24 de maio de 2013
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LAGOA MUNDAÚ
A vida que emana das lagoas
Em Alagoas, 37 municípios são beneficiados por uma iniciativa que, muito mais que trabalho e renda, gera uma relação de complementaridade entre o ser humano e o meio ambiente
Encontro das águas da Lagoa Mundaú com o mar: beleza que impressiona e inspira mudanças
Texto: Rubeny Goulart | Fotos: Élvio Luiz

Há muita vida pulsando em torno do complexo lacustre Mundaú-Manguaba, em Alagoas, onde se concentram as ações do Projeto Lagoa Viva, patrocinado pela Braskem. Quando foi criado, em 2001, o projeto se resumia ao trabalho de educação ambiental na Escola de Ensino Fundamental Silvestre Péricles e abrangia a comunidade do bairro do Pontal da Barra, às margens da Lagoa Mundaú e próxima à Unidade Cloro-Soda da empresa. Uma década depois, além da conscientização ecológica, o Lagoa Viva desenvolve projetos para geração de trabalho e renda em 37 municípios, envolvendo 481 escolas de educação básica da região, 230.715 alunos e 9.502 educadores ambientais.

A preservação do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba, um dos mais importantes do país, porém, continua sendo o foco principal do Instituto Lagoa Viva, uma organização não governamental criada para gerir os projetos ambientais da região. As duas lagoas, apesar do trabalho de conscientização ali desenvolvido, ainda sofrem com a degradação ambiental provocada pelo assoreamento acelerado, o despejo de dejetos industriais e esgotos oriundos de Maceió e cidades circunvizinhas. A ação desses sedimentos afeta direta e indiretamente os cerca de 260 mil habitantes que vivem no entorno das lagoas, dos quais 5 mil são pescadores.

As parcerias firmadas com as secretarias de Educação de Alagoas e dos municípios próximos ao complexo Mundaú-Manguaba permitiram uma ação mais abrangente e integrada do Lagoa Viva, cuja atuação alcança áreas de preservação e conservação do bioma Mata Atlântica e seus ecossistemas, formados por restingas, caatingas, manguezais, recifes de corais e parte do Rio São Francisco. Hoje, além de contribuir para a Formação Continuada de Professores em Educação Ambiental da Rede Pública de Ensino, o Lagoa Viva atua na capacitação profissional da comunidade.

Média de 224 eventos por ano
Mantido pela Braskem desde 2001, o Lagoa Viva é executado por meio de convênios com escolas, universidades e prefeituras. Anualmente, o instituto realiza, em média, 224 eventos, entre palestras e seminários voltados para a educação ambiental, além de cursos e oficinas diversas, como de apicultura, hidroponia, reciclagem de materiais, artesanato e inglês. “O objetivo do programa é despertar nas pessoas a consciência das questões ambientais e mobilizá-las para ações pontuais”, explica Milton Pimentel Pradines Filho, Responsável por Relações Institucionais da Braskem em Alagoas.

Os mais de 417 projetos do Lagoa Viva em andamento, na forma de palestras, oficinas e trabalhos de campo, levam em conta as potencialidades e a vocação de cada município. Assim, se nas áreas ribeirinhas do bairro do Pontal incentiva-se a piscicultura de subsistência e a produção de rendas ou “filés”, como é denominado o artesanato local, em pelo menos sete comunidades rurais do município de Teotônio Vilela estão sendo desenvolvidos projetos de meliponicultura, a cultura do mel de abelha-sem-ferrão, nativa do Brasil. Já em Santana do Mundaú, um dos municípios mais prejudicados pelas enchentes que atingem a região, prevalece o cultivo de laranja-lima enxertada.

A abundância de água em Maceió, uma região cercada pelo mar e por lagoas, é a inspiração maior para boa parte dos projetos do Lagoa Viva. Tudo, de alguma forma, remete às lagoas, que, dada à beleza do lugar, são utilizadas para passeios turísticos e a prática de esportes náuticos. A conscientização sobre o meio ambiente, em especial a preservação dos 27 km2 da Lagoa Mandaú e dos 42 km2 da Lagoa Manguaba, está diretamente ligada à subsistência econômica das comunidades locais, que vivem da pesca e da comercialização de peixes, crustáceos e moluscos típicos da região, como sururu, lambreta e maçunin.

