Conheça o conjunto de ações voltadas para a preservação do Rio Madeira durante a construção da Usina Santo Antônio
Rio Madeira, em Rondônia
Texto: Cláudio Lovato Filho | Fotos: Ricardo de Sagebin
O personagem principal desta história é um rio. Seu nome, Madeira. Afluente do Amazonas, ele carrega em suas águas a expectativa do surgimento de um novo e poderoso vetor de desenvolvimento para Rondônia e o país: a Hidrelétrica Santo Antônio, que deverá começar a produzir energia em dezembro de 2011.
Esse rio, margeado por igarapés e cujos formadores nascem nos Andes e na chapada dos Parecis, em Mato Grosso, também é o cenário de ações ambientais inéditas voltadas para sua preservação. Trabalhando em plena Amazônia, as equipes do Consórcio Construtor Santo Antônio, formado pelo Consórcio Santo Antônio Civil (CSAC) – do qual fazem parte a Odebrecht e a Andrade Gutierrez – e pela Odebrecht (responsável pela montagem eletromecânica), têm a missão de construir uma usina de proporções gigantescas, dotada de 44 turbinas, e assegurar a manutenção da qualidade da água do rio. A superação desse desafio de preservação, vivenciada no dia a dia da execução do projeto, está transformando Santo Antônio em referência para futuros projetos hidrelétricos no Brasil e no mundo.
Iniciada em setembro de 2008, a construção da usina foi objeto de um dos mais completos e avançados estudos de impacto ambiental (EIA) já realizados para a execução de um empreendimento hidrelétrico, o que o transformou em marco e modelo no Brasil. Participaram da elaboração desses estudos especialistas e perquisadores da região Amazônica, que se dedicaram de forma exclusiva ao projeto.
Os resultados alcançados propiciaram um grande avanço do conhecimento sobre o meio ambiente da bacia do Rio Madeira e orientações para sua preservação. O uso de turbinas Bulbo é um exemplo disso. Esse tipo de turbina, por trabalhar com altas vazões e pequenas quedas, possibilita a construção de barragens baixas e, como consequência, a redução da área inundada (em Santo Antônio, ela será praticamente inexistente), resultando nos menores impactos ambientais possíveis decorrentes da implantação do empreendimento. As características naturais do Madeira, um rio com grande volume de água na maior parte do ano, permitiram a utilização dessas turbinas.
Uma obra como Santo Antônio, com seu porte, importância e localização, exige de seus construtores aquela insatisfação permanente que leva à busca e à identificação constante de novas e melhores soluções. Tratando-se de meio ambiente, no caso da Hidrelétrica Santo Antônio, a inquietação – por melhores que sejam os resultados alcançados até então – é uma marca registrada.
“Antes de a obra começar, ainda durante a etapa de planejamento, identificamos todos os processos que seriam executados ao longo da construção da usina e seus respectivos impactos ambientais”, relata Nelson da Costa Alves, Gestor do Negócio Meio Ambiente do CSAC, que há 11 anos é integrante da Odebrecht. “Em relação à água, realizamos aqui um controle integrado. Apoiamos e acompanhamos todas as frentes de serviço e a sua relação com os recursos hídricos, nas duas margens do rio.”
Monitoramento da qualidade da água
Um dos destaques entre as ações para preservação do Rio Madeira é o monitoramento da qualidade da água em tempo real, realizado de forma contínua em três estações, uma a montante (rio acima) e as outras duas a jusante (rio abaixo) do local onde está sendo construída a barragem, conhecido como cachoeira de Santo Antônio.
Implantado em parceria com a empresa Ecology Brasil, o sistema de monitoramento é composto de sondas que fornecem, via satélite, informações sobre os seguintes parâmetros: temperatura da água, condutividade elétrica, oxigênio dissolvido, saturação de oxigênio, pH (potencial hidrogeniônico), ORP (potencial de redução de oxidação), sólidos dissolvidos e turbidez. Além do monitoramento em tempo real, trimestralmente são coletadas amostras para análise laboratorial de 121 variáveis físicas, físico-químicas, químicas e biológicas.
Esses dados são enviados a um laboratório móvel flutuante, que acompanha a realização de cada serviço nas margens direita e esquerda que possa afetar a qualidade da água. Essa foi uma das iniciativas de preservação ambiental que pesaram de maneira decisiva na obtenção, pela obra, da Certificação ISO 14000, em setembro de 2010.
“A Hidrelétrica Santo Antônio está sendo construída sem que haja alteração na qualidade da água do Rio Madeira”, afirma José Bonifácio Pinto Júnior, Diretor-Superintendente da Odebrecht Energia. Ele participa do projeto desde 2001, quando foram realizados os primeiros estudos de viabilidade para o aproveitamento energético do Rio Madeira. “Sempre tivemos a certeza de que seria assim”, complementa.
