19 de maio de 2013
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PRÊMIO
A engenharia da preservação
Terceira edição do Prêmio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável tem como vencedores universitários de cinco estados brasileiros
Terceira edição do Prêmio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável
Texto: Leonardo Mourão

Os cinco trabalhos campeões da terceira edição do Prêmio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável, realizados por jovens universitários de universidades de todas as regiões do Brasil, mostram que do norte ao sul do país há um franco crescimento de talentos atentos à produção de soluções de engenharia que considerem os principais pilares da sustentabilidade: viabilidade econômica, responsabilidade ambiental e inclusão social. São futuros profissionais que se propõem, desde já, a contribuir para a sustentabilidade socioambiental do Brasil e do mundo.

Entulho reaproveitado
Tome-se como exemplo o projeto “Proposta para viabilização de construções com geração de entulho zero”, elaborado por Beatriz Rossignol Vieira Cardoso, 23 anos, e Neide Braga dos Santos, 29, alunas do último ano de Engenharia Civil da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo. Orientadas pelo professor Flávio Leal Maranhão, Beatriz e Neide fizeram o seu Trabalho de Conclusão de Curso levando em conta que os resíduos produzidos em uma obra de construção civil são gerados em etapas distintas do andamento dos serviços e podem ser aproveitados como matéria-prima das fases seguintes.

“Um canteiro de obras é um local perfeito para reciclagem e reaproveitamento de materiais e já há conhecimento técnico para fazer isso”, explica Neide. “Queremos eliminar as caçambas de entulho e todo o gasto de energia necessário para levá-las até os locais de despejo que, aliás, já estão esgotados nas cidades de grande porte.”

Em seu trabalho, a dupla cita estatística mostrando que a média de entulho produzido por metro quadrado em obras novas é de 150 kg, o que faz com que uma obra de 10 mil m produza cerca de 1.500 t de resíduos. No ano de 2000, é dito, foram descartadas na cidade de São Paulo 17.240 t de entulho por dia. “É um número muito alto”, afirma Beatriz. “E a grande questão é que os engenheiros que hoje têm 30, 40 anos de idade não foram treinados e muitas vezes não estão atentos à necessidade de dar um destino correto a esses resíduos.”

A proposta das futuras engenheiras, na metodologia que criaram, também faz sugestões de como as várias instâncias envolvidas nessa questão – Estado, construtoras e clientes – podem ser incentivadas a diminuir esse impacto ambiental. As construtoras, por exemplo, que se engajassem na prática de reciclar integralmente os resíduos nas obras, teriam direito a benefícios fiscais na compra de produtos ou contratação de serviços; quem comprasse unidades nessas edificações teriam uma redução de IPTU devido e os órgãos públicos economizariam recursos com a diminuição do trânsito de caminhões de entulhos nas vias das cidades e na manutenção das áreas de despejo.

“É uma proposta inédita para o tratamento de resíduos”, afirma Flávio Leal Maranhão, professor de Materiais de Construção e Construção de Edifícios. “Nos Estados Unidos e Europa, há programas similares que incentivam a economia de energia com uma adesão de 50% dos construtores. Aqui no Brasil sem dúvida teríamos um percentual parecido, com um grande impacto sobre o meio ambiente.”

Brita substituída
O momento da construção civil vem colocando como uma necessidade urgente a busca de alternativas para os resíduos produzidos nas cidades, também fora delas o grande fluxo de construções está exigindo novas abordagens na construção civil. A quantidade de estradas que começam a ser pavimentadas é um exemplo disso. Os recursos naturais, principalmente a pedra britada, são limitados e a sua extração é hoje fortemente regulamentada pelos órgãos ambientais.

Uma solução para essa questão é proposta pelos alunos Synardo Leonardo de Oliveira Pereira e Francisco das Chagas Isael Teixeira Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará. Orientados pela professora Suelly Helena de Araújo Barroso, que teve os trabalhos que orienta escolhidos pelo Prêmio Odebrecht em todas as suas três edições, os universitários propõem que se utilize resíduos provenientes da indústria siderúrgica como agregado em revestimento do tipo Tratamento Superficial Duplo (TSD). O desempenho desse subproduto foi comparado com as placas de TSD convencionais em um procedimento de laboratório que simula a resposta dos dois produtos, comprovando-se a eficiência dos resíduos cirúrgicos em rodovias de baixo volume de tráfego.

Cinza na estrada
Um segundo trabalho que também sugere o reaproveitamento de materiais que costumam ser descartados, na melhor das hipóteses em áreas de despejo controladas, para a utilização na construção de rodovias foi elaborado na PUC do Rio de Janeiro, pelos alunos Gino Omar Calderón Vizcarra e Lucianna Szeliga, sob a orientação da professora Michéle Dal Toé Casagrande. Nessa proposta, avaliou-se a possibilidade de utilizar cinzas volantes (assim chamadas por serem resíduos leves resultantes da queima de produtos orgânicos) em uma mistura com solo argiloso para compor a base de rodovias.

