada um de nossos líderes empresariais tem assumido postura de vanguarda na questão do clima e da sustentabilidade. O nosso papel, como grupo de trabalho, é apoiar a visão de desenvolvimento sustentável das empresas da Organização Odebrecht para que elas cada vez mais estejam alinhadas e sejam fortalecidas pelos líderes, reforçando a posição e a imagem das empresas, individualmente, e da Odebrecht, em seu conjunto.
Carla Pires – É importante destacar também que, quando nos reunimos pela primeira vez, identificamos na carteira de sustentabilidade outros temas desafiadores a tratar em conjunto, além da questão climática. A Organização Odebrecht havia explicitado, no fim de 2008, a sua Política sobre Sustentabilidade, e precisávamos acompanhar como cada empresa vinha se estruturando para atender às diretrizes dessa política, quais as sinergias entre nossos negócios nesse desafio e como vamos prestar contas, interna e externamente, dos resultados das nossas ações, no Brasil e nos demais países onde atuamos.

OI – Que outros temas fazem parte da agenda de trabalho conjunto das empresas da Odebrecht?
Carla Pires
– Vários. Um tema recente é a polêmica revisão do Código Florestal, atualmente em análise nas instâncias legislativas federais e que afeta vários dos nossos negócios. O debate está mobilizando organizações ambientalistas contrárias às mudanças, mas entendemos que a revisão é necessária, porque o Código é bastante antigo e está desatualizado. Não adianta ter uma legislação parada no tempo e de difícil cumprimento. Entre outros itens, o Código Florestal define diretrizes para as áreas de preservação permanente e reserva legal, mas as normas não diferenciam o ambiente urbano do rural, limitando e, às vezes, até inviabilizando alguns empreendimentos e oportunidades de desenvolvimento nas regiões.
Sérgio Leão – A revisão do Código Florestal, atualizando regras sobre áreas de preservação permanente, reservas legais, corredores junto aos cursos de água e encostas, tem importância para os negócios da Engenharia e Construção e da ETH. Há necessidade de discutir, entender e conciliar as diferentes posições, para que as decisões a serem tomadas possam ser cumpridas por todos e trazer benefícios sociais e ambientais.
Felipe Cruz – Na agenda de trabalho que estamos desenvolvendo em conjunto encontram-se também as ações sociais, que são integradas aos produtos e serviços da Odebrecht. Nesse aspecto, nosso foco principal é a criação de oportunidades de trabalho e renda, que contribuem para a preservação ambiental e colaboram no apoio a iniciativas de caráter cultural.

“O Brasil, ao persistir no combate ao desmatamento, dará uma enorme contribuição para mitigar o problema das emissões"
[ Jorge Soto ]



OI – Como o conceito da sustentabilidade evoluiu na Odebrecht ao longo dos anos?
Sérgio Leão
– O compromisso com a sustentabilidade está presente na concepção da TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht) e em nossa forma de atuar em busca da Sobrevivência, do Crescimento e da Perpetuidade. Ele abrange as vertentes econômica, social, ambiental e cultural. Na Engenharia, o uso da expressão sustentabilidade como reunião dessas vertentes surgiu no início da década de 1990, como decorrência da experiência nos canteiros de obra, evoluindo com a percepção de que a obra deve interagir com o entorno nos temas sociais e ambientais. Uma obra de engenharia é uma atividade econômica de porte, que mobiliza a sociedade regional, cria oportunidades de trabalho e traz resultados duradouros de geração de renda, formação e capacitação de pessoas, melhoria da qualidade de vida e inclusão social. Os exemplos de interação das obras com o entorno, assim como os resultados dos programas da Fundação Odebrecht no Baixo Sul da Bahia, nos deram conhecimento e experiência. É clara a nossa visão de que a sustentabilidade em nossos negócios tem como centro as pessoas, sua cultura e organização social, aliadas ao uso adequado e à conservação dos recursos naturais.

