Um marco na utilização de água industrial no Brasil, Projeto Aquapolo foi concebido para atender às empresas do Polo Petroquímico de Capuava, no ABC paulista
Dependências do Aquapolo no ABC paulista: novo paradigma de qualidade para água de reúso no país
Texto: Eliana Simonetti | Fotos: Bruna Romaro
Está em execução avançada, na região do ABC paulista, o Projeto Aquapolo, de produção de água de reúso para o Polo Petroquímico de Capuava. É a solução para alguns problemas sérios. As principais dificuldades para o desenvolvimento do polo são a poluição crescente do rio Tamanduateí, a falta de água na estiagem e a necessidade de utilizar água potável para fins industriais. O Aquapolo garantirá a água de uso industrial de que a petroquímica paulista necessita.
As indústrias do Polo Petroquímico de Capuava, também no ABC paulista, têm importante peso na economia paulista: recolhem 27% do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) arrecadado pelo estado; empregam cerca de 25 mil pessoas direta e indiretamente; e produzem materiais para consumo interno e para exportação – como etileno, polipropileno, polietileno, matérias-primas para a fabricação de resinas, borrachas, tintas e plásticos. Entretanto, para não danificar suas máquinas, essas indústrias dependem fortemente de fornecimento confiável de água e carecem de sustentabilidade desse ponto de vista.
O polo retira a maior parte da água de que precisa do córrego dos Meninos, afluente do rio Tamanduateí. Esse recurso está no limite, e já não se pode confiar que seja capaz de suprir as necessidades atuais – menos ainda as futuras, pois as empresas do polo pretendem expandir seus negócios.
Tecnologia de ponta
A Aquapolo Ambiental, Sociedade de Propósito Específico (SPE) criada pela Foz do Brasil (empresa de engenharia ambiental da Organização Odebrecht) e pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), contratou a Odebrecht Infraestrutura para construir uma Estação de Água Industrial (Epai) com tecnologia de ponta para fornecer água para uso industrial, dentro da área de sua Estação de Tratamento de Esgotos na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul (ETE ABC).
Atualmente, o esgoto tratado na ETE ABC é retornado à natureza. Quando a nova Epai estiver funcionando, após o tratamento costumeiro, o esgoto será conduzido a um tanque com bactérias que se alimentam de detritos orgânicos (quando eles forem insuficientes, a ETH, empresa de bioenergia da Organização, providenciará material para manter a colônia de bactérias viva e ativa).
Depois, o material passará por um vale de oxidação em forma de labirinto, cuja concepção foi premiada na Europa, o TMBR (Tertiary Membrane Bio-Reactor), com membranas de ultrafiltração, e seguirá para um equipamento de membranas de osmose reversa que, por pressão, extrai do líquido a alta condutividade e os padrões sólidos, amônia e outros elementos que tornam o efluente impróprio para uso industrial. “O Projeto Aquapolo estabelece um novo paradigma de qualidade para a água de reúso no país”, diz Ivanildo Hespanhol, especialista no tema, Professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
A água de reúso passará por duas estações elevatórias e partirá rumo ao polo por uma adutora, com tubos de 900 mm de diâmetro recobertos com tripla camada de polietileno (para maior durabilidade), com o selo da Braskem. Como a camada de polietileno é espessa, tocar nos tubos é mais ou menos como passar a mão em um pneu de carro. Só que cada tubulão de 12,30 m pesa 17.721 kg.
No polo, a água de reúso produzirá vapor e resfriará caldeiras. Quatro grandes reservatórios que não são aproveitados pela ETE ABC estão sendo cobertos para garantir o fornecimento ininterrupto de água aos clientes, mesmo em período de seca.
Obra e vida nas cidades
Na operacionalização desse projeto existe um desafio adicional. A região do ABC paulista é densamente ocupada por residências e empresas e seu solo contém muita areia e pedregulho. Implantar os tubos nesse ambiente não é tarefa fácil. Hoje, passear por algumas ruas de São Caetano pode exigir uma certa dose de paciência. De 100 em 100 metros, há enormes buracos, largos e fundos, onde descem trabalhadores trajados com equipamentos de segurança para cavar túneis horizontais, sustentados por peças de concreto antes de receberem os tubos de aço.
No entorno, a vida segue: passam pessoas com sacolas de supermercado, há caminhões fazendo manobras em pátios de empresas, grupos de crianças saindo das escolas. “Os trabalhos da Odebrecht foram planejados para não interferir na vida das cidades e de seus moradores”, explica Emyr Costa, Diretor de Contrato do Projeto Aquapolo.
Assim, onde existe muita área construída, muito movimento, o método utilizado é este: os tubos são instalados em pequenas partes, que depois são soldadas. Quando o solo permite, a perfuração é feita com máquinas que parecem miniaturas dos tatuzões (shields) usados em obras de metrô. E em outras áreas, como às margens do rio Tamanduateí, os tubos são acomodados em valas abertas.
Conforme dados da Sabesp, a Região Metropolitana de São Paulo é uma das mais carentes de disponibilidade hídrica do país, com índices semelhantes às das áreas mais secas do Nordeste, de 201 m por habitante ao ano – muito abaixo do recomendado pela ONU, que é de cerca de 2.500 m. Mesmo que de forma indireta, a Aquapolo propiciará o aumento da oferta de água tratada e a melhoria das condições de saúde da população. “Não resta dúvida de que este é um empreendimento de fundamental importância para a sustentabilidade do Grande ABC e do Polo Petroquímico de Capuava”, afirma Guilherme Paschoal, Diretor de Operações da Aquapolo Ambiental.
Sustentabilidade e economia
A planta da Aquapolo é a maior desse tipo no Hemisfério Sul e a quinta maior do mundo. Seu cliente mais importante é a Quattor, controlada pela Braskem, que consumirá mais de 60% do que será produzido pelo projeto, mas empresas como Cabot, Oxiteno, White Martins e Oxicap, todas localizadas no polo, também serão beneficiadas. Além de ganhar em sustentabilidade, essas empresas farão economia, já que a água de reúso custa 30% menos que a que passa por tratamento convencional. “Este é um projeto pioneiro que representa um marco na utilização de água industrial no Brasil”, afirma Celso Luiz Tavares Ferreira, Vice-Presidente de Químicos Básicos da Quattor, empresa que, em 2010, registrou expansão de 40% em sua produção.
Há mais. Apesar do objetivo do projeto ser voltado ao Polo Petroquímico, a planta terá capacidade maior que a necessária. Abre-se, assim, a perspectiva de utilização da água de reúso por outras empresas e municípios localizados no entorno da adutora. Com o Aquapolo, ganham as empresas, os governos, a população (com a manutenção e possivelmente o aumento de oferta de empregos na região) e o meio ambiente, pois o efluente descartado após o uso industrial terá melhor qualidade que o atual.
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Dependências do Aquapolo no ABC paulista: novo paradigma de qualidade para água de reúso no país
Parte da estrutura do Aquapolo no ABC Paulista: referência entre os projetos voltados para o reúso de água