Executado nos anos 1980 e 1990, Projeto de Irrigação Formoso levou prosperidade à região de Bom Jesus da Lapa, na Bahia
Denivaldo e a esposa, Ildenice: ele trabalhou nas obras de Formoso, como operador de trator, e, depois, tornou-se produtor
Texto: Júlio César Soares | Fotos: Beg Figueiredo
Localizada às margens do Rio São Francisco, no oeste da Bahia, Bom Jesus da Lapa é famosa por ser o destino de mais de 1 milhão de romeiros católicos que todos os anos vão à Igreja de Bom Jesus da Lapa, construída dentro da gruta do Bom Jesus. Aos poucos, a cidade vai ficando conhecida também por sua chegada a uma condição que até alguns anos parecia impossível: a de polo produtor de banana. Bom Jesus da Lapa está conseguindo isso graças ao Projeto de Irrigação Formoso, executado pela Odebrecht entre 1988 e 1999.
Denivaldo Antonio de Brito é um dos que participam dessa história desde o início, em 1988. Além de produtor e funcionário do Distrito de Irrigação Formoso (DIF) – associação de produtores da região –, Denivaldo era operador de trator nas obras de Formoso.
“Eu trabalhava em uma fazenda e, em 1988, vim trabalhar para a Odebrecht”, ele relembra. “Assim que a obra foi concluída, recebi o convite da empresa para atuar em Angola. Mas a Codevasf me ofereceu um lote de 4 ha e a oportunidade de trabalho no distrito. Acabei aceitando”, conta. Denivaldo é um dos 910 pequenos produtores do projeto, que conta ainda com 225 produtores com lotes maiores, conhecidos como produtores empresariais.
Mais de 1.100 lotes irrigados
Formado por dois setores, Formoso A e Formoso H, o projeto foi inteiramente concluído em 1999. Ao todo, conta com 1.165 lotes irrigados em uma área de 12 mil ha. Para que a água tenha força para chegar às plantações, são utilizadas duas estações de bombeamento e 29 estações de pressurização. A água é levada aos lotes por meio de 82,5 km de canais de irrigação e 207 km de redes de aspersão.
Formoso inseriu na região de Bom Jesus da Lapa técnicas de agricultura e de negócio até então desconhecidas
André Rabello, Diretor-Superintendente da Odebrecht no Panamá e ex-Diretor do Contrato, afirma que o projeto inseriu na região de Bom Jesus da Lapa técnicas de agricultura e de negócio até então desconhecidas. “Formoso trouxe vigor para a economia local e regional, com técnicas e cultura empresarial na cadeia produtiva agrícola”. André também destaca o desenvolvimento da região com a geração de oportunidades de trabalho após a entrega do contrato. Formoso gera hoje 7 mil oportunidades diretas e 14 mil indiretas, e exporta 250 t/dia.
O objetivo: autossustentabilidade
A contratante da obra foi a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), empresa pública vinculada ao Ministério da Integração Nacional. “Nosso papel atualmente é apoiar o DIF na operação e manutenção da infraestrutura de uso comum do perímetro”, explica Antonio Carlos Monteiro de Andrade, Gerente Regional de Empreendimentos de Irrigação da Codevasf. “O ideal é que o projeto se torne autossustentável, e estamos caminhando nessa direção.”
Para que isso ocorra, o DIF entra em ação. Além de cuidar do fornecimento de água e de atuar como canal de comunicação entre o produtor e a Codevasf, apoia as associações de produtores que investem na tecnologia para aumentar o número de culturas plantadas em Formoso.
“Trabalhamos agora para implantar uma nova cultura em alguns lotes. Recentemente, concluímos um viveiro para iniciar experimentos no plantio de limão e estamos caminhando bem”, relata Antonio Marcio Rodrigues, Presidente do Conselho Administrativo do DIF. A iniciativa chamou atenção da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que, para auxiliar os produtores, há pouco tempo visitou o projeto.
A princípio, Formoso seria um polo exportador de grãos. Após a metade da década de 1990, porém, a banana tornou-se a principal cultura da região, seguida de longe pelo mamão, cacau e melancia. Mas não é só do plantio que vivem os beneficiados pelo projeto.
Rita de Cássia Fontes Teixeira deixou para trás o emprego como zootécnica para se tornar a Presidente da Associação das Mulheres Fortes, que desenvolve artesanato a partir da fibra da banana. “Sempre fui apaixonada pelo artesanato, mas o trabalho nas fazendas consumia todo meu tempo. Formoso foi a chance que eu tive de viver daquilo que gosto”, diz. A associação conta com o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) da Bahia e com o Projeto Amanhã, desenvolvido pela Codevasf para fixar o colono em Formoso.
A maior parte da produção da associação atende ao mercado local. “Participamos de feiras, normalmente indicadas pela Codevasf, e temos parceria com uma loja de móveis de Bom Jesus da Lapa”, explica Rita. Ela planeja voos mais altos. O computador, comprado com o dinheiro recebido por meio da venda de artesanato, espera pela conexão com a internet para divulgar o projeto pelo mundo. Perguntada se sente saudade da vida de zootécnica, Rita sorri. “Não. Hoje em dia sou mais feliz e vivo com melhor qualidade.”
Galeria de Fotos
Denivaldo e a esposa, Ildenice: ele trabalhou nas obras de Formoso, como operador de trator, e, depois, tornou-se produtor
O crachá de Denivaldo: presente em Formoso desde o início, em 1988
Rita de Cássia: “Formoso foi a chance que eu tive de viver daquilo que gosto”
Agricultores trabalham em um dos lotes do projeto: implantação de novas culturas