19 de junho de 2013
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PORTUGAL
Caminhos que se cruzam
Obras do projeto rodoviário Circular Regional Interior de Lisboa passam por trecho de aquedutos e exigem solução especial para a preservação desses patrimônios nacionais
Aqueduto das Águas Livres: construído entre 1732 e 1834, tem 58 km de extensão
Texto Karolina Gutiez | Fotos Holanda Cavalcanti

Aqueduto das Águas Livres. Construído entre 1732 e 1834 por decreto de D. João V, como parte do esforço de levar água da fonte das Águas Livres para Lisboa e solucionar o problema de abastecimento, tem 58 km de extensão, incluídos todos os ramais de captação. Compreende, entre outras estruturas, o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, responsável pelo recebimento e pela distribuição de água na capital portuguesa, até o ano de 1967. É um dos maiores sistemas desse tipo existentes no mundo.

Circular Regional Interior de Lisboa – Cril. Anel interno de circulação rodoviária de alta velocidade que interliga as diversas autoestradas de acesso a Lisboa, retirando tráfego ligeiro e pesado das vias principais. Prevista desde 1980 nos planos rodoviário nacional e de transportes da região, tem, desde dezembro de 2007, a execução dos 3,7 km que faltavam para a sua conclusão em andamento. Uma obra aparentemente simples, não fossem as muitas interferências em seu traçado e a localização em área urbana e densamente povoada.

A Cril passa por três municípios e 10 freguesias. Entre os serviços impactados, estão o abastecimento de água e gás, energia elétrica, telecomunicações, tratamento de esgoto, comunicações militares, a linha ferroviária Lisboa-Sintra e um túnel do metrô. E 130 m de equipamentos dos Aquedutos das Águas Livres e das Francesas, patrimônios nacionais.

Dos 58 km do Aqueduto das Águas Livres, pouco mais de um é visível. O trecho mais conhecido é um dos principais cartões-postais lisboetas: são os 35 arcos sobre o Vale de Alcântara, com destaque para o maior arco de pedra de vão do mundo. Foram construídos para refletir a monumentalidade do período em que D. João V governava Portugal. “Como todo o restante dos aquedutos é formado por galerias subterrâneas e não é mais utilizado, cogitou-se demolir o encanamento onde a Cril iria passar. Mas isso não era correto”, defende a arqueóloga Margarida Monteiro, que acompanhou os trabalhos desde o início. Afinal, trata-se da maior obra de engenharia hidráulica do século 18.

“A Bento Pedroso Construções (BPC, subsidiária da Odebrecht em Portugal) apresentou o sétimo preço entre as empresas que participaram da licitação. Sua proposta técnica incluía, contudo, uma solução que não colocava em risco os aquedutos”, destaca José Joaquim Martins, Diretor do Contrato. “Colocamos toda a nossa engenharia à disposição do cliente, Estradas de Portugal, tanto para a concepção, quanto para a execução do projeto.”

A travessia, nos trechos da Cril que cruzam os aquedutos, foi rebaixada. A solução acabou por ser adotada em outros pontos, resultando na construção de túneis em metade do traçado de 3,7 km. As estruturas seculares ficaram suspensas no teto das passagens subterrâneas. E para afastar a possibilidade de qualquer abalo, sobretudo onde há as alvenarias chamadas Mães de Águas, que serviam como vias de acesso ao interior e garantiam a ventilação dos aquedutos, microestacas de contenção foram primeiro posicionadas horizontalmente, com estruturas de concreto pré-fabricado nas paredes laterais. Só então foi realizado o trabalho completo de escavação e formação dos túneis.

“Tecnicamente, foi a etapa mais complexa, pois houve intervenção direta no patrimônio nacional”, revela Pedro Quintas, Responsável Técnico da obra. Uma equipe de 11 especialistas em arqueologia, conservação e restauro trabalhou no levantamento de informações em campo sobre as condições dos aquedutos e na produção de relatórios mensais entregues ao Igespar – Instituto de Gestão do Patrimônio Arquitetônico e Arqueológico.

Principais números das obras da Cril

Com o crescimento das cidades pelas quais o aqueduto passa, já no século 20, muitas interferências equivocadas foram documentadas. “A poluição da água, por exemplo, exigiu a substituição da tubulação, o que provocou a abertura de rombos e a utilização de cimento não compatível com o material da época da construção”, relata Margarida. “Nenhuma obra realizada no entorno do Aqueduto das Águas Livres teve esta preocupação antes. A legislação também era menos rígida; a mentalidade era outra.”

Depois de concluída a suspensão dos aquedutos, será realizado o restauro, que prevê limpeza, desinfestação biológica, remoção de placas calcárias e estalactites e tratamento de juntas e elementos metálicos. A obra deve ser concluída no fim de 2010.

O Aqueduto das Águas Livres, o Reservatório da Mãe d’Água, a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos e o Reservatório da Patriarcal formam os núcleos do Museu da Água, administrado pela Empresa Portuguesa das Águas Livres. Saiba mais no blog de Odebrecht Informa.

Pela complexidade que carrega, é natural que o projeto de fecho da Cril tenha ficado cerca de duas décadas engavetado. “O risco envolvido, assumido pela BPC, e a magnitude deste contrato consolidaram o respeito a nossa empresa e nos permitiram um reposicionamento de forma diferenciada no mercado português”, avalia José Joaquim.
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  • Aqueduto das Águas Livres: construído entre 1732 e 1834, tem 58 km de extensão
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  • Obras da Cril, passa por três municípios e 10 freguesias
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  • Galeria subterrânea: cuidados extremos para proteger a maior realização da engenharia hidráulica do século 18
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  • Reservatório da Mãe d’Água
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  • Margarida Monteiro, arqueóloga que acompanha os trabahos desde o início
    Margarida Monteiro, arqueóloga que acompanha os trabahos desde o início



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