Iniciativas socio-ambientais da Embraport, em Santos (SP), são referência no país
Ednaldo: transmissão de conhecimento para os filhos
Texto: Miucha Andrade | Fotos: Guilherme Afonso
O pernambucano Ednaldo Monteiro de Almeida começou a pescar lagosta aos 16 anos, em Olinda. Seis anos depois, instalou-se na Baixada Santista, em São Paulo, envolveu-se com pesca profissional oceânica e conheceu Uruguai, África do Sul e Ilha da Trindade, entre outros lugares. Passou a ficar períodos de três meses longe de casa e, quando a saudade da esposa e dos três filhos apertou, mudou o rumo da sua vida e foi trabalhar como auxiliar de campo na Embraport – Empresa Brasileira de Terminais Portuários, projeto da Odebrecht TransPort em parceria com a DP World, localizado à margem esquerda do Porto de Santos. Desde novembro de 2006, Naldo, como é conhecido, faz parte da equipe de Meio Ambiente da empresa e apoia biólogos na realização de programas ambientais que se tornaram referência.
A Embraport foi um dos primeiros empreendimentos da região a receber Licença Ambiental após um longo período sem que ocorresse a emissão dessas autorizações. “Por isso, os estudos elaborados para o terminal foram realizados com profundidade, abrangência e qualidade, servindo de modelo aos projetos seguintes”, explica a engenheira Regina Tonelli, Responsável por Qualidade, Saúde, Segurança e Meio Ambiente na Embraport. Desde 2006, a empresa já investiu R$ 8 milhões em 34 programas relacionados a flora, fauna, engenharia, arqueologia e a ações socioambientais, condicionantes para a instalação do projeto.
Naldo começou no apoio ao salvamento de 34 mil plantas como orquídeas, bromélias, cactos, samambaias e antúrios, entre outras espécies. Essas plantas foram doadas para instituições diversas, a fim de serem utilizadas em projetos de recuperação e enriquecimento de áreas degradadas na região do entorno, além de contribuir para as coleções dos parques municipais, como o Orquidário e o Jardim Botânico Chico Mendes, em Santos.
Os trabalhos na flora permitiram à Embraport ser pioneira na elaboração de um modelo matemático para determinação da biomassa dos ecossistemas de manguezal, restinga e campos úmidos. ”Foi uma grande contribuição para o meio científico, pois os resultados alcançados neste programa permitem a viabilização de projetos relacionados ao mercado de crédito de carbono para ecossistemas similares”, conta Regina Tonelli.
Treinamentos
Após um ano de trabalho com a flora, Naldo recebeu treinamentos especializados e começou a trabalhar com a fauna. Uma das atividades realizadas por ele é a pesca para o Programa de Monitoramento de Fauna Aquática. A cada dois meses, Naldo lança a rede no estuário do entorno da Embraport e pesca bagre, carapeba, parati e siri-azul, entre outras espécies. As amostras são encaminhadas para o Instituto de Pesca, em Santos, onde especialistas analisam em laboratório aspectos que podem estar relacionados aos impactos do projeto no meio aquático.
Um dos destaques dos programas de fauna é o de monitoramento do gavião asa-de-telha, pioneiro no uso da radiotelemetria no Brasil. Esse gavião é uma espécie ameaçada de extinção no estado de São Paulo e, por isso, mereceu um programa específico. Naldo participa dessa atividade e faz armadilhas para atrair os gaviões. “Faço iscas com frango, codorna ou porquinho-da-índia”, explica. Após a captura, o animal recebe um radiotransmissor, possibilitando seu monitoramento e contribuindo com propostas de conservação e preservação dessa ave de rapina no litoral paulista. “Minha função é ficar com o GPS e passar a posição para o biólogo responsável”, orgulha-se.
Mas não é só o gavião que encanta Naldo. Ele prefere trabalhar na identificação de aves da região do empreendimento. “Armamos uma rede para capturá-los, os identificamos com uma anilha e depois soltamos os bichos”, conta. Ele gosta tanto do assunto que já comprou quatro livros sobre aves. “Aprendo muito aqui e transmito o conhecimento para os meus filhos”, diz, satisfeito. “Quando saio para campo com os consultores, não tenho vergonha de perguntar.”
Após quatro anos de trabalho na Embraport e muitas capacitações, Naldo recebeu recentemente um bem-vindo reconhecimento. “Meu salário praticamente dobrou e agora posso investir na minha casa própria.” Frequentador da Praia do Guaiuba, no Guarujá, ele não dispensa o futebol do fim de semana e pretende comprar um carro em 2011. Hoje, aos 35 anos, ele percebe que trocar de profissão representou uma mudança significativa em sua vida.
Apoio às comunidades pesqueiras
Além da flora e fauna, a Embraport realiza programas com as comunidades pesqueiras da região. O Apoio à Pesca Artesanal visa capacitar os pescadores por meio de cursos profissionalizantes, de maneira a aprimorarem suas atividades. O programa possibilita, ainda, o apoio à manutenção das tradições e festividades das comunidades caiçaras e promove ações voltadas para a geração de renda. Desde 2006, a Embraport capacitou 400 pescadores e promoveu 37 cursos, como os de construção e reparo de embarcações e de manutenção de motores marítimos. E há o estímulo para os pescadores regularizarem sua documentação, como a Carteira de Identificação e Registro (CIR), por meio de cursos desenvolvidos pela Marinha do Brasil.