As palavras de Bonifácio encontram reforço na argumentação de Paulo Varella, Diretor da Agência Nacional de Águas (ANA). “No segundo semestre de 2010, acompanhei o então Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente, José Machado, em visita ao canteiro de obras de Santo Antônio. A impressão que tive foi de que visitava uma obra executada em ritmo acelerado, que, por um lado, usa o que há de mais moderno em tecnologia e, por outro, exercita na prática o conceito de sustentabilidade”. Varella complementa: “A Amazônia tem um enorme potencial hidrelétrico, mas é um ecossistema de importância vital que precisa ser explorado de forma racional e sustentada. Creio que Santo Antônio é um dos exemplos mundiais que mostram que é possível preservar e desenvolver com responsabilidade socioambiental”.
Reagente orgânico
Trabalham hoje na construção de Santo Antônio cerca de 14 mil pessoas. É a população de uma cidade. No canteiro de obras, 100% do esgoto sanitário é tratado em duas estações de tratamento de esgoto (ETEs), estruturas modulares instaladas nas duas margens.
O tratamento da água para uso humano e industrial é feito em cinco estações de tratamento de água (ETAs) – três para água potável e duas para água destinada a processos industriais. Dez municípios de Rondônia, entre eles Porto Velho, estão adotando o modelo de tratamento de água e esgotos aplicado no canteiro de Santo Antônio. “Isso é muito gratificante”, diz Nelson Alves. “É quando as ações da empresa ‘saem’ do perímetro da obra e geram uma interface muito positiva com a comunidade.”
O processo de concepção, implantação e operação das ETAs no canteiro de Santo Antônio foi descrito no projeto “ETA Ecológica de Ciclo Fechado: tratamento com reagentes orgânicos e reaproveitamento da água do lodo gerado”, vencedor do Prêmio Destaque de 2010 da Organização Odebrecht na categoria Meio Ambiente.
De autoria de Anelisa Cantieri, integrante da equipe de Nelson Alves, o trabalho apresenta uma solução inovadora: o uso de um polieletrólito catiônico de baixo peso molecular produzido a partir do tanino extraído da casca da acácia negra em vez do sulfato de alumínio. Seu nome comercial é Veta Orgânica.
Utilizado na maioria das estruturas de tratamento de água no Brasil, o sulfato de alumínio é um reagente químico que, descartado no meio ambiente, é de difícil degradabilidade, por ser um metal pesado, representando risco para a fauna e a flora.
A decisão de realizar um tratamento sem descarte de resíduos que poderiam prejudicar o meio ambiente e de reaproveitar o efluente levou ao uso do reagente orgânico à base de tanino. O efluente (lodo) gerado na lavagem dos decantadores e filtros recircula nos tanques de armazenamento de água industrial já tratada, depois de passar por um sistema formado por geoformas e bolsões porosos, que retêm o lodo e libera água limpa. Isso faz com que diminua a necessidade de captação de recursos naturais, sobretudo a água. O lodo, por sua vez, por causa do uso de reagente orgânico, é transformado em adubo, empregado no reflorestamento de áreas do canteiro de obras.
As cinco ETAs do canteiro de Santo Antônio possuem esse sistema. A capacidade de tratamento é de 560 m3/h de água, sendo 400 m3/h de água industrial e 160 m3/h de água potável. “Temos aqui uma cidade independente da cidade”, diz Nelson Alves, referindo-se ao canteiro e a Porto Velho, distante 7 km da obra.
Na Central de Concreto, instalada na margem esquerda, o reúso de água também é palavra de ordem. Parte da água tratada nas ETAs é destinada à fabricação de concreto, e a água utilizada na lavagem dos caminhões-betoneiras é tratada em cinco piscinas de decantação e usada novamente na lavagem dos caminhões.
“Tentamos fazer com que nossa gestão ambiental seja simples, flexível e leve, de maneira a facilitar sua compreensão e prática por cada um dos trabalhadores do canteiro de obras. Só assim conseguiríamos os resultados esperados de conscientização em uma obra na qual 80% do efetivo jamais havia trabalhado em um projeto de engenharia e construção”, salienta Nelson Alves. “Temos obtido respostas excelentes, e as comunidades vizinhas, onde vive a maioria dos trabalhadores de Santo Antônio, vêm se beneficiando disso, porque as pessoas levam para lá o que aprendem aqui”. A equipe do Programa de Meio Ambiente da Usina Santo Antônio, liderada por Nelson Alves, é composta de 75 pessoas, entre elas o corpo técnico-operacional. Desses profissionais, 70 são de Rondônia.
