Para preservar as águas do Rio Sabor, em Portugal, ações de minimização e compensação ambiental são desenvolvidas por meio de 12 programas
Rio Sabor, em Portugal
Texto: Fabiana Cabral | Fotos: Holanda Cavalcanti
Entre as montanhas à margem do Rio Sabor, António Augusto Salvador, 62 anos, assobia para indicar o caminho dos pastos ao seu rebanho. Com a ajuda de um mastro de bambu para apoiar-se, ele percorre, diariamente a região, acompanhado de 110 ovelhas e dois cachorros. “Sou pastor de ovelhas e nasci para isso. Só sei fazer isso”, conta sorridente.
A poucos quilômetros dali, Paula Cristina Lopes Sendas Costa, proprietária do Café Tic Tac, anda de lá para cá com agilidade para atender todos os seus clientes. “Pela manhã, muitas pessoas vêm para fazer o pequeno almoço [tomar o café da manhã] e à noite reúnem-se para conversar e jogar cartas. Virou ponto de encontro”, ela comenta sobre seu primeiro negócio.
Antônio e Paula são moradores do município de Torre de Moncorvo, no distrito de Bragança, na região norte de Portugal. Originária do século 13, a cidade montanhosa, de cerca de 10 mil habitantes, fica perto da fronteira com a Espanha e da confluência dos rios Sabor e Douro, que nascem em território espanhol.
No trecho do Rio Sabor em Torre de Moncorvo, o Agrupamento Complementar de Empresas (ACE), formado pela Odebrecht-Bento Pedroso Construções (BPC) e Lena Construções, realiza, desde 2008, as obras civis do Aproveitamento Hidrelétrico (AHE) do Baixo Sabor para a EDP – Gestão da Produção de Energia S.A.
O projeto integra o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidrelétrico (PNBEPH), criado pelo Governo português em 2007. “A instalação desta e de outras barragens e os reforços de potência das já existentes garantem a autonomia de Portugal na geração de energia, cuja capacidade subirá de 60% para 76% até 2020”, explica Gilberto Costa, Diretor de Contrato. “Além de minimizarem a dependência energética do exterior, os escalões irão reforçar o sistema de abastecimento elétrico. As barragens reversíveis, como as do Baixo Sabor, podem armazenar água para os períodos de maior consumo, aproveitando a energia excedente das eólicas”, acrescenta Carvalho Bastos, Representante da EDP.
O AHE do Baixo Sabor será constituído de duas barragens, a montante e a jusante (rio acima e rio abaixo) do Sabor, equipadas por sistemas reversíveis – de turbinagem e de bombeamento – para equilibrar o consumo e o desperdício de energia e armazenar água. Seus reservatórios, que ficarão dispostos entre as cidades de Torre de Moncorvo, Alfândega da Fé, Mogadouro e Macedo de Cavaleiros, darão origem à mais significativa reserva de água na bacia hidrográfica do Rio Douro, em território português. “Isso irá duplicar a contenção de água no Douro”, diz Gilberto Costa. Carvalho Bastos reforça: “O Baixo Sabor também aumentará a capacidade das outras barragens já instaladas ao longo do Douro”.
Os escalões contribuirão ainda para reduzir as emissões de gases que contribuem para o efeito estufa, regular a distribuição de água na região, sobretudo em épocas de seca, controlar as cheias e rentabilizar a energia excedente proveniente dos parques eólicos.
Os sistemas de turbinagem e de bombeamento irão recuperar o desperdício das eólicas funcionando dos “dois lados”. Em determinados períodos, em vez de turbinar a água para gerar energia, utiliza-se a das eólicas para bombeá-la e armazená-la nos reservatórios, à espera dos ciclos de maior consumo. “A principal atividade de jusante será a contenção da água, enquanto a de montante, a principal, a produção de energia elétrica. O bombeamento será feito do Rio Douro para o Rio Sabor, e a turbinagem ocorrerá do Sabor em direção ao Douro”, explica Carlos Matos, Responsável pelas obras na jusante.
Um rio selvagem
Ao contrário do Douro, que possui seis barragens no lado português e sete no território espanhol, o Rio Sabor é conhecido como o “último rio selvagem da Europa”, por não possuir influências humanas, com exceção das atividades de pequenos agricultores.
Para preservar as águas do “rio selvagem” e a vida animal e vegetal do seu entorno, o ACE Baixo Sabor desenvolve várias ações de minimização e compensação ambiental, com o apoio da EDP e de instituições parceiras. São 12 programas ligados à fauna e à flora, aos ecossistemas aquáticos, à qualidade do ar e da água e à conservação do patrimônio histórico e cultural da região, com 140 técnicos ambientais envolvidos no Plano de Gestão Ambiental da Obra (PGAO).
De acordo com Augusta Fernandes, Coordenadora do Sistema de Gestão Integrado – QAS (Qualidade, Meio Ambiente e Segurança) do ACE, o principal objetivo é evitar a contaminação da água do rio. “Com o Programa de Monitoramento da Qualidade da Água, realizamos análises mensais em 23 pontos distintos ao longo dos 80 km do rio. Temos 27 parâmetros de avaliação como acidez, carga orgânica e contaminação biológica, e também avaliamos a vida animal em todo o percurso. A documentação é analisada pela Comissão Ambiental da União Europeia.”
A implantação de medidas de controle de erosão e transporte de sedimentos – colocação de barreiras, proteção de taludes e manutenção da galeria ripícola (vegetação típica das margens de rios e lagos) –, e a instalação de estações de tratamento da água e do esgoto provenientes dos canteiros também fazem parte do programa. “Em três anos de obras, não identificamos nenhuma alteração na qualidade da água”, pontua Augusta.
O AHE do Baixo Sabor começará a gerar energia elétrica a partir do segundo semestre de 2014. Porém, a EDP dará continuidade a todos os programas ambientais por mais 75 anos, como previsto em contrato.
Desenvolvimento local
O controle das cheias e o equilíbrio entre a produção e o consumo de energia não serão os únicos benefícios que o AHE do Baixo Sabor proporcionará aos moradores da região. “Com a grande massa de água formada pelos reservatórios, serão criadas zonas de irrigação de terras e áreas para a prática de esportes aquáticos, incentivando o turismo e o desenvolvimento econômico do interior do norte do país”, assegura António Monteiro, Gerente Administrativo-Financeiro do ACE.
Mesmo observando as obras de longe, o pastor de ovelhas António e a pequena empresária Paula já percebem mudanças. “As coisas estão melhores, porque há mais trabalho”, comenta António. “Eu espero mais movimento e mais turismo”, revela Paula.
Galeria de Fotos
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