22 de maio de 2013
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ENTREVISTA
Pensamento fluido
O escritório em Brasília é apenas um ponto de referência para esse baiano de Salvador, de 46 anos, que há três trabalha na Organização Odebrecht, mais precisamente na Odebrecht Energia. Luiz Gabriel Todt de Azevedo não para.
Luiz Gabriel Todt de Azevedo
Texto: Karolina Gutiez | Fotos: Bruno Veiga

Além da capital federal, onde vive com a esposa, Ivana, e dois filhos, Bernardo, de 12 anos, e Victor, de 15, o engenheiro civil divide seu tempo entre Rio de Janeiro, São Paulo, onde esta entrevista foi realizada, e cidades nas quais a empresa mantém projetos de energia. Eventualmente, ministra aulas e palestras em universidades como Harvard, nos Estados Unidos. E está presente, com frequência, em discussões ao redor do mundo sobre temas relacionados à sustentabilidade, em especial aquele que o fascina e com o qual soube que iria trabalhar desde a infância: a água.

A rotina sempre foi assim. Antes da Odebrecht, Gabriel, mestre em hidrologia e ph.D em recursos hídricos pela Colorado State University, instituição norte-americana de excelência nesse assunto, trabalhou durante 14 anos no Banco Mundial, dedicando-se a projetos envolvem o principal recurso natural em mais de 20 países da América Latina, África e Europa Central. Ocupou, ainda, o cargo de Vice-Presidente da WWF (World Wildlife Fund), a maior rede internacional de conservação da natureza. No Banco Mundial, financiou projetos da Odebrecht, vários hídricos, e, por isso, já conhecia muitos dos seus futuros colegas de trabalho.

Seu interesse pessoal pelos temas ligados ao desenvolvimento de países e comunidades explica o longo período de atuação profissional em uma agência multilateral. “Hoje, no entanto, sinto que contribuo mais para o desenvolvimento estando na Odebrecht do que no Banco Mundial. A Organização implanta projetos icônicos em âmbito mundial e isso é bastante motivador.”

Odebrecht Informa – Quais papéis a Odebrecht exerce quando o assunto é água?
Gabriel Azevedo
– A Organização desempenha quatro papéis essenciais. Somos, primeiramente, grandes usuários de água. Mas estamos buscando cada dia mais excelência e eficiência no uso. Com a Foz do Brasil, somos prestadores de serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de resíduos domésticos e industriais. Construímos, ainda, equipamentos de infraestrutura relacionados à água, como hidrelétricas, barragens, projetos de irrigação, emissários, adutoras etc. Por fim, atuamos como investidores em grandes empreendimentos hídricos, como a Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, e o Projeto de Irrigação Olmos, no Peru.

OI – Se você tivesse que traçar um cenário sobre esse recurso natural, no Brasil e em âmbito global, qual seria?
Gabriel
– A situação ainda não é alarmante, mas é muito complexa. E o que vai acontecer nos próximos 20 anos depende de nós. Nós governos, nós empresas, nós sociedade. A demanda global de água atualmente é de 4,5 trilhões de m/ano. Desses, 70% são destinados à agricultura, e a necessidade por alimentos só tende a crescer. A capacidade que o planeta tem de renovar esse recurso é de 4,3 trilhões de m/ano. Ou seja, já consumimos um pouco acima do potencial renovável, ainda que 1 bilhão de pessoas no mundo não tenham acesso à água e 2 bilhões sejam privados de saneamento básico. Se nada mudar na tendência atual, até 2030 a demanda vai aumentar 40%, passando para 6,9 trilhões de m/ano. O cenário impõe desafios ao planeta, mas oferece oportunidades fantásticas, sobretudo na nossa área de atuação. A Odebrecht tem uma enorme contribuição a dar na construção de panoramas alternativos, no Brasil e no exterior.

A situação ainda não é alarmante, mas é muito complexa. E o que vai acontecer nos próximos 20 anos depende de nós. Nós governos, nós empresas, nós sociedade.