“Graças às capacitações que a Embraport proporcionou, muitos pescadores estão aptos para atuar em outras funções”, afirma Edson dos Santos Cláudio, Presidente da Colônia de Pescadores de Vicente de Carvalho. “Eles não perdem sua identidade, estão sempre com um pé na água e pescam durante as suas folgas”, salienta. “Meu maior orgulho é saber que alguns estão trabalhando no novo terminal.” Foi por intermédio de Edson que Naldo começou a trabalhar na Embraport.
Aos 75 anos, seu Edson, como é chamado por todos, já foi mecânico, vereador, assessor de prefeito e funcionário público. “Sempre fui ligado ao mar”, conta. Aposentado há 24 anos, nunca parou de trabalhar. Assumiu a Colônia dos Pescadores, filiada à Federação Estadual dos Pescadores, e apoia os associados e suas famílias com documentação básica para garantir o pagamento de benefícios sociais como INSS, auxílio-natalidade, seguro do defeso e aposentadoria. Seu objetivo é elevar o nível de vida dos pescadores para que possam sustentar sua família com dignidade. “Nesse sentido, o terminal traz benefícios e um futuro melhor para todos nós”, afirma.
IIha Diana: resgate histórico e cultural
A tranquila Ilha Diana está localizada a 20 minutos de barco do Porto de Santos, na foz do rio Diana, próximo do futuro Terminal Embraport. O acesso é feito somente por pequenas embarcações, com capacidade para 45 pessoas, em horários fixos de saída determinados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Com 29.463 m2, a ilha abriga 50 famílias e cerca de 200 pessoas. “Aqui somos todos parentes”, explica Elisa Maria da Silva Alves, moradora da ilha. São primos próximos que se ajudam para realizar compras de mercado, entre outras necessidades.
Elisa tem 32 anos, dois filhos e trabalha na brinquedoteca da comunidade. Lá, ela cuida de crianças a partir de um ano de idade, das 8h30 às 11h30. As crianças brincam soltas de esconde-esconde, de pular corda e jogam futebol no campo ao lado. A brinquedoteca era uma antiga casa que foi restaurada pela Embraport, de acordo com a arquitetura local. “Melhorou 100%. Nada melhor do que um espaço próprio para as crianças”, diz Elisa.
A restauração está inserida no Programa de Pesquisa e Resgate do Patrimônio Arqueológico, Histórico e Cultural da Ilha Diana e da área do Terminal Embraport. Durante a realização dos trabalhos, especialistas identificaram alguns sítios arqueológicos tipo sambaqui na ilha e na Embraport. Sambaqui é o nome dado aos depósitos de conchas feitos por homens indígenas que habitaram regiões do litoral brasileiro entre 4,5 mil e mil anos atrás. Atualmente, a empresa conserva um dos sítios e monitora outros sete.
Como parte desse programa, a Embraport realizou a Semana de Arqueologia, uma ação de educação patrimonial, com capacitação de professores, envolvimento de 1.300 alunos de escolas de ensino fundamental da região e distribuição de 1.400 exemplares de cartilhas didáticas sobre o tema.
Por ser a comunidade mais próxima, as primeiras oportunidades de trabalho da Embraport foram destinados a moradores da Ilha Diana. Desde a chegada da empresa, houve muitos benefícios em parceria com a Prefeitura de Santos, como a construção de muro de arrimo, reforma do píer de atracação de barcos, desenvolvimento de projeto paisagístico e doação do viveiro de mudas com plantas nativas, com a utilização de exemplares resgatados da área do terminal.
No viveiro trabalha Silvia Helena de Souza, de 42 anos, que antes vendia mariscos e caranguejos. “Vivia com um negócio incerto, não ganhava quase nada”, conta. “Agora, o dinheiro é garantido”, alegra-se. Silvia é contratada da Prefeitura de Santos e recebe um salário mínimo para cuidar das plantas no período das 7 às 13 horas. Adora esse trabalho e se sente realizada por poder executá-lo a poucos passos de sua casa. Junto com outras 38 pessoas, Silvia recebeu treinamento de 46 horas sobre fundamentos básicos de jardinagem, paisagismo, cultivo e reprodução de Orquídeas. “Quando a gente faz o que gosta, as plantas nos agradecem com as flores.”
Em 2011, por iniciativa da Embraport, a Ilha Diana receberá uma nova linha de transmissão de energia elétrica. Atualmente, a comunidade recebe energia por meio de um cabo antigo, que provoca oscilações frequentes e a queima de eletrodomésticos. A empresa está instalando a linha de transmissão com seus postes e cabos que chegarão até um poste com transformador na ilha, e, a partir daí, a Prefeitura, em parceria com a CPFL Energia, será responsável pela distribuição interna e pela iluminação pública.
O traçado da linha buscou minimizar os impactos ambientais. Os cabos de transmissão terão altura máxima de 11 m, superior à da atual vegetação, evitando o corte de árvores. A chegada da nova linha de energia à ilha trará para a população um salto expressivo na qualidade de vida, evitando desperdício, perda de alimentos e de eletrodomésticos.
Galeria de Fotos
Ednaldo: transmissão de conhecimento para os filhos
Regina: contribuição para o meio científico
Edson dos Santos Cláudio, Presidente da Colônia de Pescadores de Vicente de Carvalho
A brinquedoteca da Ilha Diana: espaço para o lazer e o aprendizado das crianças
Elisa Maria da Silva Alves, moradora da ilha
Silvia: fazendo o que gosta
Jovem na brinquedoteca da Ilha Diana, em Santos (SP). O imóvel foi restaurado pela Embraport