"Trabalho na Odebrecht há 29 anos e participei de muitas histórias divertidas e importantes profissionalmente, além de outras que trazem à lembrança a fragilidade da vida humana. A história que vou compartilhar com vocês aconteceu na época em que trabalhei no Peru, em Puerto Melchorita, onde, após vários anos como gerente de tesouraria na Matriz, retornei à linha, atuando como gerente administrativo e financeiro.
Era uma quarta-feira, 15 de agosto de 2007, bem no meio de uma reunião semanal de coordenação para o planejamento das próximas três semanas. Nessa reunião, discutíamos a mudança do pessoal dos hotéis em Chincha e Cañete para o acampamento no início de setembro (o desafio significava uma economia de quase um mês de custos previstos com acomodação externa). Ainda estávamos na reunião quando, às 18h40, começou um forte terremoto. Após os primeiros segundos do abalo, Rodney Carvalho, diretor de contrato, trabalhando havia 12 anos no Peru, tentou acalmar os demais: “Calma, senhores, não está acontecendo nada! É só mais um pequeno tremor, vai passar já!” Porém aquele não era um dia comum, e após alguns segundos sentindo aumentar as violentas ondas do terremoto, saímos todos correndo para fora do escritório.
A terra tremeu durante pouco mais de três minutos, destruindo e mudando a geografia próxima do Projeto, assim como a das cidades de Chincha, Cañete, Pisco e Ica. Pela Internet, confirmamos que tinha sido um terremoto de 7,9 graus de intensidade, que abalara o sul do país, a apenas 25 quilômetros de nosso acampamento, mar adentro, e a 60 quilômetros de profundidade. Por volta das 20 horas chegou a informação de que os hotéis que ocupávamos em Chincha e Cañete estavam destruídos ou em perigo de desabar. Rodney e eu concordamos que teríamos que arrumar alojamentos da melhor maneira possível para utilização imediata, dadas as condições. Convoquei minha equipe toda para uma difícil missão: preparar em poucas horas o acampamento para receber quase 250 pessoas naquela mesma noite.
O plano consistiu em arrumar os beliches que tinham acabado de ser montados e conseguir colchões, travesseiros e cobertores (que já se encontravam no armazém, ainda por usar). Como não havia energia elétrica nos alojamentos dos operários, falei com Allan Abrantes para que o pessoal dele arranjasse luzes de trabalho noturno para que tivéssemos uma iluminação mínima e começássemos por lá esse trabalho. Os operários tiveram boa vontade e perto das 23h30 terminamos o setor, para seguir, então, com os alojamentos do pessoal técnico-administrativo.
Tão logo terminávamos um quarto, ele era liberado imediatamente para uso do pessoal. A equipe de administração ficou com as últimas camas para completar e poder descansar. Por volta das 3h30 do dia 16 de agosto ainda estávamos trabalhando quando Percy Tejada, Responsável administrativo, chegou perto de mim e disse: “Lucho, você percebeu que já estamos no dia do seu aniversário? Você está tão entretido ajudando a arrumar as camas, que com certeza esqueceu!” Então paramos por um momento e todos os integrantes da área vieram me cumprimentar, fazendo piadas e dizendo que esse aniversário eu nunca esqueceria.
Assim, eu, que nunca antes tinha mobilizado um acampamento, dei por encerrada aquela etapa, para começar, em definitivo, a trabalhar e viver lá. Dadas as condições, nossas acomodações se tornaram as melhores num raio de 50 quilômetros (a iluminação demorou dez dias para ser concluída e o gás para esquentar a água demorou cinco dias. Imagine tomar banho com água fria com temperaturas próximas de zero grau!). Ao amanhecer do dia seguinte, a direção da obra e o Cliente acordaram em apoiar as autoridades civis e militares: fomos a primeira empresa privada a dar apoio imediato naquela situação de desastre, com 123 homens e 45 equipes durante 28 dias, visando o resgate de pessoas sob os escombros e a habilitação da cidade de Pisco e da rodovia Panamericana Sul."
* Menção Honrosa no concurso “Conte a sua história na Odebrecht"