"Em 1981, a PPH abria concurso para formar as turmas de operadores que iriam, no ano seguinte, partir para a primeira planta de PP do polo de Triunfo, RS. Na época eu tinha 20 anos, era casado e trabalhava havia seis anos numa metalúrgica. Meu irmão, um ano mais novo que eu, também casado e com uma filha recém-nascida, estava desempregado e correndo atrás de todas as oportunidades que apareciam. Assim que ficamos sabendo do concurso, fomos logo fazer nossa inscrição, junto com centenas de candidatos vindos de várias cidades. Apenas 50 iriam para a segunda fase; mais de 95% dos candidatos seriam eliminados. Desses, apenas 28 sobrariam após o psicotécnico. Esses 28 fariam as entrevistas e seriam direcionados para exames médicos, e se estivessem OK, iniciariam o curso de operadores já como funcionários da PPH.
Na inscrição para o concurso, perguntaram se tínhamos algum parente na PPH, pois se tivéssemos não poderíamos concorrer. Não ter parente era condição para ser admitido. Nossa inscrição foi efetivada com a ressalva de que pelo menos um de nós seria eliminado em alguma das fases do processo. Chegou o resultado da primeira peneira e tanto meu nome como o do meu irmão estavam entre os 50.
Fomos para os testes psicotécnicos, de onde sobrariam apenas 28, que iriam para as entrevistas. Era um dia quente e colocaram os cinquenta em uma sala mais quente ainda. Entregaram-nos um livro enorme com o teste e tínhamos cinco horas para concluí-lo. Iniciou às 9h e, lá pelo meio-dia, já víamos algumas desistências. Três dias depois saiu o resultado e nessa fase já sabíamos que pelo menos um de nós dois não estaria na lista dos 28, mas para nossa surpresa os nomes dos dois estavam lá, já com data marcada para a entrevista. Logicamente, dessa fase seria impossível seguir adiante, pois nas entrevistas eles veriam, pela nossa aparência, a obviedade do parentesco.
Foram vários dias de entrevistas com profissionais de RH e Produção. Durante essas conversas, tanto eu como meu irmão comentamos o fato de ainda estarmos no processo, obtendo como resposta que pelo menos um de nós dois não seria contratado.
Chegou o dia da lista dos que seriam encaminhados para os exames médicos e mais uma vez a dupla estava presente. Fizemos todos os exames e ficamos aguardando a comunicação para a assinatura do contrato. Nesse meio-tempo, recebi a informação da PPH de que eu deveria me desligar da metalúrgica, pois me esperavam em dois dias para assinar e iniciar o curso de operador.
Naquele momento o sentimento não foi de euforia, pois sabia que minha entrada significava que meu irmão tinha passado por todo aquele processo em vão. Voltei pra casa naquele dia tentando achar as palavras certas para que o clima familiar não ficasse muito pesado. Ao chegar em casa o clima já estava pesado. Toda a família estava reunida para me receber e me consolar, pois meu irmão havia recebido um telegrama solicitando a sua presença no dia seguinte para assinar o contrato com a PPH. Euforia total ao ouvirem o meu relato.
No dia seguinte ele foi, assinou e festejou. No outro dia fui eu. Na hora de assinar, a moça do DP me achou muito parecido com ele, e, comparando as fichas, viu o parentesco. Chamou sua chefe e a confusão estava formada. Queriam achar um culpado a todo custo. Pediram que eu retornasse à tarde com meu irmão, mas antes me informaram que apenas eu seria contratado, pois havia saído do emprego para entrar na PPH.
Nossa mãe e irmãs rezavam, enquanto eu e meu irmão passamos a tarde sentados na sala do RH, aguardando uma definição. Um cunhado nosso, motorista da Olvebra (acionista da PPH) pediu uma força a seu chefe. No final da tarde veio a decisão: iriam admitir os dois irmãos, mas iriam colocar uma lupa em nosso rendimento. Em 2011, faremos trinta anos nesta Organização.
Eu sou ROI na PP1, e ele é ROI na PP3. A quebra desse paradigma, naquele momento, contribuiu para o processo evolutivo daquela linha de gestão. Ninguém poderia imaginar que os “irmãos Metralha” abririam um caminho e fariam a história."
* Menção Honrosa no concurso “Conte a sua história na Odebrecht"