OI – Que gols a Organização já marcou nessa disputa?
Gabriel
– Destaco projetos realizados pela Odebrecht quando eu ainda não trabalhava na Organização, mas com os quais tive contato, tanto como consultor, no início de minha carreira, como durante minha atuação no Banco Mundial. A construção da barragem de Seven Oaks, na Califórnia, Estados Unidos, na década de 1990, para o controle de inundações, foi criticada naquela época, mas reabriu o debate sobre grandes barragens no oeste americano e desmistificou o julgamento sobre o assunto (o projeto rendeu prêmios à Odebrecht posteriormente, entre eles o de Construtora do Ano de 1999 nos Estados Unidos). O Canal da Integração (hoje chamado de Eixão das Águas e em fase de conclusão dos trechos 4 e 5, no qual a Odebrecht, em consórcio, ficou responsável pelo trecho 3), complexo de estações de bombeamento, canais, sifões, adutoras e túneis que irão transpor as águas do Açude do Castanhão para reforçar o abastecimento para 4 milhões de habitantes de 13 municípios – incluindo a Região Metropolitana de Fortaleza –, é o maior empreendimento de infraestrutura do Ceará. Essa obra tem visibilidade internacional, pois conseguiu integrar um projeto de infraestrutura de grande envergadura com necessidades hídricas da população. Outro exemplo é a barragem de Ponto Novo, construída no semiárido baiano para perenizar o rio Itapicuru-açu, possibilitando a instalação de três sistemas integrados de fornecimento de água, que, juntos, beneficiaram 70 mil pessoas. O empreendimento foi financiado pelo Banco Mundial, que o utilizou como referência, apesar do pequeno porte.

OI – O que a Usina Hidrelétrica Santo Antônio tem a ensinar para o mundo, no que diz respeito à água?
Gabriel
– Já trabalhei em muitas hidrelétricas e nunca vi uma usina tão bem planejada do ponto de vista da sustentabilidade, em todas as suas vertentes: aspectos do meio físico, do meio social, da biodiversidade etc. Embora estejamos mexendo com o rio, quando olho para a obra tenho a impressão de que o Madeira e a usina têm uma relação harmoniosa.

OI – O que uma organização deve fazer para estar na vanguarda desse tema? E o que não deve?
Gabriel
– Não se deve menosprezar ou ignorar a importância do assunto. Afinal, não há nenhuma atividade econômica que dispense o uso ou a disponibilidade da água. Deve, além de implantar boas práticas internamente, influenciar a formulação de políticas que tenham como objetivo promover seu uso eficiente e sustentável. Um exemplo: incluirmos no Programa de Qualificação Continuada Acreditar módulos sobre água. Precisamos dar o exemplo e influenciar.

É preciso contabilizar a água que é consumida em produtos industrializados e agrícolas. A soja e a carne brasileiras, exportadas em grandes volumes, têm embutida a água utilizada no seu cultivo. É o conceito de água vitual.

OI – Quais são as tendências mundiais para o tratamento da questão?
Gabriel
– Começamos a ver uma discussão em torno da água virtual. É preciso contabilizar a água que é consumida em produtos industrializados e agrícolas. A soja e a carne brasileiras, exportadas em grande escala, têm embutida a água utilizada no seu cultivo. Da mesma forma, as resinas que a Braskem exporta para cinco continentes. Com isso, o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de água. As atenções têm se voltado para o debate sobre mudanças climáticas. Trata-se, realmente, de uma questão complexa, com impactos em escala global e que precisa ser discutida. Mas a água também tem essa dimensão e não vem sendo analisada na mesma proporção.

OI – Como você trata a água na sua vida pessoal?
Gabriel
– Meu pai era engenheiro e sempre trabalhou em obras hídricas. Por isso, soube desde pequeno que meu destino era trabalhar com água. Ela faz parte da vida de qualquer ser humano, mas, no meu caso, desperta meu interesse desde a infância. Além do meu trabalho, meus hobbies estão relacionados à água. O favorito é a pesca. E da mesma forma como fui influenciado, procuro compartilhar minha vida profissional com meus filhos. Eles sempre visitaram projetos nos quais trabalhei, desde favelas na África até a Usina Santo Antônio, para onde pretendo levá-los esse ano. É uma maneira de explicar que a ausência que o meu trabalho lhes impõe se justifica pelo fato de eu estar fazendo algo de bom para outras pessoas e para o meio ambiente. E eles se preocupam, questionam. Hoje eles têm muito mais informação e consciência do que os jovens da minha geração. Mas o desafio deles, certamente, será muito maior.


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