Foram examinadas as cinzas produzidas na Usina Verde, localizada na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, que tiveram sua composição química estudada e sua resistência mecânica testada. A conclusão é que as cinzas são capazes de estabilizar a base dos pavimentos, diminuindo sua movimentação de expansão e contração, sendo adequadas para rodovias que recebem uma carga moderada de veículos. E, o melhor, esse processo poderia evitar que essas cinzas fossem lançadas na atmosfera, como acontece em muitos incineradores de lixo urbano.

Escada de peixes
Em um país como o Brasil, em que a abundância de rios faz com que seja altamente profícua a construção de hidrelétricas para a produção de energia elétrica, a preocupação com o impacto dos grandes lagos artificiais sobre a ictiofauna está sempre presente. A interrupção de um curso d’água por uma grande barragem costuma impedir, sobretudo, o fluxo migratório dos peixes para a cabeceira dos rios no período de reprodução.

Para minimizar esse grave risco, são construídas “escadas” ao lado das barragens que permitem aos peixes escalá-las, como fariam em uma corredeira natural. No entanto, conforme constataram três alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet/MG), na maioria das vezes essas “escadas” são feitas de concreto liso o que dificulta ou mesmo impede que os peixes vençam esses degraus até a montante dos rios.

Para solucionar esse desafio, Isadora Carvalho da Silva, Guilherme Gonçalves Soares e Pedro Henrique Viana de Araújo Lopes propuseram que fossem agregados a esses anteparos seixos e argilas que tornariam a superfície desses dispositivos rugosos o suficiente para servirem de apoio aos peixes. No trabalho, que teve como orientadora a professora Hersília de Andrade e Santos, os alunos propuseram um tipo de mecanismo de transposição que, além de agregar seixos e perfis de argila para facilitar a propulsão dos peixes, é capaz de tornar o fluxo de água compatível com o movimento ascendente dos animais. Foram produzidas peças de concreto experimentais para esse mecanismo de transposição e medidos o fluxo e o turbilhonamento da água que passava por eles.

Escola para todos os climas
Da Universidade Federal de Santa Catarina surgiu a proposta de desenvolver uma escola modular sustentável e capaz de proporcionar conforto a seus ocupantes em qualquer dos diferentes climas existentes no país. De autoria dos alunos Gustavo Prado Fontes e Rovy Pinheiro Pessoa Ferreira, o trabalho orientado pelo professor Enedir Ghisi propõe o uso de técnicas construtivas tanto modernas quanto tradicionais e com tecnologias inovadoras que tenham por objetivo gerar e preservar recursos com eficiência energética, proporcionando conforto térmico e luminoso.

O projeto prevê o uso de aquecimento solar da água, aproveitamento de água de chuva, reutilização de águas usadas e ventilação e iluminação naturais. Como um dos objetivos era tornar os módulos adequados a diferentes tipos de clima, foram escolhidas três cidades – Curitiba, Ituaçu e Belém, respectivamente no Paraná, Bahia e Pará – nas quais as condições climáticas são bem diversas. As análises, simuladas em computador, mostraram a necessidade de adaptar o módulo para os extremos climáticos de cada uma das regiões (em Curitiba, o frio; em Belém, o forte calor), o que foi feito.
Galeria de Fotos
  • A partir da esquerda, atrás, o apresentador Ricardo Voltolini, Rovy Ferreira, Enedir Ghisi, Nadja Dutra, Henrique Valladares (Líder Empresarial da Odebrecht Energia), Angelo Zanini, Francisco Cavalcante, Guilherme Soares, Lucianna Szeliga, Michélle Casagrande, Pedro Henrique Lopes, Neide dos Santos e Flávio Maranhão; à frente, Gustavo Fontes, Suelly Barroso, Synardo Pereira, Isadora da Silva, Hersília Santos e Beatriz Cardoso: sintonia entre o meio empresarial e o acadêmico
    A partir da esquerda, atrás, o apresentador Ricardo Voltolini, Rovy Ferreira, Enedir Ghisi, Nadja Dutra, Henrique Valladares (Líder Empresarial da Odebrecht Energia), Angelo Zanini, Francisco Cavalcante, Guilherme Soares, Lucianna Szeliga, Michélle Casagrande, Pedro Henrique Lopes, Neide dos Santos e Flávio Maranhão; à frente, Gustavo Fontes, Suelly Barroso, Synardo Pereira, Isadora da Silva, Hersília Santos e Beatriz Cardoso: sintonia entre o meio empresarial e o acadêmico



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