“As medidas para preservação ambiental colocadas em prática como parte da construção da Hidrelétrica Santo Antônio são muito positivas e exemplificam as melhores práticas em âmbito mundial”, afirma John Redwood, consultor de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, ex-Diretor de Desenvolvimento Sustentável Ambiental e Social do Banco Mundial. “Esse conjunto de ações deve, sem dúvida, ser considerado como referência e merece estudo cuidadoso e detalhado, além de ampla disseminação”. Redwood acrescenta: “A Odebrecht tem acumulado conhecimento ao longo de muitos anos de experiência em projetos relacionados à água e vem colocando em prática o melhor do que aprendeu.”
Modelo reduzido
Várias outras ações têm papel relevante na preservação do meio ambiente da área da obra e, em especial, do Rio Madeira. A explicação sobre o nome do rio, aliás, remete a um dos grandes desafios do projeto: uma das características do rio é a grande concentração de sólidos em suas águas, principalmente madeira (troncos e galhos) e sedimentos, fenômeno associado à sua origem nos flancos erosíveis dos Andes.
O manejo desses sólidos mereceu um dos maiores estudos realizados em Santo Antônio. A decisão foi implantar boias em forma de tubulação que irão direcionar a passagem de troncos e galhos por um canal do rio em uma área lateral da barragem.
Esse e outros recursos – como o Sistema de Transposição de Peixes (STP), que possibilitará a passagem de espécies da área de jusante para a de montante e garantirá as condições ideais para sua reprodução – foram testados com a utilização do recurso de modelo reduzido, em Rondônia e no Rio de Janeiro.
O monitoramento da qualidade da água é feito em tempo real, de forma contínua, em três estações
O STP foi testado em um modelo reduzido construído na cachoeira de Teotônio, 20 km a montante do local de execução da Hidrelétrica Santo Antônio. Um outro modelo reduzido, executado na escala 1:80 (um por oitenta), a um custo de R$ 10 milhões, mostrando a usina completa, foi construído na Subestação São José de Furnas, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. É uma maquete gigantesca que ocupa uma área de 4 mil m2 e permite a realização dos ensaios das atividades necessárias ao desenvolvimento da obra, a verificação da funcionalidade das estruturas de concreto e a avaliação do comportamento dos sedimentos. O desvio do Rio Madeira, planejado para julho de 2011, está sendo simulado no modelo reduzido, que foi projetado pela empresa PCE Engenharia.
“Aqui conseguimos antecipar situações que serão enfrentadas na obra e oferecer alternativas para sua solução”, explica o engenheiro Edgar Fernando Trierweiler Neto, de Furnas (empresa que lidera, com a Odebrecht, a empresa Santo Antônio Energia, encarregada da operação da usina por 30 anos). Edgar compartilha a responsabilidade pelo modelo reduzido com o engenheiro Pedro Ernesto Albuquerque Souza, da empresa Engevix.
Integração de atividades
Investimentos como esse fazem parte de um cenário bastante complexo em que se destaca não apenas a expectativa de uma futura geração de energia de 3.150 MW, fundamental para o país, mas também uma preocupação genuína com a proteção de um ecossistema rico e crucial para o Brasil e para o mundo.
Henrique Chaves, Professor da Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UNB) e consultor, é autor de um trabalho acadêmico que mostra a integração das diversas atividades em Santo Antônio relacionadas à água. “A Odebrecht tem buscado, de forma racional e integrada, a redução dos impactos ambientais sobre os mananciais, o que contribui de maneira efetiva para a preservação da quantidade e da qualidade da água na área de influência de suas obras.”
Em Santo Antônio, chamaram sua atenção, em especial, o uso racional da água para abastecimento do canteiro, o tratamento de esgotos, a reciclagem dos resíduos sólidos e a proteção dos mananciais por meio da revegetação dos taludes do canteiro e dos bota-foras (áreas de descarte de materiais não aproveitados na obra). “Essas atividades contribuem para a preservação da qualidade da água do Rio Madeira, do solo e da vegetação na área de influência da obra.”
O trabalho de preservação ambiental realizado em Santo Antônio, segundo Henrique Chaves, transformou a obra em referência para futuros projetos hidrelétricos no Brasil. “São iniciativas inovadoras e de grande impacto, inéditas em obras de grande porte no país.”
Galeria de Fotos
Rio Madeira, em Rondônia
O laboratório flutuante
Uma das estações de monitoramento da qualidade da água
Integrante da Ecology Brasil com uma das sondas instaladas nas estações
Integrante da Ecology Brasil com uma das sondas instaladas nas estações
Trânsito rápido no Madeira: ribeirinhos se deslocam no rio usando pequena embarcação chamada de “voadeira”