OI – Retomando a questão das mudanças climáticas, como se posicionam a Odebrecht Engenharia e Construção, Braskem e a ETH?
Jorge Soto
– A Braskem é uma indústria química que está na base de uma série de cadeias industriais. É intensiva no uso de energia e, portanto, uma das grandes emissoras industriais de gases efeito estufa no Brasil. Por outro lado somos, também, parte da solução do problema, na medida em que nossos produtos possibilitam a redução de emissões das diversas cadeias das quais somos fornecedores. O uso do plástico na indústria automobilística, por exemplo, possibilitou a redução do peso dos carros e, em consequência disso, do consumo de combustível e de suas emissões. Também somos solução quando melhoramos nossos processos produtivos. No período de 2006 a 2008, a Braskem reduziu em 2% a intensidade da geração de gases efeito estufa, como resultado de investimentos em tecnologias mais limpas. Outro ponto relevante é a utilização de matéria-prima renovável (etanol obtido a partir da cana-de-açúcar) para produção do ETBE (bioaditivo para gasolina) e do polietileno verde, cuja produção em escala industrial começará em alguns meses, na planta industrial de Triunfo (RS). Com esses dois novos produtos, a Braskem estará contribuindo para a redução de cerca de 765 mil t de CO2 por ano. Essa é uma contribuição concreta. O compromisso da Braskem com o desenvolvimento sustentável levou ainda a outras melhorias nos indicadores de ecoeficiência: de 2002 a 2008, houve redução de 48% na geração de efluentes, diminuição de 13% no consumo de água e de 66% na geração de resíduos sólidos.
Sérgio Leão – As atividades da Odebrecht Engenharia e Construção em obras de infraestrutura também provocam a emissão de gases efeito estufa. Mas há aspectos distintos a considerar. Quando construímos uma usina hidrelétrica, por exemplo, produzimos uma fonte renovável de energia. Além disso, temos o compromisso de reduzir os impactos em nossas áreas de canteiros e de recuperar as áreas do entorno das obras com a revegetação e outras ações de controle ambiental. Nossa primeira meta é conhecer as fontes de emissões em diferentes tipos de obras. Para qualificá-las é necessário fazer um inventário, que já foi iniciado. O objetivo é conhecer as principais fontes para definir onde atuar com mais eficiência, podendo mesmo chegar a gerar créditos de carbono. Temos um manancial de projetos geradores de créditos de carbono que poderão trazer benefícios adicionais para comunidades, negócios da Organização e países onde atuamos.
Carla Pires – O foco do negócio da ETH possibilita uma contribuição direta para a redução das emissões de gases efeito estufa. Primeiro, porque parte de uma matéria-prima renovável, a cana-de-açúcar, que captura CO2 da atmosfera, contribuindo para a neutralização das emissões. Segundo, porque produz combustível limpo. E terceiro porque, em seu processo produtivo, pelas novas tecnologias empregadas, tudo é reaproveitado, até o bagaço da cana, cuja queima nas caldeiras gera bioeletricidade e nos habilita a buscar créditos de carbono, ao entregarmos uma energia mais limpa e renovável à matriz energética nacional. Além disso, a mecanização da colheita da cana-de-açúcar elimina as queimadas e também contribui significativamente para a redução das emissões de CO2.
Felipe Cruz – Os negócios da Organização Odebrecht formam um conjunto sinérgico, inclusive em relação à sustentabilidade e, particularmente, nas questões de mudanças climáticas. Precisamos trabalhar firme nesse caminho.

OI – É possível esperar que a partir da COP 15 as mudanças climáticas não caiam no esquecimento?
Jorge Soto
– Sim. Não há mais condições para o esquecimento. Mesmo que o resultado da conferência fique restrito a uma carta de intenções, existe a consciência de que é preciso mudar. A China, um dos maiores emissores de CO2 do planeta, está investindo fortemente em tecnologia. China e Estados Unidos são os grandes responsáveis pelas emissões de gases efeito estufa e o mundo aguarda o seu compromisso. O Brasil, se persistir no combate ao desmatamento, dará uma enorme contribuição para mitigar o problema, uma vez que o desmatamento é responsável pela maior parte das emissões no país. Como disse no início da entrevista, não creio que a COP 15 venha a ser “a solução”, mas representa um passo importante nessa caminhada.