Programa com a participação de empresários ajuda a mudar a maneira como os jovens veem a escola
Isabel e Tatiana: rejeição à escola tratada com diálogo
Texto: José Enrique Barreiro | Fotos: Marcella Haddad
Um ano atrás, sem interesse pelos estudos, a adolescente portuguesa Soraia Caetano, aluna do 9º ano da Escola EB 2/3 Cardoso Lopes, no bairro da Amadora, em Lisboa, estava prestes a tomar uma decisão radical em sua vida. “Eu queria abandonar a escola.” Ela dedicava seu tempo apenas a jogar futebol e a navegar pela internet. Em relação à escola, desmotivação, mau comportamento e notas baixas. O abandono era iminente.
Foi quando apareceu em sua vida a professora Isabel Duarte, que atua como mediadora do Programa Epis – Empresários pela Inclusão Social. Criado em Portugal, em 2006, a partir de uma convocação feita pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva aos empresários do país para que ajudassem na melhoria da educação, o Epis está voltado para o combate ao insucesso e ao abandono escolar e para o desenvolvimento de boas práticas de gestão educacional. Mais de 80 empresas, entre elas a Odebrecht Bento Pedroso Construções (BPC), apoiam o programa.
“Nós fazemos o acompanhamento individual do aluno em dificuldade”, relata Isabel Duarte, que conseguiu reverter a situação escolar de Soraia Caetano, que não pensa mais em abandonar os estudos. Pelo contrário: passou a gostar de estudar, obtém boas notas e ainda encontra tempo para treinar e jogar como guarda-redes (goleira) do time jovem de futebol feminino do Benfica.
Outra adolescente que teve sua relação com a escola transformada pelo relacionamento com Isabel Duarte foi Tatiana Mendes, também do 9º ano da EB 2/3 Cardoso Lopes, cuja vida, um ano atrás, segundo a estudante, “era só vadiar”. Hoje, Tatiana, que quer ser estilista, tira as melhores notas em Educação Visual de sua turma. Sobre o trabalho da mediadora, Tatiana reconhece: “O mais importante foi ela conversar comigo”.
Soluções simples
“Fazemos um trabalho complementar ao da escola. Por meio de um acompanhamento individual extraclasse, ajudamos os alunos a adotar rotinas simples, mas que podem ser decisivas para seu desenvolvimento”, esclarece Diogo Simões Pereira, Diretor do Epis. Uma dessas rotinas é aprender a estudar organizando melhor o tempo diário e definindo prioridades e concentrações. “Não ensinamos matérias, isso cabe aos professores das classes. Nem queremos mudar a vida dos alunos. Queremos apoiá-los para que tirem melhores notas, transformem sua relação com os estudos e percebam que a única perspectiva de futuro é através da escola, pois é ela que oferece a certificação necessária para a inclusão social”, afirma Diogo.
Para dar conta de seus desafios, o Epis desenvolveu uma tecnologia centrada na mediação. Os mediadores não são professores das escolas em que atuam. São personagens externos a elas. Dedicam-se a compreender as questões vividas pelo aluno em dificuldade escolar, em quatro âmbitos: consigo mesmo, com sua família, com seu território (comunidade) e com sua escola. Através do diálogo e do estímulo, buscam as soluções melhores e mais simples para superação das dificuldades. “Os professores da sala de aula, por mais que queiram, não têm tempo nem condições de fazer esse trabalho. Por isso estamos aqui”, diz Isabel Duarte, uma das 73 mediadoras do Epis que, em 2009 e 2010, acompanharam 5.812 alunos de 94 escolas do país.
Escolas do Futuro
A outra frente de trabalho do Epis tem como foco a gestão educacional. Denominado Escolas do Futuro, o projeto busca disseminar as melhores práticas das escolas portuguesas que apresentam bons resultados. Já foram identificadas 130 boas práticas. Reunidas em um livro dirigido a diretores, professores e pais, constituem referência para a melhoria da gestão educacional em Portugal, país que apresenta uma das maiores taxas de insucesso e abandono escolar da Europa. “Estamos atrasados, no campo da educação, em relação aos países da Europa do Norte e Central”, posiciona Diogo Simões Pereira. Ele explica: “Contribuiu para isso o fato de o ensino português, que há 20 anos era elitista, ter se universalizado, o que levou muitos jovens a serem os primeiros de suas famílias a ingressar na escola. Com isso, o desempenho médio baixou”. O movimento, porém, segundo ele, é temporário. Mais adiante, a qualidade geral do ensino voltará a crescer.
Solicitado por Odebrecht Informa a eleger duas das 130 práticas que implementaria de imediato, caso fosse designado diretor de uma escola portuguesa, ele apontou as seguintes:
- Conhecer muito bem o aluno e seu meio socioeconômico. Identificar aqueles que merecem tratamento especial (“em geral, 20% do total de cada turma, os demais têm condições de seguir sozinhos”) e focar neles.
- Apostar na proximidade dos pais à escola. Quando os pais acompanham a educação dos filhos, os resultados são melhores. Quando percebem que os pais não acompanham, os jovens passam a correr risco escolar.
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