Marcos Lima percorreu a pé 800 km em 29 dias na peregrinação a Santiago de Compostela
Texto: Leonardo Mourão | Fotos: Arquivo Pessoal
Desde que voltou de férias, no dia 1º de julho, o Responsável pela Odebrecht Administradora e Corretora de Seguros, Marcos Lima, vem surpreendendo as pessoas que trabalham com ele e até mesmo sua família. Aos olhos deles – e alguns colegas o conhecem desde que iniciou sua carreira na Organização, há 32 anos –, Marcos Lima parece estar mudado. São detalhes, alguns bem sutis, mas que, somados, quase dão a impressão de que se está diante de alguém desconhecido.
“Eu também sinto que mudei”, diz Marcos. “Passei a dar mais valor ao humano do que ao material, o que significa que hoje estou muito mais interessado nas pessoas. Agora prefiro conversar com a minha equipe do que passar o dia diante do micro, respondendo e-mails. Um dia desses, me sentei à mesa com um estagiário e conversamos longamente, algo a que não vinha dedicando muito tempo ultimamente. Nas reuniões, me sinto muito mais presente e concentrado, e um vício que achei que nunca iria superar está ficando para trás: estou olhando menos para o Blackberry e mais para as pessoas. E estou adorando essa mudança.”
Essa virada de mesa exigiu, literalmente, um enorme esforço corporal do diretor da OCS. Durante 29 dias do mês de junho, ele percorreu, sozinho e a pé, 800 km do Caminho de Santiago, de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, até Santiago de Compostela, na Galícia, norte da Espanha. Seus 67 anos de idade não foram empecilho para andar até 30 km por dia, com uma mochila nas costas, muitas vezes subindo por trilhas íngremes e pedregosas, debaixo de sol forte.
Para encarar essa aventura, Marcos Lima preparou-se por três meses, correndo com uma grande mochila pela orla de Salvador, o que lhe rendeu olhares curiosos e alguns gritos de “maluco!”, e fortificou-se com uma dieta especial. Mesmo sendo maratonista experimentado, o que o motivou a enfrentar o desafio não foi, dessa vez, superar-se fisicamente. “No ano passado, comecei a sentir necessidade de ter um tempo para ficar comigo mesmo, de refletir sobre a minha vida. Fiquei pensando: meus filhos já estão criados e têm sucesso na profissão, já tenho dois netos; acredito ter dado, em todos estes anos, alguma contribuição para a Odebrecht... E aí me lembrei de uma frase do Dr. Norberto que diz que do topo só temos um caminho para percorrer, que é o da descida. Então decidi que estava na hora de procurar um outro patamar, mais alto, em minha vida.”
Há algum tempo, um conhecido havia falado, de passagem, sobre o Caminho de Santiago para Marcos Lima. Aquilo ficou na sua cabeça até que, meses depois, um velho amigo da Odebrecht, Rodrigo Dantas, comentou que havia percorrido o Caminho e podia lhe passar várias dicas. “Aquilo não podia ser coincidência. E então comecei, em janeiro, a me preparar seriamente para a viagem.”
Marcos Lima aproveitou uma viagem a Nova Iorque e suas idas a São Paulo para comprar mochila, bota, roupas especiais e outros acessórios. A melhor advertência de quem já havia feito o Caminho de Santiago era ser simples e leve, carregar apenas o estritamente necessário para não pesar em um mês de caminhada. E esse conselho trazia uma simbologia. “Quase nunca pensamos no que precisamos carregar de fato no nosso dia a dia, e sempre levamos pesos supérfluos.” Essa reflexão surgiu no meio da jornada, quando ele sentiu, nos ombros, o peso que coisas aparentemente simples, como meias, canivete, remédios e até um pequeno frasco de perfume, podem ganhar em uma caminhada extensa como essa.
“Houve um dia, logo no início da caminhada, em que senti uma dor forte na coluna. Não tive dúvidas: deixei o meu saco de dormir para trás, em uma pousada; um quilo a menos. Abri um vidro de vitaminas, que eu tomava todos os dias, contei quantos comprimidos seriam necessários e joguei fora o que não precisava; fiquei 30 gramas mais leve.”
De volta ao Brasil e ao trabalho, Marcos Lima acredita que a lição de levar apenas o necessário foi aprendida. Até em gestos simples, como trancar sua sala no final do expediente, sua atitude mudou. Anteriormente, após passar a chave na porta, ele verificava repetidamente se estava com o celular, se o cartão estava na carteira, se a ponta das notas não estava dobrada e uma série de outros movimentos em um check-list que ele, agora, considera inútil. “Era um desperdício de energia sem qualquer sentido, como também o era o hábito de carregar problemas dos outros, culpas, coisas que só pesam e não acrescentam valor a nada. Essa foi uma das grandes lições do Caminho: me ensinar a ficar mais leve, a esvaziar minha mochila.”
A sinalização está em paredes e postes, no chão e nas escadas, entre outros locais. É preciso estar atento. “As sinalizações nos levam a refletir sobre a vida. Assim como no Caminho de Santiago, em nossa vida também deparamos com sinais que precisamos aprender a interpretar, para saber que decisão tomar”, diz Marcos.
Durante os 29 dias em que caminhou, Marcos Lima fazia uma média de 25 a 30 km diários. A jornada começava às 6h30 e terminava por volta das 14 horas, quando ele procurava uma das inúmeras pousadas junto à estrada. Ali almoçava, passava a tarde lavando roupas ou comprando o necessário para o dia seguinte. Dormia por volta das 9 horas.
Nem todos os peregrinos, como são chamados os caminhantes, percorrem os 800 km, como fez Marcos. Na medida em que se aproxima de Santiago de Compostela, o número de caminhantes aumenta, mas quanto mais longe do destino, menos gente na estrada. “Houve vezes em que caminhei todo o dia sem ver uma pessoa sequer”, conta. Mas no final do dia, os peregrinos sempre se encontravam nas pousadas. E há gente de todo tipo e de todos os lugares. Jovens, velhos, homens, mulheres.
“Ninguém se preocupa em saber o seu nome, a sua profissão. Só perguntam duas coisas: de onde você vem e por que você está no Caminho.” E quase todos estavam ali para refletir sobre a própria vida. “Eu passei em revista coisas de que há muito não me lembrava e tomei decisões importantes sobre como queria ser a partir de então.”
Esse exercício de introspecção foi preparado de antemão por Marcos Lima. Algum tempo antes de sua partida, ele enviou e-mails para liderados, pares e seus líderes, com perguntas como: ‘De todas as coisas que eu estou fazendo, o que você acha que eu poderia fazer melhor?’, ‘O que eu não estou fazendo, que deveria fazer?’, ‘O que eu estou fazendo, que não deveria fazer mais?’. As respostas foram copiadas em um pequeno caderno, que ele consultava todos os dias. “Este caderno foi o meu guia de reflexão e, acredito, o responsável pelas mudanças que conquistei”, conta ele. “Ainda hoje essa experiência está presente em mim. Penso nela todos os dias e até sonho que ainda estou no Caminho.”
Para Marcos, um dos aprendizados marcantes foi este: “Parar – nunca; voltar – jamais; seguir sempre em frente!”