O Complexo Mundaú-Manguaba também é cenário do Ecovela/Braskem, evento que tem como atrações principais uma gincana para retirada de lixo das lagoas por jangadeiros e uma competição de canoas à vela. A adesão de municípios ao evento, que está na sétima edição, aumenta a cada ano. Em sua última versão, em 2010, contou com a participação de moradores de Maceió, Coqueiro Seco, Marechal Deodoro, Pilar, Santa Luzia do Norte, Barra de São Miguel, Roteiro, Penedo, Piaçabuçu e até das comunidades sergipanas de Brejo Grande e Neópolis. Em três dias, foram retirados das lagoas mais de 15 t de lixo.

Técnicas de cultivo
Mesmo fora das lagoas, a água também é o combustível vital para o projeto de produção de verduras e legumes hidropônicos, que está sendo implementado pelo Lagoa Viva em escolas, áreas comunitárias e assentamentos rurais da região sob a coordenação do técnico agrícola Robson Araújo, 27 anos. Robson participa do programa desde 2003 e, além de formar professores e alunos no desenvolvimento de técnicas de cultivo de hortas hidropônicas e orgânicas, frutas, hortaliças, leguminosas e ervas medicinais, realiza experiências com espécies vegetais nativas em extinção, como a sucupira-branca e o murici. “O Lagoa Viva foi uma bênção para a natureza e uma grande oportunidade profissional para muitos”, diz Robson.

É visível, no Lagoa Viva, a associação entre a conscientização ecológica e o seu viés profissionalizante, uma vez que, por definição, todas as ações de capacitação resultam em intervenção no ambiente natural. Por essa razão, todos que participam de quaisquer dos projetos do Lagoa Viva precisam cumprir o currículo mínimo de 20 horas-aula dos cursos e palestras do programa. “É importante transmitir a todos essa ideia de que a atividade econômica depende do ambiente e vice-versa”, explica a professora Lenice Santos de Moraes, Presidente do Instituto Lagoa Viva. Além disso, há um permanente esforço de integração entre a academia e o projeto. Por intermédio de convênio entre a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a Braskem e o Instituto Lagoa Viva, cerca de 150 professores de escolas públicas municipais já fizeram cursos de Gestão e Especialização em Meio Ambiente.

A síntese da capacitação profissional com a consciência ecológica pode ser percebida na atitude de Jamile Talita, 25 anos, integrante do Lagoa Viva desde 2003, ano em que fez a oficina de “filé”. “Nossa vida, cultura e sobrevivência estão intimamente ligadas ao ambiente”, diz ela. Ao aprimorar a técnica que, na tradição local, é passada de mãe para filha, ela ajudou a aumentar a produção familiar vendida nas lojas de artesanato locais, hoje em torno de 50 peças/mês. “Uma renda extra sempre ajuda e permite que a gente dê passos maiores”, diz Jamile, que também é aluna do curso de inglês, promovido pelo Instituto Lagoa Vida e ministrado pela Casa de Cultura Britânica da Faculdade de Letras e da Pró-Reitoria de Extensão da Ufal.

Até o fim dos anos 1990, a capacitação profissional não fazia parte do projeto ambiental da Unidade Cloro-Soda, então controlada pela Trikem, empresa da Organização Odebrecht. O Projeto Lagoa, como era chamado, estava voltado apenas para a comunidade do bairro do Pontal, onde vivem cerca de 4 mil pessoas. “Tínhamos que ampliar o espectro da educação ambiental para outras ações que envolvem a comunidade”, diz o Diretor Industrial Álvaro Cezar de Almeida, que participou, à época, das gestões para implantar a nova orientação do programa, já denominado Lagoa Viva.

Em 2003, nascia o Instituto Lagoa Viva, com a gestão da professora Lenice, que era diretora de uma escola local, e seu irmão Jorge Mário, já falecido. Os novos gestores, muito ligados à militância ambiental, trouxeram uma série de sugestões que ampliou o espectro do programa, como a produção de eventos e as oficinas de capacitação profissional, voltados não apenas para professores e alunos das escolas, mas para toda comunidade. Em 2007, motivado por debates entre os educadores ambientais do Lagoa Viva, foi criado o Projeto de Intervenção e Integração Escola/Comunidade, para sistematizar a prática dos conceitos de educação ambiental nas escolas municipais. Uma das principais medidas foi a constituição de uma Comissão de Meio Ambiente nas escolas para integrar educadores, alunos e a comunidade em ações socioambientais. Como, a cada ano, novos municípios ligados ao Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba vão se incorporando ao Lagoa Viva, cresce a demanda por novos projetos.

O objetivo é que, no futuro, cada município do estado esteja incorporado ao projeto, que os estudantes tenham uma sólida formação ambiental - contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes em relação ao meio ambiente – e que mais empresas participem da manutenção do Lagoa Viva.
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  • Criança brincando na água: vidas do entorno das lagoas
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