Repar

Teclado, monitor e família

Inclusão digital e formação de trabalhadores são destaques nas obras de ampliação de refinaria da Petrobras no Paraná

texto: Eliana Simonetti
fotos: Kraw Penas

Araucária, Grande Curitiba: 120 mil habitantes e PIB (Produto Interno Bruto) per capita de R$ 61 mil. Lá, a Odebrecht compõe o Consórcio Conpar, com a UTC Engenharia e a Construtora OAS, na ampliação da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras. A cidade é rica, mas há desafios a ser superados. No entorno da Repar, existem 11 invasões com muitas carências e poucas oportunidades de trabalho. O Conpar realiza projetos sociais a fim de contribuir para que novas portas se abram aos que vivem nas invasões, muitos deles integrantes do consórcio.

Há várias histórias que ilustram esse esforço. Uma delas é protagonizada por Iolanda Heinrichs. Nascida na Bahia, casada e mãe de dois filhos universitários, trabalhou em nove barragens e viveu em 13 estados antes de chegar ao Paraná, um ano atrás, para assumir a responsabilidade pelas ações sociais do Conpar. Iolanda foi professora voluntária na primeira turma do Programa Caia na Rede (veja reportagem nesta edição), num laboratório com 16 computadores que o Conpar montou no Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (Caic) do Jardim Califórnia, no coração das ocupações irregulares, para a alfabetização digital de estudantes, pessoas da comunidade e integrantes.

Na primeira noite do curso, quando os alunos estavam numa dinâmica de integração, a porta da sala se abriu. Era um senhor de 60 anos, desempregado, usando terno e com os olhos marejados. Ele explicou: nunca pensou que um dia fosse chegar perto de um computador. Ocupou seu espaço, aprendeu a navegar pela internet, a tirar documentos e a solicitar benefícios. Formado, mudou-se para uma cidade onde encontrou oportunidade de trabalho. Seu nome: Juscelino. Não deixou registrado o sobrenome.

Entre os integrantes do Conpar há outro caso de especial significado. José Roberto Fossa, Responsável por Segurança, e seus filhos Berlei, instrumentador industrial, e René Thiago, que trabalha no almoxarifado, vieram de Esteio (RS). Os rapazes já conheciam computadores, mas o pai não entendia nada dessas máquinas. No início de novembro, os três começaram a frequentar a segunda rodada do Caia na Rede. “Já consigo até preencher planilhas em Excel”, disse José Roberto, duas semanas depois de iniciar o curso. Essa habilidade é essencial para o cumprimento de suas tarefas na Repar. Para seus filhos, as aulas estão sendo uma revelação. “Já sei até montar e desmontar um desktop”, orgulha-se René Thiago. A iniciativa é exemplo de sustentabilidade. Terminada a obra, o laboratório permanecerá no Caic. “Muitas pessoas ainda poderão se instruir aqui no futuro”, salienta a Diretora Geral do Centro, Elda Tuleski.

Ações sociais do Conpar em 2009



Outro exemplo de iniciativa na área social ocorre através de convênio entre o Conpar e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Jamais havia sido oferecido um curso de montador de andaime – que, já na primeira turma, acumulou uma longa lista de espera de candidatos. Eletricistas, carpinteiros, armadores também vêm sendo formados e certificados. Entre eles está Rosineide Nedza, descendente de indígenas e italianos nascida em Guaraniaçu (PR), casada com Pedro, neto de ucranianos, operador de máquinas pesadas em outra empresa, e mãe de Aghata, 7 anos, ginasta e bailarina. Por tradição familiar, Rosineide deveria ter se tornado confeiteira, mas preferiu fazer cursos de mecânica, fresa, soldagem, tornearia e montagem. Integrada ao Conpar, em dois meses foi promovida a oficial de mecânica. “Com cinco mulheres como ela eu dispensaria 10 homens”, afirma seu líder, o engenheiro Antonio Hermont. Rosineide é a única mulher na turma. “Não há o que eu não faça”, ela diz. Já inscrita no Caia no Rede, ela pretende, um dia, ir para a universidade. Quer ser engenheira mecânica.